terça-feira, 26 de agosto de 2025

 New York Lower East Side - Maxwell Bodenheim

Synagogue de Eldridge Street
*
Um velho judeu mastiga uma maçã,
com imersão conquistadora
todos os anseios frustrados de sua vida
incitando seus dentes determinados.
Seu rosto é duro e em forma de pêra;
seus olhos são capitulações turvas;
mas a boca é incongruente.
Suavemente, ligeiramente distendida,
como a de uma menina assobiando,
é ingenuamente assombrosa
e faz do resto dele um fundo sujo e cinza.
Esperanças que jazem no seu túmulo
de severidade submissa,
derramaram seus fantasmas perturbados sobre aquela boca,
e uma crença torturada
diminuiu a ternura sobre ela...
Arrasta-se atrás de seu carrinho de mão
e o gueto vai-se embora com ele.
*
Maxwell Bodenheim, in New York / adaptado de Maxwell Bodenheim
A mosca
Vou ter que matar-te de novo.
Já te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa fazenda na província de Lobos,
no bordel, na cozinha, em cima de um pente,
no escritório, neste travesseiro
vou ter que matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.
Meu sofrimento dobrado...
E também não estar triste,
não crescer com as fontes, não se dobrar nos salgueiros.
Larga é a luz para dois olhos, e a dor dança
nos peitos que aceitam sem fraqueza seus frios escarpins.
E não chamar-te de distante nem perdida
para não dar razão ao mar que te retém.
E elogiar-te na mais perfeita solidão
na hora em que teu nome é o primeiro lume em minha janela.
Benditos sejam os meus olhos
por terem olhado tão alto.

Linda Martini - Semi Tédio dos Prazeres

Sol

                Hoy caminé entre nubes                 y fuiste un susurro.

Me volví viento entre los árboles

y el caminar de un extraviado.

La voz del tiempo

fue un arroyo en la montaña

fueron las aves de tu atardecer

y todo lo vivido en este invierno.

Hoy caminé entre nubes

y fuiste un susurro

que recorrió mi cuerpo

como el último estremecimiento.

Todo a tu paso fue vida

y todo tu silencio

la fragilidad de un instante.

Tu generosidad fue reconocer

-en el viento, en sus cambios,

en tu forma de persistir-

el suave calor en mi piel

el latido que sigue las nubes de tu cielo.

Poema de Tomás Godoy

Consagración

               Al amanecer                me consagro

A la fragilidad

Al tiempo quebrándose en las mañanas

A la desnudez de la piedra

A la urgencia que apremia a los ratones

Al denso color de la noche aceptando su derrota

Al sol frío

Al que busca arroparse

A la incertidumbre que deja un primer beso

A lo que esconden las ciudades

Al silencio de los amantes

A las flores que nacen de noche y mueren de día

A la huella del mar en la arena

A Dios en un pan

Al hombre encarcelado

Al paso de un éxodo


A la imperiosa necesidad

de estar amaneciendo

me consagro.
Poema de Max Echeverría Burgos


María Luisa Bombal
Romancista chilena




 

Há maridos que são cabritos

''São os maridos cabritos, uma espécie que salta muros, sempre em busca de pasto verde, ignorando a pastora, que mal o apanha nos braços, o afaga, tratando-o como o bebé que é. Lava-lhe a roupa, seca, estende, prepara as refeições e de noite, ensaia algumas acrobacias desajeitadas, para que o cabrito não sonhe pular a cerca. Parece um discurso do passado, mas ainda há muitos maridos cabritos por aí e muitas pastoras prontas a acolher e a venerar estes bichos.''


https://www.publico.pt/2025/01/03/impar/cronica/ha-maridos-sao-cabritos-2117526?fbclid=IwY2xjawMZ7ItleHRuA2FlbQIxMQABHoZ9lMaPnep1PS8pQn1bisLLk_PVnIZchZlLTXI3KNFx32ZoNLjwor9yrf7z_aem_jokc9V5IqOP_aIYrAbtrQw


"O cabritinho pulou a cerca, porque tinha muita fome e sentia-se mal-amado"

Matilde Fieschi

Os Homens Esquecidos de Deus, 1940

 Albert Cossery, Escritor egípcio-francês

«Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe.»

Albert Cossery, Escritor egípcio-francês


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

domingo, 24 de agosto de 2025

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

''lágrimas da primeira infância''

 Pascal Jardin




 

"Happiness is in the quiet, ordinary things. A table, a chair, a book with a paper-knife stuck between the pages. And the petal falling from the rose, and the light flickering as we sit silent."

“Precisamos de mais cabras nos montes e de menos cabrões nos gabinetes.”

 A lucidez do cidadão anónimo.

