sábado, 15 de novembro de 2025

retratíssimo ou narração de um homem depois de maio

 Retratoblíquo sentado.

Retratimensamente de/lado, no/acto

conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
 
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e  ardente
perto perto,
Por/cima , nuvens de cinza revoltada,
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
 
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquim-
pura contínua - mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia, Que os poderes oh confundia.
 
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urde do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
 
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
 
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
 
Não tem amor senão do amor.
É um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
 
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca -  ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
 
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass) assinado.
 
                                                            1961-62
 
 
 
Herberto Helder
poesia toda
assírio & alvim
1996


filhos não te são nada



filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários
                                                       quando dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais
                                                                           nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela baixo
– a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se
                                                                  apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
 
 
 
Herberto Helder
a morte sem mestre
porto editora
2014

 





                                        Hans Magnus Ensensberger, tradução de Alberto Pimenta.

Como Medo, Com Pedro

Aberto por uma bala

  


Aberto por uma bala
de fora para dentro. Como um olhar de Deus,
ou da paisagem,
até à raiz do nervo de que vivo todo.
Aberto, descoberto.
Ou fechado inteiro para sempre.
E ao furo imaginário queimado
reflui o sangue do mundo.
O nó mais duro, o puro nó da carne
– o centro.
Furioso fulcro do espírito.
É aí que penso.
Por onde falo ainda tão depressa
que ressuscito, ardido.
 
 
 
Herberto Helder
flash
a cura di carlo vittorio cattaneo
empira
roma
1987

No meu espaço

 Ambiente da casa, dos cafés, do bairro
que vejo e percorro: ano após ano.

Criei-te de alegrias e tristezas:
de tantas circunstâncias, tantas coisas.

E já não és senão como te sinto.

(1929)


constantino cavafy
90 e mais poemas
trad Jorge de Sena
edições asa
2003

Páginas íntimas

 Nunca vivi no campo. Como outros, nem sequer a planície visitei, a não ser por curtos períodos de tempo. Não obstante escrevi um poema sobre o campo e dei-lhe aquilo que os meus versos lhe devem. Esse poema pouco vale. Nada existe menos sincero do que ele; uma total mentira.


Agora ocorre-me, porém, o seguinte: tratar-se-á, realmente, de uma falta de sinceridade? Não estará a arte sempre a mentir? Melhor dizendo, não será ela tanto mais criativa quanto mais mente? Quando escrevi aqueles versos, não estariam a ser produto da arte? (Não serem perfeitos talvez se não deva a uma falta de sinceridade, pois muitas vezes falhamos tendo por matéria-prima a mais sincera das impressões.) Na altura em que fiz aqueles versos haveria em mim sinceridade artística? Não estaria eu a pensar de uma forma que era como se vivesse, de facto, no campo?



konstandinos kavafis
kavafis páginas íntimas
trad. joão carlos chainho
hiena editora
1994



                                                             Yamamoto Masao - #1645, Kawa

 Embrulhou-as com cuidado, ordenadamente
na seda verde excelente.

Lírios de pérolas, rosas de rubis,
violetas de ametista. Tais como ele as quis,

as apreciou, as viu belas; não como na natureza há
as viu e as estudou. Dentro do cofre as deixará

amostra do seu trabalho eficaz e sem temor.
Se na loja entrar um qualquer comprador

tira outras dos estojos e vende – jóias singulares –
pulseiras, anéis, cordões e colares.



konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994
 E se não podes fazer a tua vida como a queres,
pelo menos procura isto
quanto puderes: não a aviltes
na muita afinidade com o mundo,
nos muitos movimentos e conversas.

