terça-feira, 26 de agosto de 2025

Consagración

               Al amanecer                me consagro

A la fragilidad

Al tiempo quebrándose en las mañanas

A la desnudez de la piedra

A la urgencia que apremia a los ratones

Al denso color de la noche aceptando su derrota

Al sol frío

Al que busca arroparse

A la incertidumbre que deja un primer beso

A lo que esconden las ciudades

Al silencio de los amantes

A las flores que nacen de noche y mueren de día

A la huella del mar en la arena

A Dios en un pan

Al hombre encarcelado

Al paso de un éxodo


A la imperiosa necesidad

de estar amaneciendo

me consagro.
Poema de Max Echeverría Burgos


María Luisa Bombal
Romancista chilena




 

Há maridos que são cabritos

''São os maridos cabritos, uma espécie que salta muros, sempre em busca de pasto verde, ignorando a pastora, que mal o apanha nos braços, o afaga, tratando-o como o bebé que é. Lava-lhe a roupa, seca, estende, prepara as refeições e de noite, ensaia algumas acrobacias desajeitadas, para que o cabrito não sonhe pular a cerca. Parece um discurso do passado, mas ainda há muitos maridos cabritos por aí e muitas pastoras prontas a acolher e a venerar estes bichos.''


https://www.publico.pt/2025/01/03/impar/cronica/ha-maridos-sao-cabritos-2117526?fbclid=IwY2xjawMZ7ItleHRuA2FlbQIxMQABHoZ9lMaPnep1PS8pQn1bisLLk_PVnIZchZlLTXI3KNFx32ZoNLjwor9yrf7z_aem_jokc9V5IqOP_aIYrAbtrQw


"O cabritinho pulou a cerca, porque tinha muita fome e sentia-se mal-amado"

Matilde Fieschi

Os Homens Esquecidos de Deus, 1940

 Albert Cossery, Escritor egípcio-francês

«Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe.»

Albert Cossery, Escritor egípcio-francês


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

domingo, 24 de agosto de 2025

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

''lágrimas da primeira infância''

 Pascal Jardin




 

"Happiness is in the quiet, ordinary things. A table, a chair, a book with a paper-knife stuck between the pages. And the petal falling from the rose, and the light flickering as we sit silent."

“Precisamos de mais cabras nos montes e de menos cabrões nos gabinetes.”

 A lucidez do cidadão anónimo.

 "Quando políticos tão diferentes se queixam do mesmo suposto inimigo, ficamos com a ideia de que são paranóicos com a mania da perseguição"

Ricardo Araújo Pereira

I'll Take Care Of You


I know you've been hurt by someone elseI can tell by the way you carry yourselfBut if you'll let me, here's what I'll doI'll take care of you
I, I loved and lost, the same as youSo you see, I know just what you've been throughSo if you'll let me, here's what I'll doI got to take care of you
You won't ever have to worryYou won't ever have to cryI'll be there beside youTo dry your weepin' eyes
So darlin', tell me that you'll be true'Cause there's no doubt in my mindI know what I want to doAnd just as sure as one and one are twoI just got to take care of you
I'll take care of youI'll take care of youI'll take care of you
Canção de Mark Lanegan ‧ 1999

'' O príncipe da liberdade''

 Vicente Alves do Ó, cineasta português

“Quero ser João de Deus”


