quarta-feira, 30 de julho de 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025



"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

José Saramago

domingo, 27 de julho de 2025

Pulp - Tina


Tina
Pulp

Tina
Saw her this morning on the train
She's playing games
Sometimes she changes the colour of her hair
Or her skin
Does she still wear the T-shirt
With the horizontal stripes?
The one she wore
The night I almost spoke to her

Tina's always attentive to my needs
We're really good together
'Cause we never meet
Tina
Yes. Tonight I have been thinking about
Tina

Tina
Do you remember walking past me in the snow?
14 years ago
Or on the escalator last Saturday
You were wearing rainbow gloves
With matching socks
What a display
Of everyday sexuality

Although we've never spoken
Or exchanged e-mails
We got a strong connection
It just can't fail

Tina
Tina
Yes. Tonight I have been thinking about

Scenes from a marriage that never took place
Although I did once buy a ring
Yeah

Tina
There's tantalising and teasing
And I forgot what I was going to say to you
Oh, oh
Oh Tina
What are you like?

Tina
There is no alternative
But I got to live (You know)
And I ain't living on my own, oh, no
All those places we never met
Near misses
Your lipstick on my coffee cup

Screwing in a charity shop
On top of black bin bags
Full of donations
The smell of digestive biscuits in the air
Welcome back to Dreamland
We all know your name
T-I-N-A, still reads her book on the train

Tina
Tina
Tina
Well, tonight I have been thinking about
Tina

terça-feira, 22 de julho de 2025



"No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo."

António Lobo Antunes

Eu Quero Morrer no Mar


Olha os teus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.
Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.
E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.
António Lobo Antunes

 


 "PORTUGUÊS" É O ÚNICO IDIOMA EM QUE SE PODE ESCREVER UM TEXTO SÓ COM A LETRA "P".

''PODEMOS PARTIR?
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
.
Pálido, porém perseverante, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo… "Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses".
.
Passando pela principal praça parisiense, partindo para Portugal, pediu para pintar pequenos pássaros pretos. Pintou, prostrou perante políticos, populares, pobres, pedintes. - "Paris! Paris!" Proferiu Pedro Paulo. -"Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir".
Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: -Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? -Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro.''

TUDO É INCÓMODO QUANDO A TERRA TREME


Joana Dionísio, projecto de fotografia

UMA AZEITONA BORDADA EM AZUL




Rui Costa
2024
Fotografia

https://anarrativa.com/uma-azeitona-bordada-em-azul

"Este não é o lugar que prometeram"

M. T. Evans. Edições Fantasma & Traça Editora

 


                                         Carolyn Drake, Blue Sheet with Hands (John D), 2022

Yo La Tengo- "This Stupid World"

 Os cuidadores também se abatem.


''Atravesso a ponte e vejo uma cidade que se abre em luz oblíqua e calor denso — assim em modo de cenário de “Le Mépris”, de Godard, onde a beleza não impede o colapso, apenas o emoldura.

Hoje, véspera de feriado numa semana já feriada, sou talvez dos poucos que trabalham. No rádio, entre os ecos de um golo e a publicidade de um carro híbrido, alguém murmura - como quem muda de canal num velho gira-discos:
"Os cuidadores informais, esses invisíveis."
A frase (creio que dita por Henrique Raposo, na Renascença) fica-me presa ao peito, como uma nota suspensa na guitarra de Carlos Paredes. Ou como aquele verso de Herberto Helder:
"É que amar é muito mais do que um verbo de ação. É um verbo de risco.".

Em Portugal, estima-se que existam mais de 800 mil cuidadores informais. Cerca de 234 mil vivem em regime intensivo - 24 horas por dia, sete dias por semana.
Sem folgas. Sem rede. Sem futuro certo. Sem luz de cena.
São os que transformam a sala de estar num quarto de hospital, que sabem de cor o nome de cada comprimido, o intervalo entre as crises, a diferença entre um gemido e um suspiro.
São os que adiam a própria vida para manter viva a de outro.

