Crónica
“É mesmo muito fodido ser homem” — carta ao meu irmão acidental António Lobo Antunes
Há escritores que se instalam nas nossas vidas, sem que os tivéssemos convidado. António Lobo Antunes foi um gato sentado na nossa mesa de refeições, a fitar-nos com os olhos vadios de quem tudo sabe.
Paulo Faria (texto)
8 de Março de 2026
Os meus pais divorciaram-se em 1975, tinha eu oito anos. O meu pai saiu do nosso apartamento nas Avenidas Novas, em Lisboa, e foi viver com a nova mulher. Às sextas-feiras, ao final do dia, vinha-nos buscar. Ou antes, vinha buscar dois de nós. Éramos quatro irmãos, talvez demasiados. Ao domingo, de novo ao final do dia, tornava a trazer-nos. Estas visitas revestiam-se de um ritual preciso. O meu pai entrava em casa com a maior das naturalidades. Instalava-se na sala ou na cozinha, e a minha mãe servia-lhe acepipes. Água tónica bem fresca, queijo de São Jorge, tostas, azeitonas. Enquanto comia, ele punha-se a ler em voz alta um romance que trazia consigo. Esperava-se que nós, os filhos, nos sentássemos em volta e ouvíssemos em silêncio. Era o que fazíamos, logicamente. Ao fim de uma hora ou duas de leitura, ele e a minha mãe desapareciam como que por magia. Anos mais tarde, todos percebemos o que iam fazer. Em seguida, reapareciam, cada qual de sua vez, nunca juntos. Entre os livros que ele nos leu nessas ocasiões figuraram em destaque os teus três primeiros romances, António Lobo Antunes, que publicaste oportunamente em 1979 e 1980. Foi assim que decorei o teu nome e descobri os teus livros. Foste testemunha, pretexto e caução daquela pequena encenação familiar, um pouco triste, um pouco sórdida. Precisamente o mesmo papel que me foi reservado a mim e aos meus irmãos. A tua escrita passou a fazer parte do meu segredo vergonhoso. Foste, de uma maneira ínvia, sem o sonhares, meu irmão.
A leitura em voz alta dos teus romances, antes da retirada à socapa para o quarto, era como que uma legitimação inconsciente por parte do meu pai: “Estou aqui e tenho o direito de agir assim, porque sou o vosso pai e vos trago a cultura e o saber.” Além disso, ele adorava ler em voz alta perante uma plateia silenciosa e submissa, o prazer que daí extraía era físico, quase palpável. Mas porquê aqueles romances e não outros? Porquê os teus romances, que ele nos leu e releu com um gozo evidente, de quem se sente finalmente realizado, finalmente vingado? O que havia na tua escrita, e em especial naquela trilogia inaugural, Os Cus de Judas, Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, que fez de ti o porta-voz por excelência do meu pai e de toda a sua (e tua) geração?
Escrever romances, publicá-los
O meu pai era médico, conheceu-te na faculdade, embora fosses mais novo do que ele. As afinidades começavam logo aí. Não eras um escritor como outro qualquer. Eras um médico como o meu pai, um colega de curso com quem ele tinha ido à bola, ver o Benfica jogar no Estádio da Luz, e que depois te tornaras escritor. Eras um conhecido do meu pai, que ele em tempos tratara por tu, mas tiveras a arte e o descaramento de fazer o que ele próprio sempre sonhou fazer e nunca foi capaz, por falta de engenho (por falta de génio, não tenhamos medo das palavras) e por falta de coragem: escrever romances, publicá-los.
Mais tarde, quando eu próprio peguei nos teus romances e os li, percebi porque é que o meu pai se via fielmente retratado naquele teu universo. Estava lá tudo, sem tirar nem pôr. Estava lá tudo o que o meu pai era e sabia ser, mas estava também tudo o que o meu pai não era e sabia não ser e sempre desejara ser e daria tudo para ser. E, portanto, também eu estava lá.
