terça-feira, 24 de março de 2026

 


                                                                    Władysław Pawelec

''sexualidade proscrita''

 Louise Bourgeois

''seios fálicos''

 Louise Bourgeois

prometeica

 


Louise Bourgeois (1911–2010) was a French-American artist

''relação fantasiosa''

indefectível

abécula

I Had a Flashback of Something that Never Existed,

 



Louise Bourgeois. I Had a Flashback of Something that Never Existed, no. 28 of 34, from the fabric illustrated book, Ode à l’oubli. 2002. Lithograph, page: 11 3/4 x 13” (29.8 x 33 cm). © 2013 Louise Bourgeois Trust


 

Como ser artista, segundo Louise Bourgeois

 “Arte não é sobre arte. É sobre a vida, e isso resume tudo “

Sua arte era um exorcismo diário de suas experiências, traumas e agitações internas.


“Eu vejo a aranha como a salvadora”

Louise Bourgeois

DO NOT LEAVE ME ALONE, PLEASE

 Louise Bourgeois

 KEEP ME TOGETHER 

DO NOT ABANDON ME

HOLD MY BONES TOGETHER

Louise Bourgeois 

 I had a flashback
of something
that never existed

Tive uma reminiscência
de algo que nunca existiu

Louise Bourgeois



sideração

domingo, 22 de março de 2026

 


                                                                         Édouard Boubat

fumigações

 CECÍLIA

O Além está sempre a dar-nos sinais.


Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p. 67

agastadamente

 «Eu aproprio-me do problema, friamente, e vou seccionando o problema até o problema desaparecer.»

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.55

 


João Baptista


 

 EMÍLIA (para Alberto)

Hoje em dia para uma pessoa se deslocar é preciso pen-
sar duas vezes. Nada de precipitações, nada de precipi-
tações...


Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.53

decesso

 «ALBERTO

Que é que foi? É proibido ter cartazes? Isto é um país livre. Isto é a minha casa!»

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.44




 ''Para dizer alguma coisa é preciso dizer muito pouco.''

António Lobo Antunes

''Como é que a noite se transforma na manhã?''

 Repulsion (1965)

Directed by: Roman Polanski






Jan Steele/John Cage - Voices and Instruments (1976)

 ...
O teu vulto não te precede.
Perdura.
Fica a tomar conta do lume quando vais 
à rua.


Rui Lage

Não te preocupes com o rio; diz a tua sede.

 Manuel de Freitas

 « Antes de ser mulher,
sou inteira poeta.»

Hilda Hilst

 ...

As mães dormem 
de olhos abertos 
caçam à dentada
os medos dos filhos

Cláudia Lucas Chéu


 O QUE É A POESIA?


Amor, deita-te comigo
         E eu falarei.


Lawrence Ferlinghetti

Fotografia

 ''A sua solidão exprime-se nas noites azul-escuras, ''



''emoções carnais''

eletrocussão

 





 ''Depois, o tabaco, os charutos mais fortes, e muitos. A nicotina serpenteia pelos canais das minhas veias , fervilhando nos labirintos do cérebro, o mais frágil atelier do pensamento, e nos corredores do coração. Os nervos mais delicados são tocados, sinto-o, e o mais delicado deles, eu sei, é o nervo da vida. Já não aguento mais. Levem-me à clínica psiquiátrica.''

Edvard Munch

fauvismo

 nome masculino

PINTURA vanguarda artística surgida no início do século XX, em Paris, que, procurando exaltar a intensidade das sensações visuais e traduzir genuinamente as emoções do artista, se caracterizou pela simplificação do desenho, despreocupação face à representação objetiva da realidade, uso de formas planas, justaposição de cores violentamente contrastantes e ausência de claro-escuro

 ''Ninguém pode entender que as minhas pinturas foram criadas a partir da dor, que são fruto de noites em claro, que me custaram sangue, e enfraqueceram os meus nervos.''

Edvard Munch


''On ne choisit pas la dépression.''



                                                                        Édouard Boubat

 A poesia não cabe no nosso quintal.