A maioria são mulheres. Como a D. Maria do Carmo, de Vila Real, que cuida do marido há onze anos, desde o AVC. Ele recebe 492 euros de reforma. A dela está suspensa - porque ela própria também está: suspensa entre turnos de afeto e exaustão.
Ou a Ana Luísa, de Alvalade, que interrompe o doutoramento para cuidar da mãe com Alzheimer. Lê Thomas Mann às escondidas do tempo, como quem tenta salvar a lucidez entre uma fralda e uma sopa.
São também histórias como a da D. Maria Emília, que mal consegue sair de casa para ir ao supermercado, porque o tempo que dedica a cuidar do marido com Parkinson não a deixa respirar.
Os homens também contam, embora em menor número.
Tenho um amigo, o Luís Filipe, formado em contabilidade e em gestão de empresas, filho único de filhos únicos, que abdica ainda jovem da sua profissão - e, tantas vezes, da sua vida privada - para cuidar dos pais, ambos com demência.
É ele quem muda pensos, quem gere as contas, quem acalma os delírios noturnos.
Ou o Paulo, que também abandonou o emprego para acompanhar a mãe com cancro, e agora sente a solidão de um dia que nunca acaba.

O Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, foi um passo importante. Mas a realidade ainda tropeça nos degraus do costume:
apoios limitados, candidaturas labirínticas, verbas escassas, desinformação crónica.
Em 2023, apenas 0,9% dos cuidadores estavam formalmente reconhecidos pelo Estado.
A burocracia exige fôlego, paciência e tempo - precisamente o que um cuidador não tem.
Cuidar não é apenas trabalho físico. É uma forma de amor absoluto - e, por vezes, uma violência emocional surda.
Como escrevia Maria Gabriela Llansol:
"Sou o lugar onde pousa a dor dos outros."
E sim, os cuidadores também se abatem.
Dormem pouco. Perdem peso. Perdem amigos. Perdem voz.
Alguns entram em depressão. Outros tomam ansiolíticos para conseguir continuar a dar medicação a quem amam.
Outros ainda adoecem - e calam. Porque, nisto, até o sofrimento se faz em silêncio.
Mas continuam. Porque desistir não é uma opção que o amor permita.

E, no entanto, cuidar talvez seja o último gesto profundamente humano que nos resta.
A antropóloga Margaret Mead dizia que o primeiro sinal de civilização não era a roda — mas um fémur sarado.

Alguém, algures, parou. Cuidou. Ficou.
Talvez um dia este país, que se comove com troféus e lágrimas no pódio, perceba que o verdadeiro heroísmo acontece no anonimato.
Num corredor mal iluminado. Entre uma queda evitada, uma sopa morna, uma chávena de chá.
Talvez um dia os cuidadores tenham salário, descanso, formação, tempo.
Talvez um dia lhes perguntem simplesmente:
"E a senhora, como está?"
Até lá, continuam — invisíveis, sim, mas insubstituíveis - a escrever todos os dias, com gestos minúsculos, a história mais antiga da humanidade:
a de quem fica quando todos os outros já partiram.''

___ Luís Galego
.

 ''Há, nos usos contemporâneos da linguagem e da convivência, uma forma subtil e quase sempre inconsciente de violência simbólica que se manifesta sob o véu da ternura. Refiro-me à tendência, cada vez mais disseminada, de tratar os mais velhos como criaturas enternecedoras, inofensivas, quase infantis, como se a passagem do tempo operasse não o amadurecimento do sujeito, mas a sua redução a um ser amorfo, simpático e passivo, indigno de plena agência.

