sexta-feira, 6 de junho de 2025

Poemacto - Ii

 Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.

Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
E sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espirito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa — como direi? — absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no meu esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
— Prefiro enlouquecemos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste
tocadas
num trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder

90


Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua pa:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecei
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder

As Palavras 6


Ficarão para sempre abertas as minhas salas negras.
Amarrado à noite, eu canto com um lírio negro sobre a boca.
Com a lepra na boca, com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta, este mineral transpira, a primavera precipita-se.
Com a lepra no coração.
Mais de repente, só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo de medo.
E uma vida mais lenta só com uma estrela às costas, uma tonelada de luz inquieta, uma estrela respirando como um carneiro vivo.
Igual a esta espécie de festa dolorosa, apenas um ramo de cabelos violentos e o seu odor a pimenta, no lado escuro como se canta que as salas vão levantar o seu voo.
Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas em dez dedos com sono, como uma rosa acima do pénis.
Ao cimo do caule de sangue, essa flor confusa.
Um equilíbrio igual, só a estrela ao cimo do êxtase.
Só alguma coisa parada no cimo de uma visão tremente.
A primavera, que eu saiba, tem o sal como cor imóvel.
Por um lado entra a noite, assim de súbito negra.
De uma ponta à outra enche-se o espaço aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias a arder.
Abertas para sempre as negras partes de mais uma estação.
Semelhante a isto as mulheres andam pelas galerias transparentes, e o palácio queima a noite onde estou cantando.
É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver — e num lado há espelhos bêbedos, no outro um cardume ilegível de sons obscuros.
Sabe-se então pelo silêncio em volta, sabe-se em volta que são lírios sonoros.
Passando as mulheres colhem estes sons irrompentes, e as mãos ficam negras junto à beleza insensata.
Elas sorriem depois com um talento terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.
Pesa tanto uma estrela quando se acorda nas salas negras abertas de par em par, e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos, e sobre a boca um lírio em brasa, branco, branco, que não nos deixa respirar.
A lepra na boca, que não nos deixa respirar.
Um ramo de lepra contra o corpo, como isto então só o movimento de águas obscuras pelos canais de um canto, como um palácio de salas negras abertas para sempre.
Este animal respira como um espelho de pé, no ar, no ar.

Herberto Helder

Photo by Solène Milcent


 

P̲i̲nk̲ ̲F̲lo̲y̲d ̲-̲ ̲U̲mma̲g̲u̲mma̲

4A

Mulheres geniais pelo excesso da seda, mães
do ouro
vagaroso.
Sopram a lua pela boca dos púcaros.
A força de labareda, as porcelanas
apuram-se, altas,
nos dedos. E elas medem girassóis pupila a pupila,
paisagens,
rasgões da água. Entre os braços arrebatam-se
cereais, fogo.
A escrita suprema de imaginar por música
as coisas: louças, comidas, roupas.
Num inebriamento de beleza composta em número.
Deitam leite nos cântaros.
E inclinam a cara, vêem no precipício
a altura voltada daquela arte da vertigem
de que são o centro. Se mungem o gado, esplendem
de pêlo e segredo, abaladas pelo bafo
do fundo: uma vaca é um jarro sumptuoso
com o rosto delas, oculto
e húmido, o rosto movido a luz.
Uma camélia soprada.
E as mãos pensando sempre.
Quem se banha nessas ribeiras fêmeas escoando-se
nas imagens fica infuso, os membros
em raio de estrela.
Está molhado pelo coração dentro.
Quando pelas suas ciências elas param na memória.
Quando se abre uma ferida. Quando a ferida
sangra.
Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

 

''Ele nada sabe e pensa que tudo sabe. Isso aponta claramente para uma carreira política.''

George Bernard Shaw
Dramaturgo irlandês


Musgo

 Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela

Vasko Popa

No começo


Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa

Vasko Popa
 poetas da Iugoslávia

quinta-feira, 5 de junho de 2025

terça-feira, 27 de maio de 2025

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Mar branco

''A imagem futura''

Precognição

 ''Ter cognição do futuro''

How Do You Sleep?