Olhemos para a poesia como uma arte que não tem fronteiras, caracterizada pela hospitalidade do diverso. É uma palavra que não desiste de ninguém, que espera por todos e educa para uma visão universal e para a valorização da harmonia.
Penso em poetas como Rilke, penso em poetas como Fernando Pessoa, que nos ajudaram a olhar a partir do limiar, a escutar aquilo que, nas palavras, à primeira vista não está presente, mas que depois se torna decisivo: a experiência do mistério.
A poesia e a arte são essenciais para o diálogo com o mundo contemporâneo. O algoritmo tem um pacto com o passado. O poema tem um pacto com o futuro, porque trabalha continuamente a possibilidade. Dizer ao ser humano “é possível, é possível, é possível”: nesse sentido, a poesia tem uma aliança com a esperança, tem uma aliança com a elaboração da paz. A poesia vai além da declaração fatalista de que é impossível. O algoritmo é um mapa dos passos percorridos. O poema é um mapa dos caminhos a percorrer.
Card. José Tolentino de Mendonça©, trecho, entrevista ao Vatican News “Dia Mundial da Poesia”.

 PASMO

Alegria das flores antes dos frutos...
Gratuita confiança...
Quem te fez tão criança
Na Primavera,
Vida enrugada e triste?
A morte existe,
A razão desespera,
E tu, feliz, aberta num sorriso,
Como se o mundo fosse o paraíso!
Diário IX,
Miguel Torga

Pastor T.L. Barrett & the Youth For Christ Choir - Nobody Knows

 

Stanley Kubrick,

Self-portrait with Rosemary Williams, Show Girl, 1949

putéfia

sábado, 21 de março de 2026

 ''Quando penso que um dos meus doentes está estabilizado...ele suicida-se!!!''

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.14

''A Vida da Alma Moderna''

 Edvard Munch

''cabelo vermelho-sangue''

 Man Ray (Emanuel Radnitzky)

Mary Gill,
França, 1930



''as lágrimas que escorrem pelas faces como pequenos rios''

''as coisas belas são difíceis''

Contra os corvos que bicam os olhos do mundo

Elisa Costa Pinto , Livro Contra Corvos

“Leaking Bodies”



''Do corpo entende-se, à luz da hodiernidade, que a sua armadura biopsicossocial se expande a campos digitais e virtuais e, por consequência, se desdobra em outras “(des)corporalidades” e ramificações a partir do seu núcleo identitário. Nos alicerces discursivos que ajudaram a formatar a exposição “Leaking Bodies”, a artista Susana Rocha reflete sobre o princípio desse corpo expandido legitimado, pela aceleração tecnocientífica, como corpo-máquina asséptico e otimizado, e que é exposto a uma “anestesia” afetiva e ausência de “excreção emocional”. Nessa fenda que se abre, o prazer desloca-se do toque para o clique, e do vivido para o imaginado. E tanto no sofrimento, como no deleite, o corpo apresenta uma diplopia, entre o físico e a projeção, e elaboram-se novas formas de lazer e solidão. E mesmo quando o corpo se fina, persiste a sua pegada digital (perfis, imagens, mensagens...) e surgem tecnologias de “ressurreição digital” (Inteligência Artificial, hologramas, avatares, vozes sintetizadas...) que não só podem prolongar e reconfigurar a experiência do luto, como distorcer temporalidades e alterar relações entre o “Eu” e o “Outro”.

O prazer, argumenta a artista, resiste à fantasia do corpo tecnológico altamente funcional e otimizado, pois não existe sem excessos, desperdícios e fricção com a dor. Assim, a interligação neurocognitiva entre dor física e prazer emocional pode repercutir-se numa “estética melancólica”. Sendo que a arte tem essa capacidade de nos permitir experimentar emoções profundas por identificação, a comoção sem consequências diretas, e a expansão do território afetivo. Neste sentido, “Leaking Bodies” explora a ambiguidade do prazer (ou hedonismo) e como a tecnologia, sendo arquivo e gatilho de memórias, despoleta experiências que tanto nos confortam, como nos ferem.''

