quinta-feira, 21 de agosto de 2025

direita embeiçada pelo fascismo

  ''(...)veremos quanto tempo dura esta gritaria da direita fascista e da direita embeiçada pelo fascismo.''

Vicente Alves do Ó, cineasta português

terça-feira, 19 de agosto de 2025

''— Quem ajeita os cabelos dos filhos? Quem ajeita a toalha sobre a mesa e a intimidade da casa? Quem ajeita os olhos dos filhos?

— As mães."

"A Metamorfose dos Pássaros" (2020), filme de Catarina Vasconcelos


 


“Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, no livro “Toda poesia: Na vertigem do dia”. — 12 — ed. — RJ: José Olympio, 2007.

Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui.

 ''Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.''

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

''discreta e incendiária, à mesa e na página''

 María Luisa Bombal

Après nous, le déluge.

Quentin de La Tour

( XVIII e siècle) L'expression après nous, le déluge est attribuée par le peintre Quentin de La Tour à Madame de Pompadour à l'adresse de son amant Louis XV lors de la défaite, le 5 novembre 1757 à Rossbach, des troupes franco-autrichiennes face à l'armée prussienne du Roi Frédéric II.


Markéta Luskačová, Fotógrafa checa

 

 JOAQUIM

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. 
Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de
 cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto, no livro "Serial e antes: os três mal amados". (Ed. Nova Fronteira; 1. Edição [1997]).


Ferida na asa uma Cotovia,
O Querubim seu canto suspendia.


Olga Tokarczuk. 
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 145

Lia e não era capaz de parar.

 «Lia e não era capaz de parar. E creio que aconteceu comigo aquilo que o Autor desejava - tudo o que li infiltrou-se nos meus sonhos, e toda a Noite tive visões.»

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 143

''vi-lhe as maçãs do rosto corar''

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 143

Takashi Kokubo (小久保隆) - Oasis Of The Wind ~ Forest Of Ion ~ (風のオアシス~イオンの...

                                                     Markéta Luskačová, Fotógrafa checa


 

Paisagens Inúteis, 2006

Augusto Alves da Silva , fotógrafo

Exposições

pechinchas

« Aimer, c’est à la fois un gouffre et en même temps, c’est survoler le sol. »

 Laetitia Casta

La sexualisation

« J’ai traversé 25 ans de souffrance masculine, que ce soit la misogynie ou que ce soit dans le fait d’avoir été rendue objet du désir ou simple objet. »

Laetitia Casta

"L'amour est mort"

segunda-feira, 18 de agosto de 2025


 Forugh Farrokhzad

 

Yes I said my name is Lee



''Yes I said my name is Lee
I murdered little Sadie in a first degree''


Little Sadie



I Am The Wolf

 Livro do compositor e cantor Mark Lanegan

Lyrics And Writings

“Devil In a Coma”

livro do compositor e cantor Mark Lanegan

Flatlands | Mark Lanegan


I want flatlandsI never cared about money and all its friendsI want flatlands
I want flatlandsI don't want precious stonesI never cared about anything you've ever owned
I want flatlandsI want simplicityI need your arms wrapped hard around me
I want open plains and scattered treesI want flower fieldsI want salty seas
I want flatlandsSoft and steady breezeBringing scents of lined-up orchard treesDripping heavy with pears and dancing leavesI want flatlandsWill you go there with me?
When it's said in the dark and you know it's always thereWhen it's dead in your heart but your mind is unafraidWhen it's said in the dark and you know it's never coming backWhen it's there in your heart in your mind you set it free

Canção de Mark Lanegan, 2013

“Sing Backwards and Weep”

biografia, músico Mark Lanegan

domingo, 17 de agosto de 2025

Abacaxi-Vermelho-Do-Mato

Soneto da separação

Soneto da separação
Canção de António Carlos Jobim e Elis Regina


De repente do riso, fez-se o pranto
Silencioso e branco, como a bruma
E das bocas unidas, fez-se a espuma
E das mãos espalmadas, fez-se o espanto
De repente da calma, fez-se o vento
E dos olhos desfez a última chama
E da paixao, fez-se o pressentimento
E do momento imóvel, fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste, o que se fez amante
E de sozinho, que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se Davi duma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Compositores: Marcus Vinicius Da Cruz De Mello Moraes / Antonio Carlos Brasileiro De Almeida Jobim

melodias "Jobinianas"