So Sgt. Pepper took you by surpriseYou better see right through that mother's eyeThose freaks was right when they said you was deadThe one mistake you made was in your head
Oh, how do you sleepOh, how do you sleep at night
You live with straights who tell you, you was kingJump when your momma tell you anythingThe only thing you done was yesterdayAnd since you're gone you're just another day
Oh, how do you sleepOh, how do you sleep at night
Oh, how do you sleepOh, how do you sleep at night
A pretty face may last a year or twoBut pretty soon they'll see what you can doThe sound you make is muzak to my earsYou must have learned something in all those years
Oh, how do you sleepOh, how do you sleep at night




Joshua Benoliel

''as ilusões do olhar''

''fotografia testemunhal''

 Alexandre Pomar , jornalista e crítico de arte

“A fotografia portuguesa é como a imagem de um negro no túnel do Rossio a cantar o Black is black”

Gérard Castello-Lopes

''Pássaros de Asas Cortadas''

 filme português realizado por Artur Ramos em 1963

Eleni Karaindrou - Ulysses' Gaze


 

«Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.»



Arte Poética III

A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.

Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.

E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.



A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.

O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.

Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.

E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.



(Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuido a Livro Sexto.)

''tragédia de contornos shakespearianos''

domingo, 25 de maio de 2025

 

“O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está origem de todos os outros.”

 Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

Lana Del Rey - Tomorrow Never Came


Deborah Turbeville

 

Transe


Transe
Num tempo neutro acordo
entre a noite e o dia
sob um céu ilegítimo condensa-se
a mudança
Nuvens totais exprimem
a presente longínqua
madrugada
as aves sobrevivem na queda
ao
tempo branco
Acordo sob um céu sob um tecto
dum quarto
É uma imagem pobre uma velha
metáfora. No exterior porém
das paredes toalhas além
dos vidros turvos de nuvens
apagadas
agride-me a imagem invisível
opaca
da madrugada externa
que
no dia se espalha
como uma norma espessa
uma neutra linguagem
O céu é como um poço como um mar
como um lago
comparações banais mas as mais
eficazes onde aves
como peixes
transitam lentamente errando
nas palavras
Procuro adormecer
o silêncio do
dia inutiliza a vida
Provavelmente nada
mudará ou talvez
tudo tenha mudado há muito
ou vá mudando
sob o lago do céu onde os
peixes descrevem
ilegítimos voos como velhas
metáforas.

Gastão Cruz

demomania

objectificação

'' o mal banal''

Raquel Meller " la Violetera " 1926


 

 “Saudades! Sim... Talvez... e porque não?...

Se o nosso sonho foi tão alto e forte.
Que bem pensara vê-lo até à morte.
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte.
Deve-nos ser sagrado como o pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar.
Mais a saudade andasse presa a mim!”

Florbela Espanca

''mordendo-lhes os calcanhares''

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 27

 45.

Estou mudo porque todas as palavras te escutam.


Vasco Gato, Contra Mim Falo, edição INCM

"Morrer pelos Passarinhos"


Marcel Mariën, Balance
 

 « Mandíbulas e dentes ainda não mudados,
presos pela boca ao anzol;»

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 23

- A Raposa-Pensamento

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 20

Maçarico-real

"Se o povo quiser ir para o inferno, é para o inferno que iremos"

Miles Davis - Freddie Freeloader



                                                   Marcel Mariën. Demi-nu lisant, 1984
 



"The worst enemy to creativity is self-doubt."