(...)

Texto de Sandra Silva

Nota sobre as imagens

A exposição Leaking Bodies, de Susana Rocha, esteve primeiramente patente de 18 de Outubro a 21 de Novembro de 2025 no espaço da galeria Plato em Évora. As imagens da exposição aqui presentes foram realizadas nesse espaço, à excepção da primeira imagem inserida no corpo do texto.
 

Num Meio-Dia de Fim de Primavera

 


                                                                    Władysław Pawelec

“As mortes do criador”

Figueira do inferno (2021)

Thales Luz

“Un minute pour une image”


Programa realizado pela cineasta e fotógrafa Agnés Varda, emitido pelo canal francês FR3, em 1983.

domingo, 15 de março de 2026

indulgência

''vê o lírio entre os espinhos''

Kate Bush - Nocturn + Aerial

 


Cees Nooteboom, DESPEDIDA (Poemas em Tempos de Vírus), tradução de Ana Maria Carvalho, edição Alambique


“Minha filha, você é uma menina inteligente, mas fala mal. Você tem de fazer ver aos demais aquilo que você pensa.”

 Nélida Piñon

“El retrato más difícil es el del dolor ajeno”

Isabel Muñoz, Fotógrafa espanhola

“La vida vibra más donde es más dura.”

Laura Restrepo

 “Nunca se debe subestimar la fidelidad que cada quien le guarda a sus viejos dolores” 

Laura Restrepo



''religious ecstasy''

 



                                                Pierre Dubreuil, French photographer

escaganifobética

Aroeira-vermelha

ensandecer

aguadilha

Cannock Chase

 ''Ninguém pode acusar Donald Trump do pecado da consistência.''

Clara Ferreira Alves

devastadoramente

domingo, 8 de março de 2026

 


Maria Teresa Horta

 "Deus, estou zangado contigo.

Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fazes, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos.
Só que ultimamente tens exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha roda...
(...)
E agora um aviso solene, uma ameaça, uma ordem: livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui. Ouviste bem? Livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui porque, se o fizeres, vais ter-me à perna a Eternidade inteira e não sou um osso fácil de roer."
António Lobo Antunes

"Cultivo a orgulhosa felicidade de ser mulher"