Havia na tua escrita o verbo torrencial, a catadupa inesgotável de palavras atiradas ao leitor, ao mundo, uma avalancha de metáforas dotadas de uma precisão terrível e crua, com qualquer coisa de clínico, de hospitalar. Um certo pendor belicoso, uma tensão enorme, uma panela de pressão a jorrar pelo pipo um silvo a ferver de pinceladas, de instantâneos que se atropelavam uns aos outros, que se acotovelavam, que duravam um breve instante e logo eram engolidos pelo que vinha a seguir. As tuas frases, devastadoras como bordoadas, caíam sem parar sobre os nossos olhos, como tijolos a desabar. Isso era o mais impressionante de tudo: a cadência, o ritmo febril, sem aviso nem tréguas. Não apagavas o lume, e, da primeira à última linha, o pipo rodopiava, furioso, sempre à beira da explosão. Fixavas na página um caos que, daquele modo, passava a ser organizado, abordável, talvez compreensível. O meu pai era um homem profundamente torturado, infinitamente verboso, que nunca abandonava o seu baluarte, o seu subterrâneo, de cuja entrada gritava ao mundo impropérios e lições de moral e de ética, e a tua escrita, estranhamente, serenava-o, dava-lhe a paz possível no meio da sua algazarra interior. A tua escrita dizia-lhe que não estava só, os teus romances funcionavam para ele como um lugar de refúgio, um espelho reconfortante.
Havia na tua escrita uma intimidade natural, sem esforço, com o mundo dos livros, da pintura, da música, uma intimidade que o meu pai invejava e talvez temesse um pouco. Cresceste num meio em que as pessoas tratavam por tu Vermeer, Paul Simon, Vittorio de Sica, mas em que os maridos e as mulheres se tratavam por “você”. O meu pai era filho da pequena-pequena-burguesia (assim mesmo: pequena-pequena), cresceu numa casa com poucos livros, pouca “cultura” (como se dizia então), nos Açores, na periferia de um país periférico, e estava dolorosamente ciente desta condição, daquilo que ele via (sem nunca o confessar) como uma subalternidade. Aproximava-se dos “vultos” da cultura pé ante pé, com uma deferência que o impedia de se apossar deles, ao passo que tu os tratavas com um tu-cá-tu-lá desarmante, iconoclasta, como se Degas e Eça fossem visitas lá de casa. O meu pai invejava-te, mas era a inveja carinhosa que temos de um irmão mais vivido e mais sábio do que nós.
Nas suas sete quintas
Havia na tua escrita a matriz católica a espartilhar tudo, as algemas católicas da tacanhez lusa, um cristianismo distorcido, ressequido, aviltado, atravessado na garganta, que muito de vez em quando vinha à tona no meu pai, como coisa repudiada, mas de que ele nunca se conseguira livrar. Tu dissecavas estas catacumbas de modo explícito, frio, com um distanciamento que deliciava o meu pai.
Havia na tua escrita os palavrões libertadores, usados às mãos-cheias, pueris, o “caralho” e o “cabrão” e a “foda” e a “cona da mãe” e os “tomates”, estampados na página em letra de forma, um rito de passagem, uma coisa que é preciso fazer para mostrar que é possível e só depois se pode deixar para trás. Também isto o meu pai adorava. Tu foras até ao fim: escrevias nos teus romances os palavrões que o meu pai não era capaz de dizer em voz alta. Davas-lhe a oportunidade de dizer alto e bom som a palavra “caralho” aos filhos e à ex-mulher convertida em amante, sob o pretexto da leitura de uma obra literária de inquestionável valor.
Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.