Marcel Mariën – Le grillon du foyer, 1986


 

The Black Keys - Babygirl

 « A Primavera é só um breve interlúdio, atrás da qual marcha um poderoso exército de morte que já cerca os muros da cidade. Vivemos sitiados. Se observássemos de perto cada um dos fragmentos de um instante, poderíamos sufocar de pavor. Nos nossos corpos, avança imparável a decomposição e, em breve, adoeceremos e morreremos. Partem os nossos entes queridos, a sua memória esvanece-se no burburinho e, por fim, nada fica. Somente no guarda-fatos resta alguma roupa e, numa fotografia, permanece alguém que já ninguém reconhece. As recordações mais valiosas esfumam-se. Tudo mergulha na Escuridão e desaparece.»

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 134

'' a morte advirá por culpa própria''

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 130

beatas acesas

 « Também ouvi dizer que às vezes se enganam e trazem para o ninho beatas acesas, e assim se tornam incendiárias do edifício onde construíram o ninho.»

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 109

''Uma Pega - azar; duas Pegas - sorte.''

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 108

 «(...), o Predador deve, então, cair em si, desistir da perseguição e, desgostoso, aterrar nas ervas.»

 

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 108

Marcel Mariën – Entrer chair et terre, 1991


 

About Time You Came to Me

Entre a verdade e os infernos 
Dez passos de claridade
Dez passos de escuridão.

Hilda Hilst
 quando em ti penso sou seguro e claro;
gira a terra sem melancolia,
aceito tudo como o tempo o quis.


António Franco Alexandre, "Duende" in Poesia, ed. Assírio & Alvim

''Homem-pássaro''

I Owe It To The Girls

 


''na alta Idade Média, povoação rural que tinha o direito de escolher livremente os senhores que mais lhe conviessem para sua defesa e bem-estar''

Questões de Princípio



Não me exijam 
que diga 
o que não digo

não queiram 
que escreva 
o meu avesso

não ordenem 
que eu aceite 
o que recuso

não esperem 
que me cale
 e obedeça


Maria Teresa Horta



«Eu gosto dos seus textos, mas os seus textos precisam de ter pontuação. Tal como estão, os seus textos são como uma mulher muito bem vestida sem sapatos.»

Marcel Mariën- La cathedrale, 1983

 


sufragistas

Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto.

''Sobretudo, não queria que o seu pai, o médico Jorge Horta, decidisse por si.

Pois, na realidade o que eu não queria mesmo era ser exatamente como as mulheres da minha família… Casavam-se, eram criadas naquela educação de acordo com a qual as mulheres tinham o dever de obedecer. Ser mãe e ser mulher, ou melhor, ser esposa (como eles diziam), eram os papéis principais. E depois, muitas outras coisas por aí adiante, menos… ser escritora. Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto. (Maria Teresa Horta)''

Entrevista Revista Visão

 https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/


“Queria sempre qualquer coisa que não devia querer”

''Fui um problema para a minha família desde muito cedo: eu era sempre qualquer coisa que não devia ser, queria sempre qualquer coisa que não devia querer.''

Maria Teresa Horta

Entrevista, Revista Visão

https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/

desobedientemente

I Dreamed of You, Maria

 


Maria Teresa Horta

       "Eu sempre fui considerada uma pessoa de mau feitio em todo o lado, dos jornais à família"



Anunciações (2016)

''texto-trama-tecido''

 “desperta a causa/ e desperta a língua/ a procurar o meu prazer/ na ferida” 

Maria Teresa Horta

dar o dito por não dito

'' camoniana linhagem''

Cronista não é recado (1967)

Virou Lágrimas


Marcel Mariën
 

''angelismo sexual''

“boca do corpo”

 metáforas

''codificação da poesia''

  “Ossifico a dor/ o dia// Tatuagem/ de tatuar o espaço/ livre”

Maria Teresa Horta

''poesia-tatuagem''

recrudescimento

Emma Ruth Rundle - "Fever Dreams"

 


escamisar


''Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal […] sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.''

