quarta-feira, 30 de julho de 2025
terça-feira, 29 de julho de 2025
domingo, 27 de julho de 2025
Pulp - Tina
terça-feira, 22 de julho de 2025
Eu Quero Morrer no Mar
"PORTUGUÊS" É O ÚNICO IDIOMA EM QUE SE PODE ESCREVER UM TEXTO SÓ COM A LETRA "P".
UMA AZEITONA BORDADA EM AZUL
2024
Fotografia
https://anarrativa.com/uma-azeitona-bordada-em-azul
Os cuidadores também se abatem.
''Atravesso a ponte e vejo uma cidade que se abre em luz oblíqua e calor denso — assim em modo de cenário de “Le Mépris”, de Godard, onde a beleza não impede o colapso, apenas o emoldura.
Hoje, véspera de feriado numa semana já feriada, sou talvez dos poucos que trabalham. No rádio, entre os ecos de um golo e a publicidade de um carro híbrido, alguém murmura - como quem muda de canal num velho gira-discos:
"Os cuidadores informais, esses invisíveis."
A frase (creio que dita por Henrique Raposo, na Renascença) fica-me presa ao peito, como uma nota suspensa na guitarra de Carlos Paredes. Ou como aquele verso de Herberto Helder:
"É que amar é muito mais do que um verbo de ação. É um verbo de risco.".
Em Portugal, estima-se que existam mais de 800 mil cuidadores informais. Cerca de 234 mil vivem em regime intensivo - 24 horas por dia, sete dias por semana.
Sem folgas. Sem rede. Sem futuro certo. Sem luz de cena.
São os que transformam a sala de estar num quarto de hospital, que sabem de cor o nome de cada comprimido, o intervalo entre as crises, a diferença entre um gemido e um suspiro.
São os que adiam a própria vida para manter viva a de outro.
A maioria são mulheres. Como a D. Maria do Carmo, de Vila Real, que cuida do marido há onze anos, desde o AVC. Ele recebe 492 euros de reforma. A dela está suspensa - porque ela própria também está: suspensa entre turnos de afeto e exaustão.
Ou a Ana Luísa, de Alvalade, que interrompe o doutoramento para cuidar da mãe com Alzheimer. Lê Thomas Mann às escondidas do tempo, como quem tenta salvar a lucidez entre uma fralda e uma sopa.
São também histórias como a da D. Maria Emília, que mal consegue sair de casa para ir ao supermercado, porque o tempo que dedica a cuidar do marido com Parkinson não a deixa respirar.
Os homens também contam, embora em menor número.
Tenho um amigo, o Luís Filipe, formado em contabilidade e em gestão de empresas, filho único de filhos únicos, que abdica ainda jovem da sua profissão - e, tantas vezes, da sua vida privada - para cuidar dos pais, ambos com demência.
É ele quem muda pensos, quem gere as contas, quem acalma os delírios noturnos.
Ou o Paulo, que também abandonou o emprego para acompanhar a mãe com cancro, e agora sente a solidão de um dia que nunca acaba.
O Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, foi um passo importante. Mas a realidade ainda tropeça nos degraus do costume:
apoios limitados, candidaturas labirínticas, verbas escassas, desinformação crónica.
Em 2023, apenas 0,9% dos cuidadores estavam formalmente reconhecidos pelo Estado.
A burocracia exige fôlego, paciência e tempo - precisamente o que um cuidador não tem.
Cuidar não é apenas trabalho físico. É uma forma de amor absoluto - e, por vezes, uma violência emocional surda.
Como escrevia Maria Gabriela Llansol:
"Sou o lugar onde pousa a dor dos outros."
E sim, os cuidadores também se abatem.
Dormem pouco. Perdem peso. Perdem amigos. Perdem voz.
Alguns entram em depressão. Outros tomam ansiolíticos para conseguir continuar a dar medicação a quem amam.
Outros ainda adoecem - e calam. Porque, nisto, até o sofrimento se faz em silêncio.
Mas continuam. Porque desistir não é uma opção que o amor permita.
E, no entanto, cuidar talvez seja o último gesto profundamente humano que nos resta.
A antropóloga Margaret Mead dizia que o primeiro sinal de civilização não era a roda — mas um fémur sarado.
Alguém, algures, parou. Cuidou. Ficou.
Talvez um dia este país, que se comove com troféus e lágrimas no pódio, perceba que o verdadeiro heroísmo acontece no anonimato.
Num corredor mal iluminado. Entre uma queda evitada, uma sopa morna, uma chávena de chá.
Talvez um dia os cuidadores tenham salário, descanso, formação, tempo.