Não a aviltes levando-a,
passeando-a frequentemente e expondo-a
em relações e convívios
da parvoíce do dia-a-dia,
até se tornar como uma estranha pesada.



konstandinos kavafis
os poemas
I (1905-1915)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005

 Muitas vezes verifiquei que os homens dão pouca importância às palavras. Vou explicar-me. Uma pessoa banal (com banal não quero eu dizer que seja tola, apenas alguém que não é relevante) tem uma ideia qualquer que é de censura a uma instituição ou a uma opinião generalizada; sabe que a grande maioria pensa o contrário e por tal razão cala-se, pensa que não lhe convém falar e argumenta que a discussão não altera nada. É um grande erro. Eu actuo de outra maneira. Censuro, por exemplo, a pena de morte. Quando a ocasião se proporciona declaro-o, não porque esteja convencido de que os Estados vão fazer a sua abolição no dia seguinte, mas por estar convencido de que vou contribuir para o triunfo da minha opinião. É indiferente que ninguém esteja de acordo. As minhas palavras não caem em saco roto. Talvez alguém chegue a repeti-las, e possam ir ter a ouvidos que as oiçam e apoiem. Pode ser que alguém, entre os que não concordam agora, no futuro vá recordá-las em circunstância favorável e, havendo o concurso de outras circunstâncias, se convença ou ponha em dúvida a sua convicção, que lhe é contrária. E o mesmo se passa com outros problemas sociais, e outras coisas em que é sobretudo necessário haver Acção. Reconheço que sou um cobarde e não posso actuar. Limito-me, por isso, a falar. Embora não acredite que as minhas palavras sejam supérfluas. Outro existirá que vai actuar. E as minhas palavras – palavras de um cobarde – vão facilitar-lhe a actuação. Prepara-lhe o terreno.

 
(19-10-1902)
 
 
 
konstandinos kavafis
kavafis páginas íntimas
trad. joão carlos chainho
hiena editora
1994

 Na aldeia aborrecida em que trabalha –
empregado num estabelecimento
comercial; muito jovem – e onde aguarda
que passem ainda dois ou três meses,
dois ou três meses ainda para que o trabalho abrande,
e assim possa ir para a cidade e todo
se entregar ao bulício e à diversão;
na aldeia aborrecida em que aguarda –
caiu esta noite na cama tomado pelo amor,
abrasada toda a sua juventude na paixão da carne,
numa bela intensidade toda a sua formosa juventude.
E com o sono chegou o prazer; no sono
vê e faz sua a imagem, a carne que desejava…
 
1925
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017


eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram

Herberto Helder

La Niña de los Peines - Quisiera yo renegar (Petenera)


Alberto Pimenta

 

Uma palavra

 Eu tenho uma palavra na garganta
e não a solto, não me livro dela
ainda que o coice do sangue me empurre.
Se a liberto, incendeia pastagens,
degola cordeiros, faz cair os pássaros.

Tenho que a desprender da minha língua,
encontrar um buraco de castores,
ou sepultá-la com cal e massa
para que não esconda como a alma, o voo.

Não quero dar sinais de que estou viva
enquanto circular pelo meu sangue
e suba e desça pelo meu louco fôlego.
Embora o meu pai Job, ardendo, a tenha dito,
não quero dar-lhe a minha pobre boca
para que não a encontrem as mulheres
que vão ao rio, e se prenda às suas tranças
ou se esfregue e abrace no pobre matagal.

Eu quero lançar-lhe violentas sementes
para que numa noite a cubram e afoguem
sem dela deixar o pó duma sílaba.
Ou cortá-la assim, como a víbora
a meio se corta com os dentes.

E voltar a minha casa, entrar, adormecer,
já cortada, já dela separada,
e acordar depois de dois mil dias,
recém-nascida de sono e esquecimento.

Sem saber mais que tive uma palavra
de iodo e alúmen entre os lábios,
nem me  poder recordar de uma noite,
de uma morada num país alheio,
da armadilha ou viga na porta,
da minha carne a andar sem a sua alma.

  

Gabriela Mistral
lagar
santiago do chile
1954 

Ao ouvido de uma jovem

 Não quis.
Não quis dizer-te nada.
 
Vi em teus olhos
duas arvorezinhas loucas.
De brisa, de riso e de ouro.
Meneavam-se.
 
Não quis.
Não quis dizer-te nada.
 
 
 
federico garcia lorca
transversões
poemas reescritos em português
trad. de zetho cunha gonçalves
contracapa
2021

Gazel do amor desesperado

 A noite não quer vir

para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
 
Mas eu irei,
inda que um sol de lacraus me coma a fronte.
 
Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.
 