 Amália Rodrigues

Li Hoje Quase Duas Páginas

 Crónica

“É mesmo muito fodido ser homem” — carta ao meu irmão acidental António Lobo Antunes
Há escritores que se instalam nas nossas vidas, sem que os tivéssemos convidado. António Lobo Antunes foi um gato sentado na nossa mesa de refeições, a fitar-nos com os olhos vadios de quem tudo sabe.
Paulo Faria (texto)
8 de Março de 2026
Os meus pais divorciaram-se em 1975, tinha eu oito anos. O meu pai saiu do nosso apartamento nas Avenidas Novas, em Lisboa, e foi viver com a nova mulher. Às sextas-feiras, ao final do dia, vinha-nos buscar. Ou antes, vinha buscar dois de nós. Éramos quatro irmãos, talvez demasiados. Ao domingo, de novo ao final do dia, tornava a trazer-nos. Estas visitas revestiam-se de um ritual preciso. O meu pai entrava em casa com a maior das naturalidades. Instalava-se na sala ou na cozinha, e a minha mãe servia-lhe acepipes. Água tónica bem fresca, queijo de São Jorge, tostas, azeitonas. Enquanto comia, ele punha-se a ler em voz alta um romance que trazia consigo. Esperava-se que nós, os filhos, nos sentássemos em volta e ouvíssemos em silêncio. Era o que fazíamos, logicamente. Ao fim de uma hora ou duas de leitura, ele e a minha mãe desapareciam como que por magia. Anos mais tarde, todos percebemos o que iam fazer. Em seguida, reapareciam, cada qual de sua vez, nunca juntos. Entre os livros que ele nos leu nessas ocasiões figuraram em destaque os teus três primeiros romances, António Lobo Antunes, que publicaste oportunamente em 1979 e 1980. Foi assim que decorei o teu nome e descobri os teus livros. Foste testemunha, pretexto e caução daquela pequena encenação familiar, um pouco triste, um pouco sórdida. Precisamente o mesmo papel que me foi reservado a mim e aos meus irmãos. A tua escrita passou a fazer parte do meu segredo vergonhoso. Foste, de uma maneira ínvia, sem o sonhares, meu irmão.
A leitura em voz alta dos teus romances, antes da retirada à socapa para o quarto, era como que uma legitimação inconsciente por parte do meu pai: “Estou aqui e tenho o direito de agir assim, porque sou o vosso pai e vos trago a cultura e o saber.” Além disso, ele adorava ler em voz alta perante uma plateia silenciosa e submissa, o prazer que daí extraía era físico, quase palpável. Mas porquê aqueles romances e não outros? Porquê os teus romances, que ele nos leu e releu com um gozo evidente, de quem se sente finalmente realizado, finalmente vingado? O que havia na tua escrita, e em especial naquela trilogia inaugural, Os Cus de Judas, Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, que fez de ti o porta-voz por excelência do meu pai e de toda a sua (e tua) geração?
Escrever romances, publicá-los
O meu pai era médico, conheceu-te na faculdade, embora fosses mais novo do que ele. As afinidades começavam logo aí. Não eras um escritor como outro qualquer. Eras um médico como o meu pai, um colega de curso com quem ele tinha ido à bola, ver o Benfica jogar no Estádio da Luz, e que depois te tornaras escritor. Eras um conhecido do meu pai, que ele em tempos tratara por tu, mas tiveras a arte e o descaramento de fazer o que ele próprio sempre sonhou fazer e nunca foi capaz, por falta de engenho (por falta de génio, não tenhamos medo das palavras) e por falta de coragem: escrever romances, publicá-los.
Mais tarde, quando eu próprio peguei nos teus romances e os li, percebi porque é que o meu pai se via fielmente retratado naquele teu universo. Estava lá tudo, sem tirar nem pôr. Estava lá tudo o que o meu pai era e sabia ser, mas estava também tudo o que o meu pai não era e sabia não ser e sempre desejara ser e daria tudo para ser. E, portanto, também eu estava lá.
Havia na tua escrita o verbo torrencial, a catadupa inesgotável de palavras atiradas ao leitor, ao mundo, uma avalancha de metáforas dotadas de uma precisão terrível e crua, com qualquer coisa de clínico, de hospitalar. Um certo pendor belicoso, uma tensão enorme, uma panela de pressão a jorrar pelo pipo um silvo a ferver de pinceladas, de instantâneos que se atropelavam uns aos outros, que se acotovelavam, que duravam um breve instante e logo eram engolidos pelo que vinha a seguir. As tuas frases, devastadoras como bordoadas, caíam sem parar sobre os nossos olhos, como tijolos a desabar. Isso era o mais impressionante de tudo: a cadência, o ritmo febril, sem aviso nem tréguas. Não apagavas o lume, e, da primeira à última linha, o pipo rodopiava, furioso, sempre à beira da explosão. Fixavas na página um caos que, daquele modo, passava a ser organizado, abordável, talvez compreensível. O meu pai era um homem profundamente torturado, infinitamente verboso, que nunca abandonava o seu baluarte, o seu subterrâneo, de cuja entrada gritava ao mundo impropérios e lições de moral e de ética, e a tua escrita, estranhamente, serenava-o, dava-lhe a paz possível no meio da sua algazarra interior. A tua escrita dizia-lhe que não estava só, os teus romances funcionavam para ele como um lugar de refúgio, um espelho reconfortante.