A minha sogra, que conta hoje com noventa e um anos, é um exemplo raro e luminoso de lucidez, vigor e autonomia. Cozinha diariamente, trata das suas roupas, organiza a sua casa com zelo, acompanha a atualidade, mantém a memória intacta e, mais importante, conserva com limpidez a noção de si. No entanto, numa clínica onde a dada altura realizava sessões de fisioterapia, uma funcionária persistia em tratá-la como “tiazinha”, usando uma tonalidade afetada que se julga afável, mas que tresanda a paternalismo. Interroguei a senhora, num tom cortês, mas inquisitivo, sobre o grau de parentesco que a ligaria à minha sogra. Respondeu, com um sorriso quase indulgente, que gostava muito de velhinhas. A frase, embora à superfície inofensiva, guarda em si a mesma lógica que preside àquelas declarações supostamente elogiosas de quem diz gostar muito de "pessoas de cor", ou de ter "amigos gay", porque são tão “alegres”, tão “engraçados”, tão “boas companhias”. O exotismo do outro, mesmo quando revestido de aparente apreço, nunca deixa de ser uma forma de objetificação.
Recentemente, numa consulta médica, presenciei uma situação ainda mais gritante. Após consultar os excelentes resultados das análises da minha sogra, o médico dirigiu-se exclusivamente a mim e à minha mulher, como se ela própria, sentada diante de nós, fosse já um corpo ausente, uma figura decorativa no cenário da sua própria saúde. Falava dela como quem comenta o estado de um objeto ou a performance de um aparelho doméstico, ignorando por completo que estava a tratar uma mulher lúcida, consciente, informada. Aquilo que deveria ser uma relação entre médico e paciente converteu-se, sem aviso, numa espécie de colóquio entre tutores.
Essa mesma lógica está presente no discurso mediático, onde se nota uma resistência quase patológica em nomear os mais velhos como homens ou mulheres. Um canal de televisão, especializado na estetização do infortúnio, referia-se recentemente a uma senhora de cinquenta e quatro anos como "uma idosa", como se o termo “mulher” já não se lhe aplicasse, como se a partir de certa idade o sujeito se desfizesse da sua individualidade e regressasse a uma vaga categoria antropológica, sem género, sem personalidade, sem história. É a negação da biografia em nome de uma suposta neutralidade higiénica.
Em conversas de ocasião, também se ouve com frequência aquele tom peculiar que muitos adotam ao falar com os mais velhos, um timbre agudo, infantilizado, como se o interlocutor fosse surdo, lento ou intelectualmente diminuído. Perguntam à filha ou ao genro o que a pessoa “gostaria de comer”, estando ela presente. Fazem festas na mão como quem acaricia um animal de estimação. Dizem "tão fofa", "tão querida", "ainda anda sozinha", com o mesmo assombro que dedicariam a um cão que sabe abrir portas. Esta forma de convivência, que à superfície parece meiga e bem-intencionada, é profundamente despersonalizante.
É urgente reconsiderar a forma como nos dirigimos àqueles que viveram mais do que nós. Tratar uma pessoa mais velha com condescendência não é respeitar a sua idade; é negar a sua dignidade. O tempo deve ser um lugar de acumulação, não de apagamento. E há, na forma como falamos dos velhos, um espelho cruel da nossa incapacidade de imaginar o envelhecimento como uma fase legítima da existência humana, rica em presença, em memória, em voz.
A minha sogra não é “uma velhinha”. É uma mulher. Tem nome, tem vontade, tem saber. Foi professora durante muitos anos. Teve milhares de alunos. Alguns ainda lhe telefonam no aniversário ou em épocas festivas. Ela faz o mesmo. E merece ser tratada com o mesmo respeito que qualquer adulto que ainda não chegou à idade dela exige para si. Tudo o resto é polidez de superfície, e a polidez, sem verdade, é apenas outra forma de desprezo.''



Se te pudesse dizer
O que nunca te direi
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei

Fernando Pessoa


Retrato de Clarice Lispector, 1961. Acervo Claudia Andujar/Cortesia Galeria Vermelho.