O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
 
Mas eu irei
entregando aos sapos meu mordido cravo.
 
Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridade.
 
Nem a noite nem o dia querem vir
para que por ti morra
e tu morras por mim.
 
 
 
federico garcia lorca
romanceiro gitano e outros poemas
trad. de oscar mendes
editora nova fronteira
1985

esclavagista

ROSALÍA - Mundo Nuevo


Yamamoto Masao - #6004, Tomosu, n.d.,

 

''Jesus died for somebody's sins, but not mine''

 Patti Smith

terça-feira, 4 de novembro de 2025

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

 O homem que fugiu

fugiu da lei
que estrada o vestiu
não sei

Acredito que era
o gémeo
de um pássaro alerta
com a cabeça
a prémio

O homem que fugiu
é meu
se alguém o pariu
devo ter sido
eu
sua amante-mãe
mulher
que inventa o que ele vê
e o fere

O homem que fugiu
ganhou ao jogo
a mão incrustada
com que rouba
o fogo
e vos rasga o sono
em tiras
para que não sonheis
mentiras”


Luiza Neto Jorge, in Poesia, 1960-1989

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

ROSALÍA - Berghain (Official Video) feat. Björk & Yves Tumor

 

                                                                    Alentejo, década de 40

📷 Artur Pastor
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
AMLSB_ART_015834
 ''Magoar alguém é transferir
para outrem a degradação
que temos em nós.''

Simone Weil

 ''Lutar contra a angústia
nunca produz serenidade;
lutar contra a angústia só produz
novas formas de angústia!''

Simone Weill

quarta-feira, 22 de outubro de 2025


Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo sem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.

Jorge de Sena
                                                      

Edvard Munch (Norwegian, 1863-1944)
Rosa Meissner at Hotel Rohn, Warnemünde
1907


- ai que nervos, diga lá, é sobre aquele?

Discurso sobre o filho-da-puta, Alberto Pimenta, 7 nós

 "When I speak of poetry I am not thinking of it as a genre. Poetry is an awareness of the world, a particular way of relating to reality. So poetry becomes a philosophy to guide a man throughout his life."

Andrei Tarkovsky

 «Confio por inteiro nas leis do pensamento. Elas me guiam e me dão paz.»

 Lídia Jorge. Misericórdia. Publicações D. Quixote. 11ª edição, 2022, p. 17

 « Eu penso que a esperança é simplesmente imortal.»

 Lídia Jorge. Misericórdia. Publicações D. Quixote. 11ª edição, 2022, p. 17

«Vence-me, noite, se és capaz...»

 Lídia Jorge. Misericórdia. Publicações D. Quixote. 11ª edição, 2022, p. 13

Don't Go To Strangers

 As mães dobram as rendas e os lenços
Abrem gavetas, penduram pássaros nas janelas


Poetisa Maria Sarmento



Munch says to a woman friend – “What do you think of me?”

She says, “I think you are the Christ”


Peter Watkins (director) Edvard Munch (film) 1974

Self-Portrait in a Psychiatric Hospital - Edvard Munch 1909



https://artblart.com/tag/edvard-munch-self-portrait-in-the-clinic/

 

 ''Hoje e sempre, a única obrigação moral que pode ser exigida ao Homem é que procure deixar o Mundo onde nasceu melhor do que o encontrou.''

Francisco Pinto Balsemão (1937-2025)

''Não, a pátria não está acima de tudo.''

 “Uma Longa Viagem com José Saramago”, de João Céu e Silva (ed. Porto Editora, 2009)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Vaiapraia - Ulucrudador


O tímpano em estilhaço

O corpo sem espaço

O espaço do tempo

A cambalhota da palavra

A fúria da greve

Derrete essa paragem

Resta a fome felina

Feita à tua imagem

O inflacionar da inflamação

O lucro da dor em expansão



O x-acto lamina, a tesoura recorta

O tempo fulmina a memória torta

Ecos a rugir, boom, chinfrim

Eu não te consigo ouvir, nem tu a mim



O teu maior sucesso

Foi quem te foi algemar

O teu crânio amassado

Não te deixa imaginar

See upcoming rock shows

Get tickets for your favorite artists

You might also like

Tupperware Furado

Vaiapraia

Kolmi

Vaiapraia

Fogo Fera

Vaiapraia

Sei pra onde quero ir

Sei lá pra onde é que vou

Não me obrigues a dizеr

Quem é que eu sou

Não mе obrigues a dizer quem é que eu sou!