Talvez um dia lhes perguntem simplesmente:
"E a senhora, como está?"
Até lá, continuam — invisíveis, sim, mas insubstituíveis - a escrever todos os dias, com gestos minúsculos, a história mais antiga da humanidade:
a de quem fica quando todos os outros já partiram.''
___ Luís Galego
.
''Há, nos usos contemporâneos da linguagem e da convivência, uma forma subtil e quase sempre inconsciente de violência simbólica que se manifesta sob o véu da ternura. Refiro-me à tendência, cada vez mais disseminada, de tratar os mais velhos como criaturas enternecedoras, inofensivas, quase infantis, como se a passagem do tempo operasse não o amadurecimento do sujeito, mas a sua redução a um ser amorfo, simpático e passivo, indigno de plena agência.
A ESCADA E A FORMIGA
À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Em cada patamar ela estaciona
de um jeito surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha, sem aviso, um pedaço de asa
e corre pra chegar à casa que desconhecemos.
Faz folia em todas as escalas
e depois desce, gabola, até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua aventura.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala machucada,
o sal que faz arder seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
até o latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.
José Lezama Lima, «A Escada e a Formiga», tradução de Josely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, 'Inimigo Rumor', n.º 1, janeiro-abril de 1997.
distopia
sociedade fictícia caracterizada por condições de vida extremamente negativas (alienantes, totalitárias, etc.), geralmente situada num tempo futuro e concebida com o objetivo de advertir contra os perigos de determinada utopia ou para criticar a ordem social e/ou política existente no momento da sua criação
sábado, 19 de julho de 2025
O amor quando se revela
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
1928
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
- 92.
Esmola
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi-a de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo-a murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre
Hélia Correia. Acidentes. Editora: Relógio D'Água, 2020
sexta-feira, 18 de julho de 2025
'' Já nos Lusíadas, Camões se queixava que os portugueses não são muito dados às coisas da cultura. Ontem, o primeiro-ministro demonstrou como a classe política, em especial a direita, vê a cultura: um adereço. Hoje, é o fim de muitas publicações que foram compradas num negócio muito mal explicado e que agora coloca no desemprego dezenas de jornalistas. Hoje, um boato no facebook tem mais poder que um trabalho jornalístico sério. Uma influencer que passa os dias a vestir biquínis tem mais seguidores que um escritor, um filósofo, um cientista ou um historiador. A televisão sobrevive da maledicência política e da coscuvilhice dos reality shows, onde se espreita a intimidade dos outros e os conflitos de merda. Às vezes, tenho a sensação que Portugal ainda não saiu da idade média. Não houve renascimento, nem iluminismo, nem revolução industrial, nem modernismo, nada. Ainda não aconteceu nada. Ainda não saímos da pobreza espiritual, do misticismo e da superstição. A ignorância. A inveja. A cobardia. O desinteresse real pelo mundo e pelo conhecimento. A única coisa com que o português se preocupa é com o almoço e o jantar. O que comeu e o que vai comer. Aliás, basta andar nos transportes públicos. Em dez chamadas que toda a gente ouve no autocarro, muitas em alta-voz, a primeira ou segunda pergunta que se faz é sempre: o que comeste ou o que vais comer. Toda uma filosofia bovina e ruminante. É isso que resume o país. É isso. Futebol. Bebida. Comida.''
Vicente Alves do ÓO Corpo
''Manifestar força contra os mais fracos é um sinal de fraqueza”
— Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
— Pois claro''
ANTÓNIO LOBO ANTUNES in, 'Crónicas'
Another Birth
My whole being is a dark chant
perpetuating you
to the dawn of eternal growths and blossoming
in this chant I sighed you sighed
in this chant
I grafted you to the tree to the water to the fire.
Life is perhaps
a long street through which a woman holding
a basket passes every day
Life is perhaps
a rope with which a man hangs himself from a branch
life is perhaps a child returning home from school.
Life is perhaps lighting up a cigarette
in the narcotic repose between two love-makings
or the absent gaze of a passerby
who takes off his hat to another passerby
with a meaningless smile and a good morning .
Life is perhaps that enclosed moment
when my gaze destroys itself in the pupil of your eyes
and it is in the feeling
which I will put into the Moon's impression
and the Night's perception.
In a room as big as loneliness
my heart
which is as big as love
looks at the simple pretexts of its happiness
at the beautiful decay of flowers in the vase
at the sapling you planted in our garden
and the song of canaries
which sing to the size of a window.