 

A ESCADA E A FORMIGA


À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Em cada patamar ela estaciona
de um jeito surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha, sem aviso, um pedaço de asa
e corre pra chegar à casa que desconhecemos.
Faz folia em todas as escalas
e depois desce, gabola, até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua aventura.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala machucada,
o sal que faz arder seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
até o latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.

José Lezama Lima, «A Escada e a Formiga», tradução de Josely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, 'Inimigo Rumor', n.º 1, janeiro-abril de 1997.
“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

 Clarice Lispector

"Prêt-à-porter"



Bob Kaufman. "Solidões cheias com solidão" Edições Fantasma

distopia

sociedade fictícia caracterizada por condições de vida extremamente negativas (alienantes, totalitárias, etc.), geralmente situada num tempo futuro e concebida com o objetivo de advertir contra os perigos de determinada utopia ou para criticar a ordem social e/ou política existente no momento da sua criação


sábado, 19 de julho de 2025

horda

''Leis sensíveis''

Mary Of Silence

O amor quando se revela



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


1928
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
- 92.

Marcel Mariën. Le Double Usage, 1992


 

Esmola

Lançai-me uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi-a de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo-a murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre

Hélia Correia. Acidentes. Editora: Relógio D'Água, 2020

heavily underrated

Things Ain't Like They Used to Be

''epidemia da visão maniqueísta da vida''

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Marcel Mariën. Fidélité des images, 1991


 

salubridade

'' Já nos Lusíadas, Camões se queixava que os portugueses não são muito dados às coisas da cultura. Ontem, o primeiro-ministro demonstrou como a classe política, em especial a direita, vê a cultura: um adereço. Hoje, é o fim de muitas publicações que foram compradas num negócio muito mal explicado e que agora coloca no desemprego dezenas de jornalistas. Hoje, um boato no facebook tem mais poder que um trabalho jornalístico sério. Uma influencer que passa os dias a vestir biquínis tem mais seguidores que um escritor, um filósofo, um cientista ou um historiador. A televisão sobrevive da maledicência política e da coscuvilhice dos reality shows, onde se espreita a intimidade dos outros e os conflitos de merda. Às vezes, tenho a sensação que Portugal ainda não saiu da idade média. Não houve renascimento, nem iluminismo, nem revolução industrial, nem modernismo, nada. Ainda não aconteceu nada. Ainda não saímos da pobreza espiritual, do misticismo e da superstição. A ignorância. A inveja. A cobardia. O desinteresse real pelo mundo e pelo conhecimento. A única coisa com que o português se preocupa é com o almoço e o jantar. O que comeu e o que vai comer. Aliás, basta andar nos transportes públicos. Em dez chamadas que toda a gente ouve no autocarro, muitas em alta-voz, a primeira ou segunda pergunta que se faz é sempre: o que comeste ou o que vais comer. Toda uma filosofia bovina e ruminante. É isso que resume o país. É isso. Futebol. Bebida. Comida.''

Vicente Alves do Ó 
cineasta português



O Corpo


É pêssego
Tangerina
E é limão
Tem sabor a damasco
e a alperce
Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe
De maçã guarda o pecado
e a sedução
Do mel
o açúcar que reveste
Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece
Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce
Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos
Provando de ti
o que de ti viesse
O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece

Maria Teresa Horta, in ‘Só de amor’ -1999


Image from Maryam Tafakory's performance Code Names, 2022

O Charlatão

''poesia assexuada''

''Manifestar força contra os mais fracos é um sinal de fraqueza”

Helena Roseta, Arquiteta e ex-Deputada


''Falo pouco. Falo pouco e cada vez falo menos. Em primeiro lugar porque me distraio e esqueço o assunto das conversas e em segundo lugar porque as pessoas não esperam que lhes responda mas que as oiça, o que é fácil se acenar que sim de vez em quando e disser
— Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
— Pois claro''


ANTÓNIO LOBO ANTUNES in, 'Crónicas'


Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Clarice Lispector

''discursos identitários''

Marcel Mariën. La Cerisaie, 1983


 

Another Birth



My whole being is a dark chant
which will carry you
perpetuating you
to the dawn of eternal growths and blossoming
in this chant I sighed you sighed
in this chant
I grafted you to the tree to the water to the fire.