The Unabridged Journals of Sylvia Plath

“Last Letter” by Ted Hughes


What happened that night? Your final night.
Double, treble exposure
Over everything. Late afternoon, Friday,
My last sight of you alive.
Burning your letter to me, in the ashtray,
With that strange smile. Had I bungled your plan?
Had it surprised me sooner than you purposed?
Had I rushed it back to you too promptly?
One hour later—-you would have been gone
Where I could not have traced you.
I would have turned from your locked red door
That nobody would open
Still holding your letter,
A thunderbolt that could not earth itself.
That would have been electric shock treatment
For me.
Repeated over and over, all weekend,
As often as I read it, or thought of it.
That would have remade my brains, and my life.
The treatment that you planned needed some time.
I cannot imagine
How I would have got through that weekend.
I cannot imagine. Had you plotted it all?

Your note reached me too soon—-that same day,
Friday afternoon, posted in the morning.
The prevalent devils expedited it.
That was one more straw of ill-luck
Drawn against you by the Post-Office
And added to your load. I moved fast,
Through the snow-blue, February, London twilight.
Wept with relief when you opened the door.
A huddle of riddles in solution. Precocious tears
That failed to interpret to me, failed to divulge
Their real import. But what did you say
Over the smoking shards of that letter
So carefully annihilated, so calmly,
That let me release you, and leave you
To blow its ashes off your plan—-off the ashtray
Against which you would lean for me to read
The Doctor’s phone-number.
My escape
Had become such a hunted thing
Sleepless, hopeless, all its dreams exhausted,
Only wanting to be recaptured, only
Wanting to drop, out of its vacuum.
Two days of dangling nothing. Two days gratis.
Two days in no calendar, but stolen
From no world,
Beyond actuality, feeling, or name.

My love-life grabbed it. My numbed love-life
With its two mad needles,
Embroidering their rose, piercing and tugging
At their tapestry, their bloody tattoo
Somewhere behind my navel,
Treading that morass of emblazon,
Two mad needles, criss-crossing their stitches,
Selecting among my nerves
For their colours, refashioning me
Inside my own skin, each refashioning the other
With their self-caricatures,

Their obsessed in and out. Two women
Each with her needle.

That night
My dellarobbia Susan. I moved
With the circumspection
Of a flame in a fuse. My whole fury
Was an abandoned effort to blow up
The old globe where shadows bent over
My telltale track of ashes. I raced
From and from, face backwards, a film reversed,
Towards what? We went to Rugby St
Where you and I began.
Why did we go there? Of all places
Why did we go there? Perversity
In the artistry of our fate
Adjusted its refinements for you, for me
And for Susan. Solitaire
Played by the Minotaur of that maze
Even included Helen, in the ground-floor flat.
You had noted her—-a girl for a story.
You never met her. Few ever met her,
Except across the ears and raving mask
Of her Alsatian. You had not even glimpsed her.
You had only recoiled
When her demented animal crashed its weight
Against her door, as we slipped through the hallway;
And heard it choking on infinite German hatred.

That Sunday night she eased her door open
Its few permitted inches.
Susan greeted the black eyes, the unhappy
Overweight, lovely face, that peeped out
Across the little chain. The door closed.
We heard her consoling her jailor
Inside her cell, its kennel, where, days later,
She gassed her ferocious kupo, and herself.

Susan and I spent that night
In our wedding bed. I had not seen it
Since we lay there on our wedding day.
I did not take her back to my own bed.
It had occurred to me, your weekend over,
You might appear—-a surprise visitation.
Did you appear, to tap at my dark window?
So I stayed with Susan, hiding from you,
In our own wedding bed—-the same from which
Within three years she would be taken to die
In that same hospital where, within twelve hours,
I would find you dead.
Monday morning
I drove her to work, in the City,
Then parked my van North of Euston Road
And returned to where my telephone waited.

What happened that night, inside your hours,
Is as unknown as if it never happened.
What accumulation of your whole life,
Like effort unconscious, like birth
Pushing through the membrane of each slow second
Into the next, happened
Only as if it could not happen,
As if it was not happening. How often
Did the phone ring there in my empty room,
You hearing the ring in your receiver—-
At both ends the fading memory
Of a telephone ringing, in a brain
As if already dead. I count
How often you walked to the phone-booth
At the bottom of St George’s terrace.
You are there whenever I look, just turning
Out of Fitzroy Road, crossing over
Between the heaped up banks of dirty sugar.
In your long black coat,
With your plait coiled up at the back of your hair
You walk unable to move, or wake, and are
Already nobody walking
Walking by the railings under Primrose Hill
Towards the phone booth that can never be reached.
Before midnight. After midnight. Again.
Again. Again. And, near dawn, again.