[…] João de Deus é um sacana lúcido, que transforma a idiotia numa figura essencial de intercurso poético com o mundo. Ele acredita, e deveríamos todos acreditar, na fórmula de Pushkin: "Toda poesia tem que ter um quê de estupidez". O nome mais comum do mundo, João, somado à maior "personagem" do imaginário ocidental, Deus, só poderia resultar nesse ser mundano e vulgar que, uma vez presenteado pelo céu, assume uma nobreza que lhe parece, no fundo, inata. Mas Deus quis que João fosse rico por quê? Para que ele não sujasse o reino dos céus? Ou por reconhecer nele seu projeto mais bem acabado? Vistos em conjunto, A Comédia e As Bodas de Deus fornecem, através de uma escrita muito original, um ensaio político-erótico sobre a civilização ocidental – do cristianismo ao marxismo, do atávico ao dessacralizado, da dialética à distopia –, no que o fato de estarem entre os filmes mais engraçados da história só pesa a favor, naturalmente (levando em conta qualquer relação possível com o cinema). […]
Luiz Carlos Oliveira Jr. – “Quero ser João de Deus”
In contraponto – revista de cinema
*
Sinopse:
As Bodas de Deus" é um filme português de 1999, dirigido por João César Monteiro, que narra a história de João de Deus, um marginal que recebe uma mala cheia de dinheiro de um enviado de Deus. Com essa fortuna, ele tenta ascender socialmente, mas acaba envolvido em situações absurdas e criminais, sendo julgado e preso. O filme é uma comédia satírica e provocadora, explorando temas como a fortuna, a moralidade e a relação entre o homem e o divino.
Sinopse detalhada:
João de Deus, após perder todo o seu dinheiro no filme anterior, "Recordações da Casa Amarela", aparece como um vagabundo em um parque, onde encontra um enviado de Deus. O enviado lhe entrega uma mala cheia de dinheiro, dando início a uma série de eventos hilários e absurdos. João, com a nova fortuna, tenta entrar na alta sociedade, envolvendo-se em jogos de azar, conhecendo a alta sociedade e a princesa Elena, que foge com seu dinheiro.
A história segue com João sendo preso por posse de material de guerra, fruto de suas atividades criminosas. Durante sua prisão, ele encontra o enviado de Deus, que se apresenta como Cristo após a Ascensão e nega ter lhe dado o dinheiro. João é julgado, condenado e preso, mas encontra apoio em Joana, uma jovem que havia conhecido antes, e que o espera quando ele é libertado. O filme termina com João e Joana partindo juntos, marcando o fim da comédia.
"As Bodas de Deus" é conhecido por seu humor negro e provocador, com o qual João César Monteiro critica a hipocrisia da sociedade e a busca desenfreada por dinheiro e status.





"As cabras sobem encostas, mastigam mato seco, equilibram-se nas pedras como bailarinas precárias, ajudam-nos a tratar do planeta. Não enganam ninguém.
Os cabrões de gabinete engolem-nos em formulários, em decisões arbitrárias, em promessas nunca cumpridas, em corrupções nunca castigadas. Vivem do engano.
Já estive rodeado de cabrões engravatados. Saí sempre a perder. O mato regenera-se; a confiança não.
Uma cabra no monte faz mais pelo mundo do que dez cabrões atrás de uma secretária ou de um púlpito.
Antes o som de uma cabra a mastigar do que o de um cabrão a falar."

Pedro Chagas Freitas

Morrer de amor

 Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se por preciso

Maria Teresa Horta


O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que têm medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

Henry Van Dyke

Incendiar as certezas, não as florestas!

 


“Como um sonho acordado” (Fausto), com Adolfo Luxúria Canibal


Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir

Arrasta-me à côncava do fundo
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p'lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes

''caridadezinha''

''Ignorância é felicidade''

O mundo sempre esteve na mão dos que têm muito dinheiro.

''Um país que não lê, é um país que não pensa. Que não desenvolve pensamento crítico. Que se submete ao pensamento do outro. A direita sempre desprezou as coisas da cultura e das artes, porque a cultura e as artes são uma chatice. Fazem perguntas. Denunciam. Gritam. Apontam o dedo. Não têm medo. Agora, além da cultura, isto é um ataque à educação. Estive a ler o projecto que deseja substituir este. Ar. Só tem ar lá dentro e generalidades. Mais nada. Ou seja, queremos novas gerações agarradas aos telemóveis, a consumir tik tol e a acreditar em tudo que lhes colocarem à frente. O mundo sempre esteve na mão dos que têm muito dinheiro. O estado social que vingou a seguir à segunda guerra mundial está a ser atacado por todos os lados. Porquê? Porque os senhores com muito dinheiro e que não se cansam de ter mais dinheiro ainda, querem uma população subserviente e consumidora. Só isso. E de preferência, que não faça perguntas. Nenhumas. Nem pense.''