Life is perhaps
a long street through which a woman holding
a basket passes every day

Life is perhaps
a rope with which a man hangs himself from a branch
life is perhaps a child returning home from school.

Life is perhaps lighting up a cigarette
in the narcotic repose between two love-makings
or the absent gaze of a passerby
who takes off his hat to another passerby
with a meaningless smile and a good morning .

Life is perhaps that enclosed moment
when my gaze destroys itself in the pupil of your eyes
and it is in the feeling
which I will put into the Moon's impression
and the Night's perception.

In a room as big as loneliness
my heart
which is as big as love
looks at the simple pretexts of its happiness
at the beautiful decay of flowers in the vase
at the sapling you planted in our garden
and the song of canaries
which sing to the size of a window.

Ah
this is my lot
this is my lot
my lot is
a sky which is taken away at the drop of a curtain
my lot is going down a flight of disused stairs
a regain something amid putrefaction and nostalgia
my lot is a sad promenade in the garden of memories
and dying in the grief of a voice which tells me
I love
your hands.

I will plant my hands in the garden
I will grow I know I know I know
and swallows will lay eggs
in the hollow of my ink-stained hands.

I shall wear
a pair of twin cherries as ear-rings
and I shall put dahlia petals on my finger-nails
there is an alley
where the boys who were in love with me
still loiter with the same unkempt hair
thin necks and bony legs
and think of the innocent smiles of a little girl
who was blown away by the wind one night.

There is an alley
which my heart has stolen
from the streets of my childhood.

The journey of a form along the line of time
inseminating the line of time with the form
a form conscious of an image
coming back from a feast in a mirror

And it is in this way
that someone dies
and someone lives on.

No fisherman shall ever find a pearl in a small brook
which empties into a pool.

I know a sad little fairy
who lives in an ocean
and ever so softly
plays her heart into a magic flute
a sad little fairy
who dies with one kiss each night
and is reborn with one kiss each dawn.

Forugh FarrokhzadAnother Birth, Selected Poems Translated by Ismali Salami Zanbankadeh Publication Modern Persian Poetry 

Atrás da porta | Canção de Elis Regina ‧ 1972


Quando olhaste bem nos olhos meusE o teu olhar era de adeusJuro que não acrediteiEu te estranhei, me debruceiSobre o teu corpo e duvideiE me arrastei e te arranheiE me agarrei nos teus cabelosNo teu peito, teu pijamaNos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem cobertaNo tapete atrás da portaReclamei baixinhoDei pra maldizer o nosso larPra sujar teu nome, te humilharE me vingar a qualquer preçoTe adorando pelo avessoPra mostrar que ainda sou tuaAté provar que ainda sou tua
Compositores: Francis Victor Walter Hime / Francisco Buarque De Hollanda


 

LOVE SONG



The night is painted by your dream
Your perfume fills my lungs to extreme

You are a feast for my eyes!
All shapes of woe you belie


As the body of earth is washed by rain
From my soul you cleanse all stain!


In my burning body you are a turning gyre
In the shade of my eyelashes you are a blazing fire.

You are more verdant than a wheat field!
More fruit than golden boughs you yield!

To the suns you open the gate
To counteract dark doubt’s spate

With you there is nothing to fear
But the pain of joyful tear

This sad heart of mine and profuse light?
This din of life in the abyss of blight?

The glance in your eyes is my field
And with it my eyes are sealed

Before this I had no other image
Or I would not but you envisage

The pain of love is a dark pain
Going and demeaning oneself in vain

Learning against people with black sight
Defiling oneself with the filth of spite

Finding in caresses venom of wile
Finding villainy in friend’s smile

Handing gold coins to the marauding band
Getting lost in the midst of the bazaar land

With my soul united you will be
From grave you will raise me

Like a star on wings decked with gold
You come from a land untold.