At what position of the hands on my watch-face
Did your last attempt,
Already deeply past
My being able to hear it, shake the pillow
Of that empty bed? A last time
Lightly touch at my books, and my papers?
By the time I got there my phone was asleep.
The pillow innocent. My room slept,
Already filled with the snowlit morning light.
I lit my fire. I had got out my papers.
And I had started to write when the telephone
Jerked awake, in a jabbering alarm,
Remembering everything. It recovered in my hand.
Then a voice like a selected weapon
Or a measured injection,
Coolly delivered its four words
Deep into my ear: ‘Your wife is dead.’
“Todas as vidas têm os seus segredos e muitas as suas mentiras. A maioria vai connosco para a cova”

biógrafo de Ted Hughes


“Em muitos aspectos, é a mulher mais dotada, capaz e admirável que alguma vez conheci, mas é-me impossível viver casado com ela”, escreverá Ted Hughes ao irmão, Gerald, poucos meses antes do suicídio de Plath.


“Tenho a consolação de ser, sem dúvida, a única mulher a conhecer os primeiros anos de um génio charmoso. Na minha pele.”

Sylvia Plath sobre Ted Hughes 


 «Certas histórias não
param de acontecer 
em nós até ao fim da vida.»


Chico Buarque, Leite Derramado, 2009


Gerda Taro - Refugees from Malaga in Almeira, 1937



 

The Book Lovers

 Mediterrâneo
de Gastão Cruz

O poeta grego não aceita
o envelhecimento e gostaria
de morrer antes que o torne a decadência
alguém que não desejaria ser

Diz-me isto a uma luz de fim do dia
num jardim: muito perto,
de um azul
sempre recomeçado, o mar de sete,
antes por entre os túmulos
revisto quando no sol da tarde
procurava o de Paul Valéry:

ah meu amigo o mar conserva novo
o azul por um poeta olhado outrora,
e também o mar grego, que disseste
banhar os cemitérios
mais impressivamente do que este,
depois de nós continuará a ter
o mesmo azul da vida que nos há́-de perder

 

''Haverá Eleições, de Cláudia Varejão

A 25 de Abril de 1975 dão-se as primeiras eleições livres em Portugal. A população adulta exerceu, pela primeira vez e de forma democrática, o seu direito ao voto.''
vídeo aqui

quarta-feira, 21 de maio de 2025


«Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer. A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito. Mas amar e desejar não é a mesma coisa. O amor é o desejo que atingiu a sabedoria. O amor não quer possuir. O amor quer somente amar.»

Hermann Hesse

Slowdive - Summer Daze

Laura and Brady in the Shadow of our House - Abelardo Morell 1994


 

o Teatro do Povo

''Política do Espírito''

beneplácito

segunda-feira, 19 de maio de 2025

 "From a humanist perspective I have a lot of faith. I love mankind so I can’t just swallow the consequences of the path that this civilization is following. The way we’re going you get the impression we’re heading for a catastrophe. Our civilization is more and more globalized, countries are more and more interdependent. We’re sailing through the universe on a ship and we’re responsible for the existence of that ship but we’re eating away at it on all sides. We’re doing everything we can contrary to life. But we have the tools. We don’t have to return to caves or to stagnation but we have to take better advantage of our resources and make a habitable world that is less selfish. We have the know-how and the resources but we have no direction. We’re facing horrifying problems but the leading countries can’t orchestrate effective leadership and make any impact on them. Instead we dedicate ourselves to useless power struggles and fail to solve the problems humanity faces… Knowledge and possibility are infinite because the world’s energy is infinite. It’s infinite, it’s possible. Mankind can reach successively higher musical keys. But for that, humanity will have to embrace reason with an understanding of chaos. And globally, as a species, can we do that? We can, if we are able to govern ourselves."