Vicente Alves do Ó, cineasta português


direita embeiçada pelo fascismo

  ''(...)veremos quanto tempo dura esta gritaria da direita fascista e da direita embeiçada pelo fascismo.''

Vicente Alves do Ó, cineasta português

terça-feira, 19 de agosto de 2025

''— Quem ajeita os cabelos dos filhos? Quem ajeita a toalha sobre a mesa e a intimidade da casa? Quem ajeita os olhos dos filhos?

— As mães."

"A Metamorfose dos Pássaros" (2020), filme de Catarina Vasconcelos


 


“Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, no livro “Toda poesia: Na vertigem do dia”. — 12 — ed. — RJ: José Olympio, 2007.

Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui.

 ''Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.''

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

''discreta e incendiária, à mesa e na página''

 María Luisa Bombal

Après nous, le déluge.

Quentin de La Tour

( XVIII e siècle) L'expression après nous, le déluge est attribuée par le peintre Quentin de La Tour à Madame de Pompadour à l'adresse de son amant Louis XV lors de la défaite, le 5 novembre 1757 à Rossbach, des troupes franco-autrichiennes face à l'armée prussienne du Roi Frédéric II.


Markéta Luskačová, Fotógrafa checa

 

 JOAQUIM

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. 
Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de
 cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto, no livro "Serial e antes: os três mal amados". (Ed. Nova Fronteira; 1. Edição [1997]).


Ferida na asa uma Cotovia,
O Querubim seu canto suspendia.


Olga Tokarczuk. 
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 145

Lia e não era capaz de parar.

 «Lia e não era capaz de parar. E creio que aconteceu comigo aquilo que o Autor desejava - tudo o que li infiltrou-se nos meus sonhos, e toda a Noite tive visões.»

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 143

''vi-lhe as maçãs do rosto corar''

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 143

Takashi Kokubo (小久保隆) - Oasis Of The Wind ~ Forest Of Ion ~ (風のオアシス~イオンの...

                                                     Markéta Luskačová, Fotógrafa checa


 

Paisagens Inúteis, 2006

Augusto Alves da Silva , fotógrafo

Exposições

pechinchas

« Aimer, c’est à la fois un gouffre et en même temps, c’est survoler le sol. »

 Laetitia Casta

La sexualisation

« J’ai traversé 25 ans de souffrance masculine, que ce soit la misogynie ou que ce soit dans le fait d’avoir été rendue objet du désir ou simple objet. »

Laetitia Casta

"L'amour est mort"

segunda-feira, 18 de agosto de 2025


 Forugh Farrokhzad

 

Yes I said my name is Lee



''Yes I said my name is Lee
I murdered little Sadie in a first degree''


Little Sadie



I Am The Wolf

 Livro do compositor e cantor Mark Lanegan

Lyrics And Writings

“Devil In a Coma”

livro do compositor e cantor Mark Lanegan

Flatlands | Mark Lanegan


I want flatlandsI never cared about money and all its friendsI want flatlands
I want flatlandsI don't want precious stonesI never cared about anything you've ever owned
I want flatlandsI want simplicityI need your arms wrapped hard around me
I want open plains and scattered treesI want flower fieldsI want salty seas
I want flatlandsSoft and steady breezeBringing scents of lined-up orchard treesDripping heavy with pears and dancing leavesI want flatlandsWill you go there with me?
When it's said in the dark and you know it's always thereWhen it's dead in your heart but your mind is unafraidWhen it's said in the dark and you know it's never coming backWhen it's there in your heart in your mind you set it free

Canção de Mark Lanegan, 2013

“Sing Backwards and Weep”

biografia, músico Mark Lanegan

domingo, 17 de agosto de 2025

Abacaxi-Vermelho-Do-Mato

Soneto da separação

Soneto da separação
Canção de António Carlos Jobim e Elis Regina


De repente do riso, fez-se o pranto
Silencioso e branco, como a bruma
E das bocas unidas, fez-se a espuma
E das mãos espalmadas, fez-se o espanto
De repente da calma, fez-se o vento
E dos olhos desfez a última chama
E da paixao, fez-se o pressentimento
E do momento imóvel, fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste, o que se fez amante
E de sozinho, que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se Davi duma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Compositores: Marcus Vinicius Da Cruz De Mello Moraes / Antonio Carlos Brasileiro De Almeida Jobim

melodias "Jobinianas"