You alleviate sorrow’s pang
Flooding my body with embrace’s tang

You are a stream flowing onto my dry breast
My bed of my veins with your water is blest

Within a world which on darkness does feed
With every step you take I proceed

Underneath my skin you go!
There like blood you flow

Burning my tresses with a fondling hand
Flushing my checks with an urging demand

You are a stranger to my gown
An acquaintance with my body’s lawn

You are a shining sun that never dies
A sun that rises in Southern skies

You are fresher than first light
Fresher than spring, a luster sight

This is no longer love: this is pride
A chandelier that in silence and darkness died

When love did my heart entice
I was filled with a sense of sacrifice

This is no longer me, this is no longer me
My life with my ego amounted to a null degree

My lips your kisses prize
Your lips are the temple of my eyes

In me your stir a great rhapsody
Your curves are an attire on my body

O how I crave to sprout
And my joy with sorrow shout

O how I wish to rise
And my eyes with tears baptize

This forlorn heart of mine and incense perfume?
The music of harp and lyre in a prayer room?

This void and these flights?
These songs and these silent nights?

Your glance is a wondrous lullaby
Cradling restless babes thereby

Your breath is a transcendental breeze
Washing off me tremors of unease

Finding in my morrows a place to sleep
Permeating my world deep and deep

In me the passion for poetry you inspire
Over my lays you cast instant fire

You kindled my passionate desire
Thus setting my poems afire.


Forugh Farrokhzad, Another Birth, Selected Poems Translated by Ismali Salami Zanbankadeh Publication Modern Persian Poetry Page 20 ISBN: 964-6117-36-8


The Wind Will Take Us

In my small night, ah
the wind has a date with the leaves of the trees
in my small night there is agony of destruction
listen
do you hear the darkness blowing?
I look upon this bliss as a stranger
I am addicted to my despair.

listen do you hear the darkness blowing?
something is passing in the night
the moon is restless and red
and over this rooftop
where crumbling is a constant fear
clouds, like a procession of mourners
seem to be waiting for the moment of rain.
a moment
and then nothing
night shudders beyond this window
and the earth winds to a halt
beyond this window
something unknown is watching you and me.

O green from head to foot
place your hands like a burning memory
in my loving hands
give your lips to the caresses
of my loving lips
like the warm perception of being
the wind will take us
the wind will take us.

Forugh Farrokhzad

Translated by Ahmad Karimi Hakkak
The Persian Book Review VOLUME III, NO 12 Page 1337

Gift


I speak out of the deep of night
out of the deep of darkness
and out of the deep of night I speak.

if you come to my house, friend
bring me a lamp and a window I can look through
at the crowd in the happy alley.

Forugh Farrokhzad
Translated by Ahmad Karimi Hakkkak
The Persian Book Review VOLUME III, NO 12 Page 1337

Encontro



                                                                                                          para o Rui Cambraia

Conheceu-a num bar e estava muito bêbeda. 
Não, nada de sexo: passou-lhe as mãos pelos cabelos selvagens,
olhou-a lá bem no fundo do coração em ferida
    e fez amor com ela, sem lhe tocar, até de madrugada.

                                                                                         Lx.ª, Artis, 22.11.96


António Barahona, NOITE DO MEU INVERNO, edição Averno

quinta-feira, 17 de julho de 2025

palíndromo


 

Proibição

''porque se é possível proibir o toque, não é possível proibir o desejo, que sobrevive através de outros meios.''


Maryam Tafakory, artista e realizadora de origem iraniana (nascida em 1987)

I Have Sinned a Rapturous Sin

''(...) sermões por figuras religiosas sobre o tema do comportamento sexual das mulheres, e como estas devem evitar certos comportamentos e outros conselhos progressivamente mais bizarros (como comer alface para reduzir o desejo ou aplicar vinagre na roupa interior), o filme demonstra a imoralidade destas figuras que ocupam o tempo com pensamentos perversos a pensar em formas de controlar o comportamento das mulheres.''