Ah
this is my lot
this is my lot
my lot is
a sky which is taken away at the drop of a curtain
my lot is going down a flight of disused stairs
a regain something amid putrefaction and nostalgia
my lot is a sad promenade in the garden of memories
and dying in the grief of a voice which tells me
I love
your hands.
I will plant my hands in the garden
I will grow I know I know I know
and swallows will lay eggs
in the hollow of my ink-stained hands.
I shall wear
a pair of twin cherries as ear-rings
and I shall put dahlia petals on my finger-nails
there is an alley
where the boys who were in love with me
still loiter with the same unkempt hair
thin necks and bony legs
and think of the innocent smiles of a little girl
who was blown away by the wind one night.
There is an alley
which my heart has stolen
from the streets of my childhood.
The journey of a form along the line of time
inseminating the line of time with the form
a form conscious of an image
coming back from a feast in a mirror
And it is in this way
that someone dies
and someone lives on.
No fisherman shall ever find a pearl in a small brook
which empties into a pool.
I know a sad little fairy
who lives in an ocean
and ever so softly
plays her heart into a magic flute
a sad little fairy
who dies with one kiss each night
and is reborn with one kiss each dawn.
Atrás da porta | Canção de Elis Regina ‧ 1972
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua
LOVE SONG
The night is painted by your dream
Your perfume fills my lungs to extreme
You are a feast for my eyes!
All shapes of woe you belie
As the body of earth is washed by rain
From my soul you cleanse all stain!
In my burning body you are a turning gyre
In the shade of my eyelashes you are a blazing fire.
You are more verdant than a wheat field!
More fruit than golden boughs you yield!
To the suns you open the gate
To counteract dark doubt’s spate
With you there is nothing to fear
But the pain of joyful tear
This sad heart of mine and profuse light?
This din of life in the abyss of blight?
The glance in your eyes is my field
And with it my eyes are sealed
Before this I had no other image
Or I would not but you envisage
The pain of love is a dark pain
Going and demeaning oneself in vain
Learning against people with black sight
Defiling oneself with the filth of spite
Finding in caresses venom of wile
Finding villainy in friend’s smile
Handing gold coins to the marauding band
Getting lost in the midst of the bazaar land
With my soul united you will be
From grave you will raise me
Like a star on wings decked with gold
You come from a land untold.
You alleviate sorrow’s pang
Flooding my body with embrace’s tang
You are a stream flowing onto my dry breast
My bed of my veins with your water is blest
Within a world which on darkness does feed
With every step you take I proceed
Underneath my skin you go!
There like blood you flow
Burning my tresses with a fondling hand
Flushing my checks with an urging demand
You are a stranger to my gown
An acquaintance with my body’s lawn
You are a shining sun that never dies
A sun that rises in Southern skies
You are fresher than first light
Fresher than spring, a luster sight
This is no longer love: this is pride
A chandelier that in silence and darkness died
When love did my heart entice
I was filled with a sense of sacrifice
This is no longer me, this is no longer me
My life with my ego amounted to a null degree
My lips your kisses prize
Your lips are the temple of my eyes
In me your stir a great rhapsody
Your curves are an attire on my body
O how I crave to sprout
And my joy with sorrow shout
O how I wish to rise
And my eyes with tears baptize
This forlorn heart of mine and incense perfume?
The music of harp and lyre in a prayer room?
This void and these flights?
These songs and these silent nights?
Your glance is a wondrous lullaby
Cradling restless babes thereby
Your breath is a transcendental breeze
Washing off me tremors of unease
Finding in my morrows a place to sleep
Permeating my world deep and deep
In me the passion for poetry you inspire
Over my lays you cast instant fire
You kindled my passionate desire
Thus setting my poems afire.
Forugh Farrokhzad, Another Birth, Selected Poems Translated by Ismali Salami Zanbankadeh Publication Modern Persian Poetry Page 20 ISBN: 964-6117-36-8
The Wind Will Take Us
In my small night, ah
the wind has a date with the leaves of the trees
in my small night there is agony of destruction
listen
do you hear the darkness blowing?
I look upon this bliss as a stranger
I am addicted to my despair.
listen do you hear the darkness blowing?
something is passing in the night
the moon is restless and red
and over this rooftop
where crumbling is a constant fear
clouds, like a procession of mourners
seem to be waiting for the moment of rain.
a moment
and then nothing
night shudders beyond this window
and the earth winds to a halt
beyond this window
something unknown is watching you and me.
O green from head to foot
place your hands like a burning memory
in my loving hands
give your lips to the caresses
of my loving lips
like the warm perception of being
the wind will take us
the wind will take us.