António Carlos Cortez, Revista Visão, 2025

"Quanto mais me proíbem, mais eu faço."

Ponto de honra



Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo oposto do que ouço

Evito o que me ensinaram
invento troco disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato

Escrevo
e cuspo na fogueira


in Inquietude, 2006

''A menina que pintava pássaros''

Forugh Farrokhzad




 

Lides domésticas

Sempre varreu a tristeza para debaixo do tapete, talvez não seja uma mulher asseada, talvez nem seja uma mulher feliz, mas vê tanta desgraça no mundo, que encontra consolo na desgraça alheia, não é bonito de dizer, não diz, mas é um facto, não tem de atravessar o Mediterrâneo num barco de borracha, nem ficou com a casa em escombros depois de um ataque de mísseis, não passa fome, não dorme ao relento, e assim os seus dias passam sem permitir-se um lamento, depois, para lavar o tapete teria de afastar todos os móveis, os móveis e o elefante na sala, só ela vê o elefante na sala, enormíssimos móveis, pesadíssimos móveis, móveis que não escolheu, e voltar pôr os móveis no mesmo lugar, no lugar exacto, no exacto lugar para não deixar à vista as marcas dos móveis no tapete.

Raquel Serejo Martins

 Corações de azeite


Natal, Páscoa, Pentecostes, São João, Todos os Santos
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Ramadão, Diwali, Holi, Vesak, Hanukkah, Yom Kippur, Purim
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Estação da chuva, da seca, dos furacões, dos incêndios
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Não importa o berço, importa o corpo,
carne da tua carne, no corpo somos iguais.
Os dias passam, os anos voam, tantas vezes sem cantar
não como os pássaros, mas como as mulheres no Afeganistão
há peixes que nunca nadaram no mar
e desligo a televisão
como se o mundo mudasse por eu clicar um botão
como se o mundo pudesse não ser esta balança imperfeita
como se para o bem de uns fosse indispensável o mal de outros
como se a guerra fosse um acontecimento banal
e com um sorriso triste e gasto de tanto uso penso no poema Reyerta
do meu amado Lorca que não chegou ao Natal.
Señores guardias civiles: aquí pasó lo de siempre.
Han muerto cuatro romanos y cinco cartagineses.
Penso nos seus anjos de longas tranças
y corazones de aceite
e nos novos anjos negros
senhores dos ecrãs e dos bastidores,
novo Natal, novilíngua, asas de pechisbeque,
seres alados falazes, artificiais,
que não passam de fraca imitação dos velhos,
que vão passando apesar dos gritos de não passarão,
e sei do que falo, porque estou cada vez mais velha.

Raquel Serejo Martins

Hiroshi Yoshimura - A・I・R (Air In Resort)

sábado, 2 de agosto de 2025

«Gostas dela agora», disse, « mas um dia gostarás de outra pessoa.»

 Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 103


 Forugh Farrokhzad

cobril

« Não tinha ainda conhecido um misógino.»

 Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 101

''visão hegemónica''

"Filhos de um cão"

 « O ar frio castigava os meus pulmões e a minha sinusite, provocando-me uma espécie de lucidez visionária.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 91

The Willow Tree

 « Se ser neurótica é querer duas coisas que se excluem mutuamente, então sou uma neurótica acabada . Vou passar o resto dos meus dias  a voar de uma coisa para a outra.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 91

 « Praguejava enquanto pensava: « Não podes acarinhar estes doentes. Isto é o pior que lhes podes fazer. Dá cabo deles.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 90

''cinzeiro de barro em forma de folha de nenúfar''

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 88

 « A tuberculose é como ter uma bomba nos nossos pulmões», escreveu o Buddy numa carta que enviara para a faculdade. « A única coisa que se pode fazer é esperar que não rebente.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 86

'' a fome como arma''

 «Sentia-me empanturrada, entorpecida e desiludida, como me sinto sempre no dia a seguir ao Natal, (...)»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 85

quarta-feira, 30 de julho de 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025