Crítica

Maryam Tafakory, artista e realizadora de origem iraniana (nascida em 1987)
“todas as minhas feridas vêm do amor / de amar”

Maryam Tafakory

Halah

Forugh Farrokhzad

 

Only Voice Remains



Why should I stop, why?

Birds have gone to seek their blue way.
The horizon is horizontal,
movement vertical– a gushing geyser.
Bright stars spin as far as the eye can see.

The Earth repeats itself in space, air tunnels
become connecting canals and day changes
to an entity so vast it cannot be stuffed
into the narrow imaginations of the newspaper worms.

Why should I stop?

The path meanders among life’s tiny veins
and the climate of the moon’s womb will annihilate
the cancerous cells, and in the chemical aura of after-dawn
there will remain only voice—
voice seeping into time.

Why should I stop?
What is a swamp but a spawning ground
for corruption’s vermin?
Swelled corpses pen the morgue’s thoughts,
the cad hides his yellowness in the dark,
and the cockroach
… ah when the cockroach harangues,
why should I stop?

Printer’s lead letters line up in vain.
Lead letters in league cannot salvage petty thoughts.
My essence is of trees; breathing stale air depresses me.
A bird long dead counselled me to remember flight.

Fusion creates the greatest force—
fusion with the sun’s luminescent soul,
comprehension flooding with light.
Windmills eventually warp and rot.
Why should I stop?
I hold to my breasts sheaves of unripe wheat
and give them milk.

Voice, voice, only voice.
The water’s voice, its wish to flow,
the starlight’s voice pouring upon the earth’s female form,
the voice of the egg in the womb congealing into sense,
the clotting together of love’s minds.

Voice, voice, voice, only voice remains.
In a world of runts,
measurements orbit around zero.
Why must I stop?

The four elements alone rule me;
my heart’s charter cannot be drafted
by the provincial government of the blind.
What have I to do with the long feral howls
of the beasts’ genitals?
What have I to do with the slow progress
of a maggot through flesh?

It’s the flowers’ bloodstained history that has committed me to life,
the flowers’ bloodstained history, you hear?


From: Sin: Selected Poems of Forugh Farrokhzad, University of Arkansas Press

The Captive




I want you, yet I know that never
can I embrace you to my heart’s content.
you are that clear and bright sky.
I, in this corner of the cage, am a captive bird.

From behind the cold and dark bars
directing toward you my rueful look of astonishment,
I am thinking that a hand might come
and I might suddenly spread my wings in your direction.

I am thinking that in a moment of neglect
I might fly from this silent prison,
laugh in the eyes of the man who is my jailer
and beside you begin life anew.

I am thinking these things, yet I know
that I can not, dare not leave this prison.
even if the jailer would wish it,
no breath or breeze remains for my flight.

From behind the bars, every bright morning
the look of a child smile in my face;
when I begin a song of joy,
his lips come toward me with a kiss.

O sky, if I want one day
to fly from this silent prison,
what shall I say to the weeping child’s eyes:
forget about me, for I am captive bird?

I am that candle which illumines a ruin
with the burning of her heart.
If I want to choose silent darkness,
I will bring a nest to ruin.

Forugh Farrokhzad
''I want to reach the heart of the earth. My love lies in there, a place where seedlings turn green and roots meet one another and creation continues even in disintegration. I think it has always been this way — in birth and then in death. I think my body is a temporary form. I want to reach its essence. I want to hang my heart like a ripe fruit on every branch of every tree.''

Forugh Farrokhzad


Another Birth



… I shall wear

a pair of twin cherries as ear-rings

and I shall put dahlia petals on my finger-nails

there is an alley

where the boys who were in love with me

still loiter with the same unkempt hair

thin necks and bony legs

and think of the innocent smiles of a little girl

who was blown away by the wind one night…



Forugh Farokhzad-1963



Fotografía de Marta Pozas
 

“Which pain does film cure?”