Marcel Mariën – Le grillon du foyer, 1986


 

The Black Keys - Babygirl

 « A Primavera é só um breve interlúdio, atrás da qual marcha um poderoso exército de morte que já cerca os muros da cidade. Vivemos sitiados. Se observássemos de perto cada um dos fragmentos de um instante, poderíamos sufocar de pavor. Nos nossos corpos, avança imparável a decomposição e, em breve, adoeceremos e morreremos. Partem os nossos entes queridos, a sua memória esvanece-se no burburinho e, por fim, nada fica. Somente no guarda-fatos resta alguma roupa e, numa fotografia, permanece alguém que já ninguém reconhece. As recordações mais valiosas esfumam-se. Tudo mergulha na Escuridão e desaparece.»

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 134

'' a morte advirá por culpa própria''

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 130

beatas acesas

 « Também ouvi dizer que às vezes se enganam e trazem para o ninho beatas acesas, e assim se tornam incendiárias do edifício onde construíram o ninho.»

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 109

''Uma Pega - azar; duas Pegas - sorte.''

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 108

 «(...), o Predador deve, então, cair em si, desistir da perseguição e, desgostoso, aterrar nas ervas.»

 

 Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 108

Marcel Mariën – Entrer chair et terre, 1991


 

About Time You Came to Me

Entre a verdade e os infernos 
Dez passos de claridade
Dez passos de escuridão.

Hilda Hilst
 quando em ti penso sou seguro e claro;
gira a terra sem melancolia,
aceito tudo como o tempo o quis.


António Franco Alexandre, "Duende" in Poesia, ed. Assírio & Alvim

''Homem-pássaro''

I Owe It To The Girls

 


''na alta Idade Média, povoação rural que tinha o direito de escolher livremente os senhores que mais lhe conviessem para sua defesa e bem-estar''

Questões de Princípio



Não me exijam 
que diga 
o que não digo

não queiram 
que escreva 
o meu avesso

não ordenem 
que eu aceite 
o que recuso

não esperem 
que me cale
 e obedeça


Maria Teresa Horta



«Eu gosto dos seus textos, mas os seus textos precisam de ter pontuação. Tal como estão, os seus textos são como uma mulher muito bem vestida sem sapatos.»

Marcel Mariën- La cathedrale, 1983

 


sufragistas

Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto.

''Sobretudo, não queria que o seu pai, o médico Jorge Horta, decidisse por si.

Pois, na realidade o que eu não queria mesmo era ser exatamente como as mulheres da minha família… Casavam-se, eram criadas naquela educação de acordo com a qual as mulheres tinham o dever de obedecer. Ser mãe e ser mulher, ou melhor, ser esposa (como eles diziam), eram os papéis principais. E depois, muitas outras coisas por aí adiante, menos… ser escritora. Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto. (Maria Teresa Horta)''

Entrevista Revista Visão

 https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/


“Queria sempre qualquer coisa que não devia querer”

''Fui um problema para a minha família desde muito cedo: eu era sempre qualquer coisa que não devia ser, queria sempre qualquer coisa que não devia querer.''

Maria Teresa Horta

Entrevista, Revista Visão

https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/

desobedientemente

I Dreamed of You, Maria

 


Maria Teresa Horta

       "Eu sempre fui considerada uma pessoa de mau feitio em todo o lado, dos jornais à família"



Anunciações (2016)

''texto-trama-tecido''

 “desperta a causa/ e desperta a língua/ a procurar o meu prazer/ na ferida” 

Maria Teresa Horta

dar o dito por não dito

'' camoniana linhagem''

Cronista não é recado (1967)

Virou Lágrimas


Marcel Mariën
 

''angelismo sexual''

“boca do corpo”

 metáforas

''codificação da poesia''

  “Ossifico a dor/ o dia// Tatuagem/ de tatuar o espaço/ livre”

Maria Teresa Horta

''poesia-tatuagem''

recrudescimento

Emma Ruth Rundle - "Fever Dreams"

 


escamisar


''Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal […] sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.''