Forugh Farrokhzad
Translated by Ahmad Karimi Hakkak
The Persian Book Review VOLUME III, NO 12 Page 1337
Gift
I speak out of the deep of night
out of the deep of darkness
and out of the deep of night I speak.
if you come to my house, friend
bring me a lamp and a window I can look through
at the crowd in the happy alley.
Forugh Farrokhzad
Translated by Ahmad Karimi Hakkkak
The Persian Book Review VOLUME III, NO 12 Page 1337
Encontro
para o Rui Cambraia
António Barahona, NOITE DO MEU INVERNO, edição Averno
quinta-feira, 17 de julho de 2025
Proibição
I Have Sinned a Rapturous Sin
Only Voice Remains
Why should I stop, why?
Birds have gone to seek their blue way.
The horizon is horizontal,
movement vertical– a gushing geyser.
Bright stars spin as far as the eye can see.
The Earth repeats itself in space, air tunnels
become connecting canals and day changes
to an entity so vast it cannot be stuffed
into the narrow imaginations of the newspaper worms.
Why should I stop?
The path meanders among life’s tiny veins
and the climate of the moon’s womb will annihilate
the cancerous cells, and in the chemical aura of after-dawn
there will remain only voice—
voice seeping into time.
Why should I stop?
What is a swamp but a spawning ground
for corruption’s vermin?
Swelled corpses pen the morgue’s thoughts,
the cad hides his yellowness in the dark,
and the cockroach
… ah when the cockroach harangues,
why should I stop?
Printer’s lead letters line up in vain.
Lead letters in league cannot salvage petty thoughts.
My essence is of trees; breathing stale air depresses me.
A bird long dead counselled me to remember flight.
Fusion creates the greatest force—
fusion with the sun’s luminescent soul,
comprehension flooding with light.
Windmills eventually warp and rot.
Why should I stop?
I hold to my breasts sheaves of unripe wheat
and give them milk.
Voice, voice, only voice.
The water’s voice, its wish to flow,
the starlight’s voice pouring upon the earth’s female form,
the voice of the egg in the womb congealing into sense,
the clotting together of love’s minds.
Voice, voice, voice, only voice remains.
In a world of runts,
measurements orbit around zero.
Why must I stop?
The four elements alone rule me;
my heart’s charter cannot be drafted
by the provincial government of the blind.
What have I to do with the long feral howls
of the beasts’ genitals?
What have I to do with the slow progress
of a maggot through flesh?
It’s the flowers’ bloodstained history that has committed me to life,
the flowers’ bloodstained history, you hear?
The Captive
I want you, yet I know that never
can I embrace you to my heart’s content.
you are that clear and bright sky.
I, in this corner of the cage, am a captive bird.
From behind the cold and dark bars
directing toward you my rueful look of astonishment,
I am thinking that a hand might come
and I might suddenly spread my wings in your direction.
I am thinking that in a moment of neglect
I might fly from this silent prison,
laugh in the eyes of the man who is my jailer
and beside you begin life anew.
I am thinking these things, yet I know
that I can not, dare not leave this prison.
even if the jailer would wish it,
no breath or breeze remains for my flight.
From behind the bars, every bright morning
the look of a child smile in my face;
when I begin a song of joy,
his lips come toward me with a kiss.
O sky, if I want one day
to fly from this silent prison,
what shall I say to the weeping child’s eyes:
forget about me, for I am captive bird?
I am that candle which illumines a ruin
with the burning of her heart.
If I want to choose silent darkness,
I will bring a nest to ruin.
Another Birth
“
… I shall wear
a pair of twin cherries as ear-rings
and I shall put dahlia petals on my finger-nails
there is an alley
where the boys who were in love with me
still loiter with the same unkempt hair
thin necks and bony legs
and think of the innocent smiles of a little girl
who was blown away by the wind one night…
“
Forugh Farokhzad-1963
“Which pain does film cure?”
de Manuel António Pina
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.
Manuel António Pina, in ‘Um sítio onde pousar a cabeça’
e in ‘Todas as palavras - Poesia Reunida
Quantos Flamingos São Precisos para Fazer uma Festa?
espetáculo de Teatro-circo promovido pela Companhia Coração nas Mãos
Os Lusíadas, Canto I, 24.
O Homem pára no limiar do mistério.
O Poeta deixa-nos pressentir algo que está para além das suas palavras.
(Manuel Tânger Corrêa, A Visão Caleidoscópica de Camões —Trabalho para a cadeira de Estudos Camonianos da regência do Ex.mo Sr. Professor Doutor Vitorino Nemésio, 1946, Faculdade de Letras de Lisboa)
''São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.









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