Maryam Tafakory, artista e realizadora de origem iraniana (nascida em 1987)

''autoridade (i)moral''

ensaios visuais

 Junto à água [Só quero um sítio onde pousar a cabeça]
de Manuel António Pina

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.

Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.

À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, in ‘Um sítio onde pousar a cabeça’
e in ‘Todas as palavras - Poesia Reunida

Emilio Sommariva. Lyda Borelli, 1912


 

Yerai Cortés - POR TU SILENCIO LLORO

Quantos Flamingos São Precisos para Fazer uma Festa?

  espetáculo de Teatro-circo promovido pela Companhia Coração nas Mãos

Una vez al año es lícito hacer locuras

San Agustín de Hipona

''Eternos moradores do luzente, / Estelífero polo e claro assento: / / Se do grande valor da forte gente / de Luso não perdeis o pensamento, / Deveis de ter sabido claramente / Como é dos Fados grandes certo intento / Que por ela se esqueçam os humanos / De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.''

Os Lusíadas, Canto I, 24.



O Homem pára no limiar do mistério.
O Poeta deixa-nos pressentir algo que está para além das suas palavras.



(Manuel Tânger Corrêa, A Visão Caleidoscópica de Camões —Trabalho para a cadeira de Estudos Camonianos da regência do Ex.mo Sr. Professor Doutor Vitorino Nemésio, 1946, Faculdade de Letras de Lisboa)

 


nome masculino
1.
o que fica depois de escolhido o melhor, refugo
2.
cigalho, pedacinho
3.
gente desprezível, ralé

All About My Mother (1999) dir : Pedro Almodovar

 


Yerai Cortés - Sonar por Bulerías

"let's forget"

"charming"

"Dá à tua tristeza todo o espaço e abrigo que é devido, pois se todos suportarem a sua tristeza com honestidade e coragem, a tristeza que agora enche o mundo diminuirá.” 

 Etty Hillesum
 O miúdo da bicicleta
passa por mim, veloz.
O som dos pedais
e o sorriso.

Nuno Artur Silva, Erros Meus (poesia incompleta), Edição Imprensa Nacional

Vieira da Silva - "Canção para um Povo Triste"

 ´                                                    

''São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. (...) Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.
(...)
São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão. Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.''
___
𝘪𝘯 "𝘋𝘪𝘢́𝘳𝘪𝘰 𝘥𝘦 𝘶𝘮 𝘗𝘢𝘳𝘪𝘴𝘪𝘦𝘯𝘴𝘦".
𝘗𝘢𝘳𝘵𝘦 𝘥𝘦 𝘶𝘮 𝘵𝘦𝘹𝘵𝘰 𝘦𝘴𝘤𝘳𝘪𝘵𝘰, 𝘦𝘮 1969, 𝘴𝘰𝘣𝘳𝘦 𝘢 𝘤𝘩𝘦𝘨𝘢𝘥𝘢 𝘥𝘦 𝘗𝘰𝘳𝘵𝘶𝘨𝘶𝘦𝘴𝘦𝘴 𝘢 𝘍𝘳𝘢𝘯𝘤̧𝘢.
Podia ser sobre qualquer outro povo. Mas não. É mesmo sobre os portugueses....
𝘍𝘰𝘵𝘰𝘨𝘳𝘢𝘧𝘪𝘢 𝘥𝘦 𝘱𝘰𝘳𝘵𝘶𝘨𝘶𝘦𝘴𝘦𝘴 𝘯𝘶𝘮 𝘣𝘪𝘥𝘰𝘯𝘷𝘪𝘭𝘭𝘦 𝘦𝘮 𝘗𝘢𝘳𝘪𝘴 𝘯𝘢 𝘥𝘦́𝘤𝘢𝘥𝘢 𝘥𝘦 1960

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