"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

José Saramago

domingo, 27 de julho de 2025

Pulp - Tina


Tina
Pulp

Tina
Saw her this morning on the train
She's playing games
Sometimes she changes the colour of her hair
Or her skin
Does she still wear the T-shirt
With the horizontal stripes?
The one she wore
The night I almost spoke to her

Tina's always attentive to my needs
We're really good together
'Cause we never meet
Tina
Yes. Tonight I have been thinking about
Tina

Tina
Do you remember walking past me in the snow?
14 years ago
Or on the escalator last Saturday
You were wearing rainbow gloves
With matching socks
What a display
Of everyday sexuality

Although we've never spoken
Or exchanged e-mails
We got a strong connection
It just can't fail

Tina
Tina
Yes. Tonight I have been thinking about

Scenes from a marriage that never took place
Although I did once buy a ring
Yeah

Tina
There's tantalising and teasing
And I forgot what I was going to say to you
Oh, oh
Oh Tina
What are you like?

Tina
There is no alternative
But I got to live (You know)
And I ain't living on my own, oh, no
All those places we never met
Near misses
Your lipstick on my coffee cup

Screwing in a charity shop
On top of black bin bags
Full of donations
The smell of digestive biscuits in the air
Welcome back to Dreamland
We all know your name
T-I-N-A, still reads her book on the train

Tina
Tina
Tina
Well, tonight I have been thinking about
Tina

terça-feira, 22 de julho de 2025



"No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo."

António Lobo Antunes

Eu Quero Morrer no Mar


Olha os teus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.
Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.
E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.
António Lobo Antunes

 


 "PORTUGUÊS" É O ÚNICO IDIOMA EM QUE SE PODE ESCREVER UM TEXTO SÓ COM A LETRA "P".

''PODEMOS PARTIR?
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
.
Pálido, porém perseverante, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo… "Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses".
.
Passando pela principal praça parisiense, partindo para Portugal, pediu para pintar pequenos pássaros pretos. Pintou, prostrou perante políticos, populares, pobres, pedintes. - "Paris! Paris!" Proferiu Pedro Paulo. -"Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir".
Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: -Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? -Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro.''

TUDO É INCÓMODO QUANDO A TERRA TREME


Joana Dionísio, projecto de fotografia

UMA AZEITONA BORDADA EM AZUL




Rui Costa
2024
Fotografia

https://anarrativa.com/uma-azeitona-bordada-em-azul

"Este não é o lugar que prometeram"

M. T. Evans. Edições Fantasma & Traça Editora

 


                                         Carolyn Drake, Blue Sheet with Hands (John D), 2022

Yo La Tengo- "This Stupid World"

 Os cuidadores também se abatem.


''Atravesso a ponte e vejo uma cidade que se abre em luz oblíqua e calor denso — assim em modo de cenário de “Le Mépris”, de Godard, onde a beleza não impede o colapso, apenas o emoldura.

Hoje, véspera de feriado numa semana já feriada, sou talvez dos poucos que trabalham. No rádio, entre os ecos de um golo e a publicidade de um carro híbrido, alguém murmura - como quem muda de canal num velho gira-discos:
"Os cuidadores informais, esses invisíveis."
A frase (creio que dita por Henrique Raposo, na Renascença) fica-me presa ao peito, como uma nota suspensa na guitarra de Carlos Paredes. Ou como aquele verso de Herberto Helder:
"É que amar é muito mais do que um verbo de ação. É um verbo de risco.".

Em Portugal, estima-se que existam mais de 800 mil cuidadores informais. Cerca de 234 mil vivem em regime intensivo - 24 horas por dia, sete dias por semana.
Sem folgas. Sem rede. Sem futuro certo. Sem luz de cena.
São os que transformam a sala de estar num quarto de hospital, que sabem de cor o nome de cada comprimido, o intervalo entre as crises, a diferença entre um gemido e um suspiro.
São os que adiam a própria vida para manter viva a de outro.