 "Quando políticos tão diferentes se queixam do mesmo suposto inimigo, ficamos com a ideia de que são paranóicos com a mania da perseguição"

Ricardo Araújo Pereira

I'll Take Care Of You


I know you've been hurt by someone elseI can tell by the way you carry yourselfBut if you'll let me, here's what I'll doI'll take care of you
I, I loved and lost, the same as youSo you see, I know just what you've been throughSo if you'll let me, here's what I'll doI got to take care of you
You won't ever have to worryYou won't ever have to cryI'll be there beside youTo dry your weepin' eyes
So darlin', tell me that you'll be true'Cause there's no doubt in my mindI know what I want to doAnd just as sure as one and one are twoI just got to take care of you
I'll take care of youI'll take care of youI'll take care of you
Canção de Mark Lanegan ‧ 1999

'' O príncipe da liberdade''

 Vicente Alves do Ó, cineasta português

“Quero ser João de Deus”


[…] João de Deus é um sacana lúcido, que transforma a idiotia numa figura essencial de intercurso poético com o mundo. Ele acredita, e deveríamos todos acreditar, na fórmula de Pushkin: "Toda poesia tem que ter um quê de estupidez". O nome mais comum do mundo, João, somado à maior "personagem" do imaginário ocidental, Deus, só poderia resultar nesse ser mundano e vulgar que, uma vez presenteado pelo céu, assume uma nobreza que lhe parece, no fundo, inata. Mas Deus quis que João fosse rico por quê? Para que ele não sujasse o reino dos céus? Ou por reconhecer nele seu projeto mais bem acabado? Vistos em conjunto, A Comédia e As Bodas de Deus fornecem, através de uma escrita muito original, um ensaio político-erótico sobre a civilização ocidental – do cristianismo ao marxismo, do atávico ao dessacralizado, da dialética à distopia –, no que o fato de estarem entre os filmes mais engraçados da história só pesa a favor, naturalmente (levando em conta qualquer relação possível com o cinema). […]
Luiz Carlos Oliveira Jr. – “Quero ser João de Deus”
In contraponto – revista de cinema
*
Sinopse:
As Bodas de Deus" é um filme português de 1999, dirigido por João César Monteiro, que narra a história de João de Deus, um marginal que recebe uma mala cheia de dinheiro de um enviado de Deus. Com essa fortuna, ele tenta ascender socialmente, mas acaba envolvido em situações absurdas e criminais, sendo julgado e preso. O filme é uma comédia satírica e provocadora, explorando temas como a fortuna, a moralidade e a relação entre o homem e o divino.
Sinopse detalhada:
João de Deus, após perder todo o seu dinheiro no filme anterior, "Recordações da Casa Amarela", aparece como um vagabundo em um parque, onde encontra um enviado de Deus. O enviado lhe entrega uma mala cheia de dinheiro, dando início a uma série de eventos hilários e absurdos. João, com a nova fortuna, tenta entrar na alta sociedade, envolvendo-se em jogos de azar, conhecendo a alta sociedade e a princesa Elena, que foge com seu dinheiro.
A história segue com João sendo preso por posse de material de guerra, fruto de suas atividades criminosas. Durante sua prisão, ele encontra o enviado de Deus, que se apresenta como Cristo após a Ascensão e nega ter lhe dado o dinheiro. João é julgado, condenado e preso, mas encontra apoio em Joana, uma jovem que havia conhecido antes, e que o espera quando ele é libertado. O filme termina com João e Joana partindo juntos, marcando o fim da comédia.
"As Bodas de Deus" é conhecido por seu humor negro e provocador, com o qual João César Monteiro critica a hipocrisia da sociedade e a busca desenfreada por dinheiro e status.





"As cabras sobem encostas, mastigam mato seco, equilibram-se nas pedras como bailarinas precárias, ajudam-nos a tratar do planeta. Não enganam ninguém.
Os cabrões de gabinete engolem-nos em formulários, em decisões arbitrárias, em promessas nunca cumpridas, em corrupções nunca castigadas. Vivem do engano.
Já estive rodeado de cabrões engravatados. Saí sempre a perder. O mato regenera-se; a confiança não.
Uma cabra no monte faz mais pelo mundo do que dez cabrões atrás de uma secretária ou de um púlpito.
Antes o som de uma cabra a mastigar do que o de um cabrão a falar."

Pedro Chagas Freitas

Morrer de amor

 Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se por preciso

Maria Teresa Horta


O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que têm medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

Henry Van Dyke

Incendiar as certezas, não as florestas!

 


“Como um sonho acordado” (Fausto), com Adolfo Luxúria Canibal


Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir

Arrasta-me à côncava do fundo
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p'lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes

''caridadezinha''

''Ignorância é felicidade''

O mundo sempre esteve na mão dos que têm muito dinheiro.

''Um país que não lê, é um país que não pensa. Que não desenvolve pensamento crítico. Que se submete ao pensamento do outro. A direita sempre desprezou as coisas da cultura e das artes, porque a cultura e as artes são uma chatice. Fazem perguntas. Denunciam. Gritam. Apontam o dedo. Não têm medo. Agora, além da cultura, isto é um ataque à educação. Estive a ler o projecto que deseja substituir este. Ar. Só tem ar lá dentro e generalidades. Mais nada. Ou seja, queremos novas gerações agarradas aos telemóveis, a consumir tik tol e a acreditar em tudo que lhes colocarem à frente. O mundo sempre esteve na mão dos que têm muito dinheiro. O estado social que vingou a seguir à segunda guerra mundial está a ser atacado por todos os lados. Porquê? Porque os senhores com muito dinheiro e que não se cansam de ter mais dinheiro ainda, querem uma população subserviente e consumidora. Só isso. E de preferência, que não faça perguntas. Nenhumas. Nem pense.''

Vicente Alves do Ó, cineasta português


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