Pepe Mujica

GRACIELA ITURBIDE


 

infestação



"Às vezes penso que a literatura para mim é apenas um álibi que uso para escapar ao processo da vida. Aquilo a que chamo os meus sacrifícios (não ser advogado, não ser professor universitário, não ser político, não ser adido cultural) são talvez fracassos simulados, impossibilidades. A minha desculpa: sou escritor. O meu relativo sucesso neste domínio desculpa a minha falta de jeito noutros. Sempre me esquivei a qualquer teste, a qualquer confronto, a qualquer responsabilidade. Excepto a de escrever. Pode dizer-se que levo a vida para o meu próprio terreno, onde ela não me pode surpreender. Protegido do mundo, das pessoas, sozinho em frente à minha máquina de escrever, sem coacção ou constrangimento, sem juízes, sem público, sem ovações ou rejeições, na arena solitária da minha página em branco, procedo à mise à mort da vida".

 Julio Ramón Ribeyro
(A tentação do fracasso)

hecatombe

Air – Premiers Symptômes (EP)

GRACIELA ITURBIDE


 

 Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.

Sophia de Mello Breyner Andresen In “Mar Novo”


"Um cesto faz-se de muitos fios."

[Provérbio umbundu]

Catarina Eufémia

 19 de maio de 1954: Catarina Eufémia é morta a tiro em Baleizão, numa manifestação de trabalhadores agrícolas por aumento do salário.

Catarina Eufémia
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
Sophia de Mello Breyner Andresen
In “Dual”



"Happiness is in the quiet, ordinary things. A table, a chair, a book with a paper-knife stuck between the pages. And the petal falling from the rose, and the light flickering as we sit silent."

Virginia Woolf

domingo, 18 de maio de 2025

 “Isto não é um país, é um sítio mal frequentado”

José Cardoso Pires
"Se as oliveiras conhecessem as mãos que as plantaram, seu azeite se transformaria em lágrimas."

 Mahmud Darwich, poeta palestino

Something On Your Mind


Deborah Turbeville

 

 ''Nem só de pão vive o homem. Se eu estivesse faminto e perdido nas ruas, não pediria só um pão — pediria meio pão e um livro.''

Federico García Lorca


 «Este país, senhores, é um poço onde se cai, um cu de onde se não sai.»


João César Monteiro, publicado no livro “Morituri te Salutant”, edição & etc, Nov. 1974.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

inanição

''Vejo a minha vida como o maior romance da história do mundo.''

Adolf Hitler para Adelheid Klein


Série documental As Crónicas de Hitler

''O evangelho político de Hitler''

  Série documental As Crónicas de Hitler

KEVIN MORBY - Harlem River

Käthe Kollwitz


Käthe Kollwitz
German artist who worked with painting, printmaking and sculpture.
 

''multidão de hitlerianos''

 Série documental As Crónicas de Hitler

 ''Hitler era o partido e o partido era Hitler.''

Ernst Hanfstaengl


Série documental As Crónicas de Hitler


 ''Quando o conheci pela primeira vez, parecia um cão vadio cansado à procura de um dono.''

Karl Mayr, capitão da Força Armada do Império


Série documental As Crónicas de Hitler

"O Dom da Premonição"

Marie-Anne-Adélaïde Lenormand


''We walked on the river bank in a cold wind, under a grey sky. We both agreed that life seen without illusion is a ghastly affair.''

Virginia Woolf
, diary entry 10 November 1917


 

Disappearing

 « A oposição é a Verdadeira amizade.» 

Blake

''O triunfo dos acéfalos''

domingo, 11 de maio de 2025

DO ANGELS NEED HAIRCUTS?

 Lou Reed

''a invenção do canto'' / '' a palavra cantada''

O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar

Miguel Torga (sobre o Alentejo)
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