Havia na tua escrita uma intimidade natural, sem esforço, com o mundo dos livros, da pintura, da música, uma intimidade que o meu pai invejava e talvez temesse um pouco. Cresceste num meio em que as pessoas tratavam por tu Vermeer, Paul Simon, Vittorio de Sica, mas em que os maridos e as mulheres se tratavam por “você”. O meu pai era filho da pequena-pequena-burguesia (assim mesmo: pequena-pequena), cresceu numa casa com poucos livros, pouca “cultura” (como se dizia então), nos Açores, na periferia de um país periférico, e estava dolorosamente ciente desta condição, daquilo que ele via (sem nunca o confessar) como uma subalternidade. Aproximava-se dos “vultos” da cultura pé ante pé, com uma deferência que o impedia de se apossar deles, ao passo que tu os tratavas com um tu-cá-tu-lá desarmante, iconoclasta, como se Degas e Eça fossem visitas lá de casa. O meu pai invejava-te, mas era a inveja carinhosa que temos de um irmão mais vivido e mais sábio do que nós.
Nas suas sete quintas
Havia na tua escrita a matriz católica a espartilhar tudo, as algemas católicas da tacanhez lusa, um cristianismo distorcido, ressequido, aviltado, atravessado na garganta, que muito de vez em quando vinha à tona no meu pai, como coisa repudiada, mas de que ele nunca se conseguira livrar. Tu dissecavas estas catacumbas de modo explícito, frio, com um distanciamento que deliciava o meu pai.
Havia na tua escrita os palavrões libertadores, usados às mãos-cheias, pueris, o “caralho” e o “cabrão” e a “foda” e a “cona da mãe” e os “tomates”, estampados na página em letra de forma, um rito de passagem, uma coisa que é preciso fazer para mostrar que é possível e só depois se pode deixar para trás. Também isto o meu pai adorava. Tu foras até ao fim: escrevias nos teus romances os palavrões que o meu pai não era capaz de dizer em voz alta. Davas-lhe a oportunidade de dizer alto e bom som a palavra “caralho” aos filhos e à ex-mulher convertida em amante, sob o pretexto da leitura de uma obra literária de inquestionável valor.
Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.
O medo que os homens têm das mulheres
Havia na tua escrita a Lisboa em que cresceste, a Lisboa que o meu pai veio encontrar quando entrou para a faculdade, vindo dos Açores. Uma Lisboa suja, ainda rural, meio aldeã, com a sua Feira Popular, o seu Parque Mayer, uma Lisboa em que ainda havia mulheres e homens debruçados o dia inteiro à janela, “a ver passar”, e em que os homens jogavam no Totobola e, aos domingos, ouviam os relatos da bola. Aos domingos, o meu pai ouvia religiosamente os relatos do futebol na rádio. Numa folha branca, traçava uma espécie de tabela, em que cada linha correspondia a uma partida, e ia anotando metodicamente os minutos em que se marcavam os golos e os nomes dos respectivos marcadores. No final, actualizava na página d’A Bola a classificação do campeonato nacional, emendando a esferográfica o número de pontos, o número de golos marcados e sofridos de cada clube, como quem conserta um pequeno recanto do mundo. Só não jogava no Totobola.
Havia na tua escrita o ritual da iniciação sexual dos homens com uma prostituta, rito de passagem obrigatório, a que se seguia inevitavelmente a primeira doença venérea. Havia o ambiente das casas de passe, sujo e triste, como uma fatalidade a que era preciso submeter-se. Contavas as experiências de toda uma geração em tom superlativo, trepidante, feroz, sem deixar pedra sobre pedra.
Havia na tua escrita o medo que os homens têm das mulheres independentes, dotadas de sentido prático, com vontade própria, o medo que os homens têm das mulheres tout court, de todas as mulheres. As mulheres enquanto plantas carnívoras, enquanto predadoras. Havia na tua escrita os homens que, como o meu pai, abandonavam as mulheres e os filhos pequenos, e eram sempre eles a abandonarem-nas, nunca o inverso, homens que abandonavam as mulheres sem nunca as abandonarem verdadeiramente, abandonavam-nas sem nunca se decidirem a partir de vez, exactamente como o meu pai. Havia nos homens dos teus romances um medo ainda mais fundo, o medo de amar, de se entregar aos outros, a incapacidade masculina de lidar com as emoções, o pavor de baixar a guarda, a incapacidade dos homens para exprimirem amor pelas mulheres que amam. O meu pai nunca disse a uma mulher a simples palavra: “Amo-te.” Dir-me-ão: “Não tens a certeza, não podes ter a certeza.” Respondo: “Tenho a certeza absoluta.” Tu punhas em cena nos teus romances homens que nos confiavam a nós, leitores, as palavras que não eram capazes de dizer de viva-voz às mulheres que amavam, tomando-nos como confidentes ou confessores, como testemunhas da sua fraqueza. O meu pai não tinha ninguém que lhe servisse de confessor, e via-se ao espelho nesta tua escrita. Tu confessavas-te no lugar dele. Os teus romances eram confissões por procuração.
Uma valente carga de pancada