António Carlos Cortez, Revista Visão, 2025

"Quanto mais me proíbem, mais eu faço."

Ponto de honra



Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo oposto do que ouço

Evito o que me ensinaram
invento troco disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato

Escrevo
e cuspo na fogueira


in Inquietude, 2006

''A menina que pintava pássaros''

Forugh Farrokhzad




 

Lides domésticas

Sempre varreu a tristeza para debaixo do tapete, talvez não seja uma mulher asseada, talvez nem seja uma mulher feliz, mas vê tanta desgraça no mundo, que encontra consolo na desgraça alheia, não é bonito de dizer, não diz, mas é um facto, não tem de atravessar o Mediterrâneo num barco de borracha, nem ficou com a casa em escombros depois de um ataque de mísseis, não passa fome, não dorme ao relento, e assim os seus dias passam sem permitir-se um lamento, depois, para lavar o tapete teria de afastar todos os móveis, os móveis e o elefante na sala, só ela vê o elefante na sala, enormíssimos móveis, pesadíssimos móveis, móveis que não escolheu, e voltar pôr os móveis no mesmo lugar, no lugar exacto, no exacto lugar para não deixar à vista as marcas dos móveis no tapete.

Raquel Serejo Martins

 Corações de azeite


Natal, Páscoa, Pentecostes, São João, Todos os Santos
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Ramadão, Diwali, Holi, Vesak, Hanukkah, Yom Kippur, Purim
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Estação da chuva, da seca, dos furacões, dos incêndios
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Não importa o berço, importa o corpo,
carne da tua carne, no corpo somos iguais.
Os dias passam, os anos voam, tantas vezes sem cantar
não como os pássaros, mas como as mulheres no Afeganistão
há peixes que nunca nadaram no mar
e desligo a televisão
como se o mundo mudasse por eu clicar um botão
como se o mundo pudesse não ser esta balança imperfeita
como se para o bem de uns fosse indispensável o mal de outros
como se a guerra fosse um acontecimento banal
e com um sorriso triste e gasto de tanto uso penso no poema Reyerta
do meu amado Lorca que não chegou ao Natal.
Señores guardias civiles: aquí pasó lo de siempre.
Han muerto cuatro romanos y cinco cartagineses.
Penso nos seus anjos de longas tranças
y corazones de aceite
e nos novos anjos negros
senhores dos ecrãs e dos bastidores,
novo Natal, novilíngua, asas de pechisbeque,
seres alados falazes, artificiais,
que não passam de fraca imitação dos velhos,
que vão passando apesar dos gritos de não passarão,
e sei do que falo, porque estou cada vez mais velha.

Raquel Serejo Martins

Hiroshi Yoshimura - A・I・R (Air In Resort)

sábado, 2 de agosto de 2025

«Gostas dela agora», disse, « mas um dia gostarás de outra pessoa.»

 Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 103


 Forugh Farrokhzad

cobril

« Não tinha ainda conhecido um misógino.»

 Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 101

''visão hegemónica''

"Filhos de um cão"

 « O ar frio castigava os meus pulmões e a minha sinusite, provocando-me uma espécie de lucidez visionária.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 91

The Willow Tree

 « Se ser neurótica é querer duas coisas que se excluem mutuamente, então sou uma neurótica acabada . Vou passar o resto dos meus dias  a voar de uma coisa para a outra.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 91

 « Praguejava enquanto pensava: « Não podes acarinhar estes doentes. Isto é o pior que lhes podes fazer. Dá cabo deles.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 90

''cinzeiro de barro em forma de folha de nenúfar''

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 88

 « A tuberculose é como ter uma bomba nos nossos pulmões», escreveu o Buddy numa carta que enviara para a faculdade. « A única coisa que se pode fazer é esperar que não rebente.»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 86

'' a fome como arma''

 «Sentia-me empanturrada, entorpecida e desiludida, como me sinto sempre no dia a seguir ao Natal, (...)»

Sylvia PlathA Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 85
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