A maioria são mulheres. Como a D. Maria do Carmo, de Vila Real, que cuida do marido há onze anos, desde o AVC. Ele recebe 492 euros de reforma. A dela está suspensa - porque ela própria também está: suspensa entre turnos de afeto e exaustão.
Ou a Ana Luísa, de Alvalade, que interrompe o doutoramento para cuidar da mãe com Alzheimer. Lê Thomas Mann às escondidas do tempo, como quem tenta salvar a lucidez entre uma fralda e uma sopa.
São também histórias como a da D. Maria Emília, que mal consegue sair de casa para ir ao supermercado, porque o tempo que dedica a cuidar do marido com Parkinson não a deixa respirar.
Os homens também contam, embora em menor número.
Tenho um amigo, o Luís Filipe, formado em contabilidade e em gestão de empresas, filho único de filhos únicos, que abdica ainda jovem da sua profissão - e, tantas vezes, da sua vida privada - para cuidar dos pais, ambos com demência.
É ele quem muda pensos, quem gere as contas, quem acalma os delírios noturnos.
Ou o Paulo, que também abandonou o emprego para acompanhar a mãe com cancro, e agora sente a solidão de um dia que nunca acaba.

O Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, foi um passo importante. Mas a realidade ainda tropeça nos degraus do costume:
apoios limitados, candidaturas labirínticas, verbas escassas, desinformação crónica.
Em 2023, apenas 0,9% dos cuidadores estavam formalmente reconhecidos pelo Estado.
A burocracia exige fôlego, paciência e tempo - precisamente o que um cuidador não tem.
Cuidar não é apenas trabalho físico. É uma forma de amor absoluto - e, por vezes, uma violência emocional surda.
Como escrevia Maria Gabriela Llansol:
"Sou o lugar onde pousa a dor dos outros."
E sim, os cuidadores também se abatem.
Dormem pouco. Perdem peso. Perdem amigos. Perdem voz.
Alguns entram em depressão. Outros tomam ansiolíticos para conseguir continuar a dar medicação a quem amam.
Outros ainda adoecem - e calam. Porque, nisto, até o sofrimento se faz em silêncio.
Mas continuam. Porque desistir não é uma opção que o amor permita.

E, no entanto, cuidar talvez seja o último gesto profundamente humano que nos resta.
A antropóloga Margaret Mead dizia que o primeiro sinal de civilização não era a roda — mas um fémur sarado.

Alguém, algures, parou. Cuidou. Ficou.
Talvez um dia este país, que se comove com troféus e lágrimas no pódio, perceba que o verdadeiro heroísmo acontece no anonimato.
Num corredor mal iluminado. Entre uma queda evitada, uma sopa morna, uma chávena de chá.
Talvez um dia os cuidadores tenham salário, descanso, formação, tempo.
Talvez um dia lhes perguntem simplesmente:
"E a senhora, como está?"
Até lá, continuam — invisíveis, sim, mas insubstituíveis - a escrever todos os dias, com gestos minúsculos, a história mais antiga da humanidade:
a de quem fica quando todos os outros já partiram.''

___ Luís Galego
.

 ''Há, nos usos contemporâneos da linguagem e da convivência, uma forma subtil e quase sempre inconsciente de violência simbólica que se manifesta sob o véu da ternura. Refiro-me à tendência, cada vez mais disseminada, de tratar os mais velhos como criaturas enternecedoras, inofensivas, quase infantis, como se a passagem do tempo operasse não o amadurecimento do sujeito, mas a sua redução a um ser amorfo, simpático e passivo, indigno de plena agência.