O medo que os homens têm das mulheres
Havia na tua escrita a Lisboa em que cresceste, a Lisboa que o meu pai veio encontrar quando entrou para a faculdade, vindo dos Açores. Uma Lisboa suja, ainda rural, meio aldeã, com a sua Feira Popular, o seu Parque Mayer, uma Lisboa em que ainda havia mulheres e homens debruçados o dia inteiro à janela, “a ver passar”, e em que os homens jogavam no Totobola e, aos domingos, ouviam os relatos da bola. Aos domingos, o meu pai ouvia religiosamente os relatos do futebol na rádio. Numa folha branca, traçava uma espécie de tabela, em que cada linha correspondia a uma partida, e ia anotando metodicamente os minutos em que se marcavam os golos e os nomes dos respectivos marcadores. No final, actualizava na página d’A Bola a classificação do campeonato nacional, emendando a esferográfica o número de pontos, o número de golos marcados e sofridos de cada clube, como quem conserta um pequeno recanto do mundo. Só não jogava no Totobola.
Havia na tua escrita o ritual da iniciação sexual dos homens com uma prostituta, rito de passagem obrigatório, a que se seguia inevitavelmente a primeira doença venérea. Havia o ambiente das casas de passe, sujo e triste, como uma fatalidade a que era preciso submeter-se. Contavas as experiências de toda uma geração em tom superlativo, trepidante, feroz, sem deixar pedra sobre pedra.
Havia na tua escrita o medo que os homens têm das mulheres independentes, dotadas de sentido prático, com vontade própria, o medo que os homens têm das mulheres tout court, de todas as mulheres. As mulheres enquanto plantas carnívoras, enquanto predadoras. Havia na tua escrita os homens que, como o meu pai, abandonavam as mulheres e os filhos pequenos, e eram sempre eles a abandonarem-nas, nunca o inverso, homens que abandonavam as mulheres sem nunca as abandonarem verdadeiramente, abandonavam-nas sem nunca se decidirem a partir de vez, exactamente como o meu pai. Havia nos homens dos teus romances um medo ainda mais fundo, o medo de amar, de se entregar aos outros, a incapacidade masculina de lidar com as emoções, o pavor de baixar a guarda, a incapacidade dos homens para exprimirem amor pelas mulheres que amam. O meu pai nunca disse a uma mulher a simples palavra: “Amo-te.” Dir-me-ão: “Não tens a certeza, não podes ter a certeza.” Respondo: “Tenho a certeza absoluta.” Tu punhas em cena nos teus romances homens que nos confiavam a nós, leitores, as palavras que não eram capazes de dizer de viva-voz às mulheres que amavam, tomando-nos como confidentes ou confessores, como testemunhas da sua fraqueza. O meu pai não tinha ninguém que lhe servisse de confessor, e via-se ao espelho nesta tua escrita. Tu confessavas-te no lugar dele. Os teus romances eram confissões por procuração.
Uma valente carga de pancada
Havia na tua escrita a volúpia do tabaco, também essa uma funda marca geracional. Todos e todas fumavam em toda a parte, desde crianças (ou quase), nas casas, nas ruas e nos teus romances. Sempre vi o meu pai de cigarro na mão.
Havia na tua escrita o pânico de envelhecer, que o meu pai nunca verbalizou, nunca exprimiu, deixando que esse pavor enquistasse e o lavrasse por dentro, em silêncio.
Havia na tua escrita um certo desenraizamento, um certo exílio que sempre senti no meu pai, os modos esquivos do trânsfuga, do intruso em busca do seu lugar. E que culminou, no caso do meu pai, na escolha do lugar para onde foi morar com a segunda mulher, depois do divórcio: a Portela de Sacavém, um subúrbio construído de raiz, geométrico e medonho, um não-lugar, um vazio a perder de vista. Como se o desenraizamento que sempre o caracterizou, os abandonos sucessivos (da terra natal, do catolicismo, dos valores paternos, das utopias que abraçou, do benfiquismo da juventude) se tivessem traduzido fisicamente, afinal, naquele lugar de uma aridez irremediável, uma espécie de urbanização estalinista para a alta burguesia lisboeta, formada por homens e mulheres vindos de longe (da província, das ilhas, das ex-colónias), para quem Lisboa nunca deixou de ser um mal necessário, um escolho agreste onde os náufragos se refugiam depois do desastre.