Havia na tua escrita a volúpia do tabaco, também essa uma funda marca geracional. Todos e todas fumavam em toda a parte, desde crianças (ou quase), nas casas, nas ruas e nos teus romances. Sempre vi o meu pai de cigarro na mão.
Havia na tua escrita o pânico de envelhecer, que o meu pai nunca verbalizou, nunca exprimiu, deixando que esse pavor enquistasse e o lavrasse por dentro, em silêncio.
Havia na tua escrita um certo desenraizamento, um certo exílio que sempre senti no meu pai, os modos esquivos do trânsfuga, do intruso em busca do seu lugar. E que culminou, no caso do meu pai, na escolha do lugar para onde foi morar com a segunda mulher, depois do divórcio: a Portela de Sacavém, um subúrbio construído de raiz, geométrico e medonho, um não-lugar, um vazio a perder de vista. Como se o desenraizamento que sempre o caracterizou, os abandonos sucessivos (da terra natal, do catolicismo, dos valores paternos, das utopias que abraçou, do benfiquismo da juventude) se tivessem traduzido fisicamente, afinal, naquele lugar de uma aridez irremediável, uma espécie de urbanização estalinista para a alta burguesia lisboeta, formada por homens e mulheres vindos de longe (da província, das ilhas, das ex-colónias), para quem Lisboa nunca deixou de ser um mal necessário, um escolho agreste onde os náufragos se refugiam depois do desastre.
Havia na tua escrita uma visão crua do mundo, desesperançada e exangue, que era a do meu pai, embora ele fosse incapaz de um certo lirismo que, no preciso momento em que achamos que não vamos aguentar mais o gume afiado da tua prosa, te resgata sempre do niilismo sem saída. “É mesmo muito fodido ser homem”, escreveste em Memória de Elefante. E é disto que estás sempre a falar. Como continuar a “ser homem” no meio das ruínas?
Havia na tua escrita a Guerra Colonial, claro, a Guerra Colonial descrita sem pruridos, sem saudosismo, sem desculpas, sem rodriguinhos, sem ponta de gabarolice, sem tiques de pertença à casta dos veteranos, a Guerra Colonial como bóia de salvação e peso amarrado ao pescoço, como carta de alforria e prisão perpétua, a Guerra Colonial a servir de farol, de medida-padrão para cotejar a vida, porque foi aí que tudo aconteceu definitivamente e se cristalizou. Ouvi as tuas histórias de guerra pela voz do meu pai, contadas em Os Cus de Judas e semeadas nas páginas dos outros dois romances inaugurais, com uma atenção que não prestei às histórias que o meu próprio pai contava da sua guerra em Moçambique.
E havia na tua escrita, por fim, aquela sensação, quando acabávamos de ler um dos teus romances, de que tínhamos levado uma valente carga de pancada, de que alguém nos confessara todos os seus pecados e nos encarregara de proclamar essa confissão aos quatro ventos. Uma sensação de terra queimada, como no final das cenas de gritos e insultos do meu pai, quando ele, depois de um longo silêncio, assinalava o regresso à normalidade possível, dizendo uma piada. Uma funda exaustão de tudo, que só a leitura de outro dos teus romances conseguia mitigar.
Ao fim de um certo tempo, naqueles finais de tarde de sexta-feira ou de domingo, o pai reaparecia junto de nós, saído do quarto onde a nossa mãe ficava mais uns minutos, para manter as aparências, e naqueles momentos ele era uma personagem saída de um dos teus romances da trilogia inaugural. E então tornava a pegar no livro, no teu romance, e punha-se a ler outra vez em voz alta. E nós reuníamo-nos de novo em volta dele. Aquelas horas de leitura, ao crepúsculo, eram a reconstituição de uma harmonia familiar possível, de uma comunhão clandestina, culpada, a única a que tínhamos direito, e tu, António Lobo Antunes, eras o nosso santo padroeiro, eras o nosso guia, o nosso mestre de cerimónias. O meu pai estava a dizer-nos: “As palavras destes romances limpam tudo, limpam todo o pecado. À volta destas palavras, tornamos a ser uma família. À volta destas palavras, podemos aquecer-nos como ao calor de uma lareira. À volta destas palavras, podemos amar-nos com todas as nossas imperfeições e podemos estraçalhar-nos uns aos outros, de garras aduncas e dentes afiados. Haveremos de renascer no próximo romance.”
E agora, António Lobo Antunes, já te posso chamar irmão? Talvez seja ir longe de mais. Vou tratar-te por “tio”, como fazes com Proust. Ou antes: por “amigo”, como fazes com Cesário Verde. Estavas presente, amigo. Viste tudo antes de acontecer, viste tudo antes de nós. Retrataste-nos sem dó nem piedade, mas, no fim de contas, com a ternura de quem percebeu demasiado bem o nosso sofrimento, de quem conservou uma certa pureza, uma certa inocência no meio do incêndio, do bombardeamento. Ajudaste-nos a chegar até aqui, e o caminho era de pedras, era de fome, era de solidão. Sem ti, amigo, andaríamos bem mais perdidos.
Agosto de 2025
Este texto será incluído em O resto contarei aos que encontrar no Hades. Ensaios sobre António Lobo Antunes, org. Sabrina Sedlmayer e Vincenzo Russo, Edições Afrontamento, a publicar em 2026.