A minha sogra, que conta hoje com noventa e um anos, é um exemplo raro e luminoso de lucidez, vigor e autonomia. Cozinha diariamente, trata das suas roupas, organiza a sua casa com zelo, acompanha a atualidade, mantém a memória intacta e, mais importante, conserva com limpidez a noção de si. No entanto, numa clínica onde a dada altura realizava sessões de fisioterapia, uma funcionária persistia em tratá-la como “tiazinha”, usando uma tonalidade afetada que se julga afável, mas que tresanda a paternalismo. Interroguei a senhora, num tom cortês, mas inquisitivo, sobre o grau de parentesco que a ligaria à minha sogra. Respondeu, com um sorriso quase indulgente, que gostava muito de velhinhas. A frase, embora à superfície inofensiva, guarda em si a mesma lógica que preside àquelas declarações supostamente elogiosas de quem diz gostar muito de "pessoas de cor", ou de ter "amigos gay", porque são tão “alegres”, tão “engraçados”, tão “boas companhias”. O exotismo do outro, mesmo quando revestido de aparente apreço, nunca deixa de ser uma forma de objetificação.
Recentemente, numa consulta médica, presenciei uma situação ainda mais gritante. Após consultar os excelentes resultados das análises da minha sogra, o médico dirigiu-se exclusivamente a mim e à minha mulher, como se ela própria, sentada diante de nós, fosse já um corpo ausente, uma figura decorativa no cenário da sua própria saúde. Falava dela como quem comenta o estado de um objeto ou a performance de um aparelho doméstico, ignorando por completo que estava a tratar uma mulher lúcida, consciente, informada. Aquilo que deveria ser uma relação entre médico e paciente converteu-se, sem aviso, numa espécie de colóquio entre tutores.
Essa mesma lógica está presente no discurso mediático, onde se nota uma resistência quase patológica em nomear os mais velhos como homens ou mulheres. Um canal de televisão, especializado na estetização do infortúnio, referia-se recentemente a uma senhora de cinquenta e quatro anos como "uma idosa", como se o termo “mulher” já não se lhe aplicasse, como se a partir de certa idade o sujeito se desfizesse da sua individualidade e regressasse a uma vaga categoria antropológica, sem género, sem personalidade, sem história. É a negação da biografia em nome de uma suposta neutralidade higiénica.
Em conversas de ocasião, também se ouve com frequência aquele tom peculiar que muitos adotam ao falar com os mais velhos, um timbre agudo, infantilizado, como se o interlocutor fosse surdo, lento ou intelectualmente diminuído. Perguntam à filha ou ao genro o que a pessoa “gostaria de comer”, estando ela presente. Fazem festas na mão como quem acaricia um animal de estimação. Dizem "tão fofa", "tão querida", "ainda anda sozinha", com o mesmo assombro que dedicariam a um cão que sabe abrir portas. Esta forma de convivência, que à superfície parece meiga e bem-intencionada, é profundamente despersonalizante.
É urgente reconsiderar a forma como nos dirigimos àqueles que viveram mais do que nós. Tratar uma pessoa mais velha com condescendência não é respeitar a sua idade; é negar a sua dignidade. O tempo deve ser um lugar de acumulação, não de apagamento. E há, na forma como falamos dos velhos, um espelho cruel da nossa incapacidade de imaginar o envelhecimento como uma fase legítima da existência humana, rica em presença, em memória, em voz.
A minha sogra não é “uma velhinha”. É uma mulher. Tem nome, tem vontade, tem saber. Foi professora durante muitos anos. Teve milhares de alunos. Alguns ainda lhe telefonam no aniversário ou em épocas festivas. Ela faz o mesmo. E merece ser tratada com o mesmo respeito que qualquer adulto que ainda não chegou à idade dela exige para si. Tudo o resto é polidez de superfície, e a polidez, sem verdade, é apenas outra forma de desprezo.''



Se te pudesse dizer
O que nunca te direi
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei

Fernando Pessoa


Retrato de Clarice Lispector, 1961. Acervo Claudia Andujar/Cortesia Galeria Vermelho.

 

A ESCADA E A FORMIGA


À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Em cada patamar ela estaciona
de um jeito surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha, sem aviso, um pedaço de asa
e corre pra chegar à casa que desconhecemos.
Faz folia em todas as escalas
e depois desce, gabola, até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua aventura.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala machucada,
o sal que faz arder seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
até o latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.

José Lezama Lima, «A Escada e a Formiga», tradução de Josely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, 'Inimigo Rumor', n.º 1, janeiro-abril de 1997.
“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

 Clarice Lispector

"Prêt-à-porter"



Bob Kaufman. "Solidões cheias com solidão" Edições Fantasma

distopia

sociedade fictícia caracterizada por condições de vida extremamente negativas (alienantes, totalitárias, etc.), geralmente situada num tempo futuro e concebida com o objetivo de advertir contra os perigos de determinada utopia ou para criticar a ordem social e/ou política existente no momento da sua criação


Powered By Blogger