Zeros à direita furam o asfalto

É o dinheiro, é o dinheiro

A falar mais alto

É o dinheiro, é o dinheiro

A falar mais alto



Não te consigo ouvir

(não me consegues ouvir)

Não te consigo ouvir

(não me consegues ouvir)

Não te consigo ouvir

(não me consegues ouvir)

Não te consigo ouvir

(não me consegues ouvir)

Quem é que eu sou

(não me obrigues a dizer)

Quem é que eu sou

(não me obrigues a dizer)

Quem é que eu sou

(não me obrigues a dizer)

Quem é que eu sou

Quem é que eu…

Quem é que eu…



Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser, quero ser

Quero ser, quero ser

Quero ser, quero ser

Quero ser, quero ser

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro

Quero ser um porquinho mealheiro

Furo nos cornos, lá o dinheiro


Producers

Rodrigo Vaiapraia, Katie O’Neill, Filipe Sambado, canalzero, chica (PRT), April Marmara & Ana Farinha

Writer: Rodrigo Vaiapraia

Released on

May 23, 2025


Lucky Number Nine

 « O sofrimento passa, meu amor;
Mas, a lembrança de ter sofrido
Quem é que a pode arrancar?

António Botto (excerto do poema Afirmação Triste), POESIA, edição Assírio&Alvim

"A verdade não deve ser confundida com a opinião da maioria".

Jean Cocteau

quarta-feira, 15 de outubro de 2025


O que a manada mais
odeia não é apenas o
pensamento diferente —
é a coragem de quem
ousa pensar por si, de
quem ousa ser livre.
 
Não é a opinião que fere,
mas a audácia de ser
singular, algo que o rebanho
não compreende, tampouco
consegue alcançar.

Arthur Schopenhauer

Silva - Carmesim (feat. Carminho, Gabriele Leite)

 «Algo deve haver - 
ou alguém que louve
a tua timidez ganhadora,»

Robert Lowell

 «Pobre rapaz rico,
foste adulto antes do tempo
no modo como vivias a tua vida,
e aos quarenta e cinco morreste.»

Robert Lowell

''fazer destrinças''

 «Seja porque razão for, a verdade é que gostamos de ler coisas acerca de outras pessoas. E temos tendência, por natureza, a ser indiscretos. »

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 55

vida noturna

 A far l’amore comincia tu


Tu tens orgulho na tua ignorância,
eu tenho pudor nas minhas vitórias,
as pessoas são feitas de contradições
são feitas de vários corações,
os corações são amáveis
e na mesma medida inflamáveis,
por isso plantei uma tamareira
a árvore que mais tempo demora a dar frutos,
frutos para o futuro que vejo a arder, por isso,
e porque cortaram os choupos que me viram crescer
ou porque só sei escrever na fronteira da ferida
ou porque não fiz um filho
ou porque como com os olhos e canto com o corpo
ou porque te queria comer e cantar
ou ou ou... ou ou ou... e quase canto,
mas atravessa-se a vidinha
que reduz a vida a esta lamentável falta de tesão,
estamos tão cansados, tão consumidos,
tão consumidores, tão cegos
como toupeiras de nariz de estrela
ou pior, estranhos frutos, como animais de pecuária
olhos que nunca viram a luz do sol, estranhos astronautas,
patas que nunca tocaram o chão
e tento levantar-me do chão,
leio Camões, leio Drummond, leio O’Neill,
voltamos sempre ao primeiro amor,
sinto uma ferida que dói e não se sente,
sinto um contentamento descontente,
sinto uma dor que desatina sem dor,
mas não sinto amor
não se transforma o amador na cousa amada
tenho duas mãos e o todo o sentimento do mundo,
mas não sinto amor,
há homens que me acamam e que eu acamo,
mas não sinto amor.

Raquel Serejo Martins
Powered By Blogger