Havia na tua escrita uma visão crua do mundo, desesperançada e exangue, que era a do meu pai, embora ele fosse incapaz de um certo lirismo que, no preciso momento em que achamos que não vamos aguentar mais o gume afiado da tua prosa, te resgata sempre do niilismo sem saída. “É mesmo muito fodido ser homem”, escreveste em Memória de Elefante. E é disto que estás sempre a falar. Como continuar a “ser homem” no meio das ruínas?
Havia na tua escrita a Guerra Colonial, claro, a Guerra Colonial descrita sem pruridos, sem saudosismo, sem desculpas, sem rodriguinhos, sem ponta de gabarolice, sem tiques de pertença à casta dos veteranos, a Guerra Colonial como bóia de salvação e peso amarrado ao pescoço, como carta de alforria e prisão perpétua, a Guerra Colonial a servir de farol, de medida-padrão para cotejar a vida, porque foi aí que tudo aconteceu definitivamente e se cristalizou. Ouvi as tuas histórias de guerra pela voz do meu pai, contadas em Os Cus de Judas e semeadas nas páginas dos outros dois romances inaugurais, com uma atenção que não prestei às histórias que o meu próprio pai contava da sua guerra em Moçambique.
E havia na tua escrita, por fim, aquela sensação, quando acabávamos de ler um dos teus romances, de que tínhamos levado uma valente carga de pancada, de que alguém nos confessara todos os seus pecados e nos encarregara de proclamar essa confissão aos quatro ventos. Uma sensação de terra queimada, como no final das cenas de gritos e insultos do meu pai, quando ele, depois de um longo silêncio, assinalava o regresso à normalidade possível, dizendo uma piada. Uma funda exaustão de tudo, que só a leitura de outro dos teus romances conseguia mitigar.
Ao fim de um certo tempo, naqueles finais de tarde de sexta-feira ou de domingo, o pai reaparecia junto de nós, saído do quarto onde a nossa mãe ficava mais uns minutos, para manter as aparências, e naqueles momentos ele era uma personagem saída de um dos teus romances da trilogia inaugural. E então tornava a pegar no livro, no teu romance, e punha-se a ler outra vez em voz alta. E nós reuníamo-nos de novo em volta dele. Aquelas horas de leitura, ao crepúsculo, eram a reconstituição de uma harmonia familiar possível, de uma comunhão clandestina, culpada, a única a que tínhamos direito, e tu, António Lobo Antunes, eras o nosso santo padroeiro, eras o nosso guia, o nosso mestre de cerimónias. O meu pai estava a dizer-nos: “As palavras destes romances limpam tudo, limpam todo o pecado. À volta destas palavras, tornamos a ser uma família. À volta destas palavras, podemos aquecer-nos como ao calor de uma lareira. À volta destas palavras, podemos amar-nos com todas as nossas imperfeições e podemos estraçalhar-nos uns aos outros, de garras aduncas e dentes afiados. Haveremos de renascer no próximo romance.”
E agora, António Lobo Antunes, já te posso chamar irmão? Talvez seja ir longe de mais. Vou tratar-te por “tio”, como fazes com Proust. Ou antes: por “amigo”, como fazes com Cesário Verde. Estavas presente, amigo. Viste tudo antes de acontecer, viste tudo antes de nós. Retrataste-nos sem dó nem piedade, mas, no fim de contas, com a ternura de quem percebeu demasiado bem o nosso sofrimento, de quem conservou uma certa pureza, uma certa inocência no meio do incêndio, do bombardeamento. Ajudaste-nos a chegar até aqui, e o caminho era de pedras, era de fome, era de solidão. Sem ti, amigo, andaríamos bem mais perdidos.
Agosto de 2025
Este texto será incluído em O resto contarei aos que encontrar no Hades. Ensaios sobre António Lobo Antunes, org. Sabrina Sedlmayer e Vincenzo Russo, Edições Afrontamento, a publicar em 2026.

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