quarta-feira, 4 de março de 2026

 




"Romancista Rebelde"

 Camilo Castelo Branco, o ''Romancista Rebelde''

´´São sombrios os rios
Do recordar!''


Amália Rodrigues, trecho na canção Cais de Outrora


“Nos nossos momentos mais sombrios, não precisamos de soluções, nem de conselhos. O que realmente desejamos é a conexão humana: uma presença silenciosa, um toque que fala mais do que palavras. São esses pequenos gestos que nos mantêm à tona quando a vida parece nos esmagar.”
Então, por favor, não tente me consertar. Não carregue minha dor por mim, nem afaste as sombras que me envolvem. Apenas sente-se ao meu lado enquanto enfrento as tempestades que rugem dentro de mim. Seja a mão firme que posso segurar quando sentir que estou me perdendo.
Minhas batalhas são minhas, meu fardo é meu. Mas sua presença me lembra que, mesmo em pedaços, ainda sou digna de amor. Você não precisa ser meu salvador; basta ser meu companheiro. Quando a noite parecer infinita, segure minha mão até que o amanhecer chegue, ajudando-me a lembrar da força que ainda existe em mim.
Seu apoio silencioso é o maior presente que poderia me dar. Não é o amor que me salva, mas o amor que me fortalece. É o que me ajuda a lembrar de quem eu sou, mesmo quando tudo em mim parece esquecido.
Quando eu me perder, você estará aqui? Não para me salvar, mas para caminhar ao meu lado até que eu encontre o caminho de volta.''

 Ernest Hemingway

terça-feira, 3 de março de 2026



             Anatomie d’un rapport (Anatomy of a Relationship) (1976)
Dir. Luc Moullet, Antonietta Pizzorno

Por mis muertos

Pilar Albarracín

letissimulação

 nome feminino

ZOOLOGIA simulação de morte que alguns animais levam a cabo, mantendo-se temporariamente imóveis, a fim de iludirem presas ou predadores
Etimologia: Do latim letu-, «morte» +simulatiōne-, «simulação»
Powered By Blogger