domingo, 4 de janeiro de 2026

Neve negra

''diálogo rubescente''




Leonard Freed (1929–2006)
St. Peter's Square, Rome, Italy, 1958


contracorrente

 ''Quando Boaventura Sousa Santos foi queimado na praça pública tomei posição pública contra a fogueira, sem conhecer qualquer versão de BSS. E discordando da sua obra, o que fiz sempre publicamente.


Já lá vou ao Manifesto. Não o defendi por ser de "esquerda". Em resumo simplista, BSS é o autor da teoria de que a revolução dos cravos não é uma revolução. Ou seja, é reforma, pressão das massas para ganhar espaço e direitos no aparelho de Estado, e que o seu ápice é a Constituição de 1976 que salda esse pacto capital-trabalho. O centro dos meus estudos foi demonstrar que a revolução é uma revolução (massas auto-organizadas nos seus organismos como comissões/conselhos contra o Estado). E que foi isso que garantiu direitos - assim que os trabalhadores se desorganizaram e se sentaram na concertarão social os direitos minguaram.

BSS acha que o Estado é disputado pelas classes sociais, pela burguesia e pelos trabalhadores, o Estado é árbitro. Eu acho que essa tese não explica a realidade. O Estado é de uma classe, a burguesa, e que as conquistas - Estado Social - que os trabalhadores impõem ao Estado, são apenas resultado de revoluções. O que me interesse no socialismo, como historiadora e como socialista, é como os trabalhadores tomam o poder sem abusarem do poder, essa é a minha pergunta de investigação. Por isso estudo democracia de base nas revoluções. A minha tese remonta à teoria marxista do Estado, a dele está próxima das teses da social democracia depois da I Grande Guerra e do PCP depois de 1930 com as teorias das frentes populares pós Dimitrov.

BSS usou-se da teoria sociológica para defender esta tese. Eu fiz vinte anos de estudos empíricos dos conselhos na revolução dos cravos. Calma, não é auto-elogio - nenhum de nós caiu do céu, são centenas de livros e autores aos ombros dos quais subimos. Mas, reitero, porque faço questão, os meus livros demonstram, os de BSS sobre este tema não demonstram, desenvolvem, com sofisticação, um argumento teórico - o da democracia dentro do Estado. São as teses de BSS que dominam a historiografia da revolução próxima do PCP (Loff) e do PS (Pimentel, Rezola). As suas teses foram centrais para formar o BE e para a Geringonça. Do BE saí em 2005, a Geringonça fui contra, apoiando sindicatos novos que BSS, e vários membros do CES, nas páginas do Público apelidou de movimentos inorgânicos de extrema direita.

Podia seguir o caminho explicando que o "sul global" é mais um conceito decalque do nacionalismo de 1914. Não existe sul global - existem classes sociais no norte e no sul, e existe imperalismo. O mundo não são dois campos.
Espero com isto ter explicado que a obra de BSS para mim não é interessante. É uma obra grande, coletiva, importante, dedicada, sofisticada. Equivocada, do meu ponto de vista.

BSS tem direito inalienável à presunção de inocência, a ser acusado, com julgamento, onde pode ser defendido. A presunção de inocência - que todas as ditaduras eliminam - não diz que beltrano "pode ser inocente ou culpado". Diz que é inocente.
Não assinei de início o Manifesto em sua defesa porque a carta que me chegou - e não foi por ele enviada - , falava da sua obra ilustre, de teses de BSS sobre sociologia etc, epistemologias do sul, e outras teses das quais discordo. A questão é que isso para mim é irrelevante. Podia ser um investigador precário, sem um artigo publicado, e teria de ter os mesmos direitos à defesa. Este Manifesto, que hoje assino publicamente, e que veio a público, é um Manifesto democrático contra a justiça pré capitalista, medieval.

E o que fazer das mulheres vítimas? Dizer que são vítimas é acabar com o princípio da presunção de inocência. É dizer que ele é culpado. É um ataque ao Estado de Direito - que é a única coisa que sobrou das revoluções - direitos políticos e civis elementares. Não, não foram os liberais que os conquistaram, em Portugal não certamente, foram as greves e as revoluções (no nosso livro Breve História de Portugal está lá, cada um deles, demonstrado, com datas).
Não houve julgamento algum para BSS. E que isso se está a tornar o padrão, na academia, com os ventos que sopram dos EUA, a Nova Gestão Pública e a sua progressão gestionária (os lambe botas, tantos de esquerda como de direita), e o desejo das ILs e Chegas deste mundo começarem a despedir funcionários públicos e acabar com a liberdade de cátedra.
Que cientistas tenham tido qualquer complacência com este processo medieval diz muito do estado da Academia. Por isso este Manifesto assinado por tantos é tão importante como esfera pública.

Digo mais - se ele um dia tivesse julgamento e fosse considerado culpado, eu seria contra o seu cancelamento. Cancelar livros, ideias, tudo isto é um caldo semi fascista, a que parte da esquerda aderiu.

Irene Pimentel passou parte da sua vida defendendo o regime Israelita e o sionismo e a sua obra sobre o Estado Novo é importante. Vamos queimar os seus livros? Pacheco Pereira foi defensor da invasão do Iraque, um crime que custou milhões de vidas e para a qual milhares de opinadores públicos como PP contribuíram. Vamos deixar de usar esse arquivo sublime - Ephemera - que ele construiu? Eu aderi ao boicote a Israel, recusei-me a dar aulas nesse país - onde seria muito bem paga e era precária - perdi a conta aos meus colegas de esquerda, e claro de centro e direita, que aceitam os generosos convites de Israel, com gosto. Vamos tirar os seus livros das Universidades? Não janto com eles, há limites, mas não posso pedir que os seus livros sejam tirados das prateleiras.

O mais importante de tudo isto é a concepção autoritária que está em quem diz defender as mulheres. A ideia de que se salvam mulheres do assédio com denúncias anónimas, penas pesadas, perseguições, leis duras. Assistimos a manter-se a violação como crime sujeito a penas leves e ao mesmo tempo ao assédio ser o crime mais penalizado do mundo. Já se perguntaram porquê? Porque as mulheres violadas são da classe trabalhadora ou são-no dentro da família, e aí a direita (e a Igreja) não entram. Já a acusação de assédio é a porta dos directores e colegas para dominarem pelo medo as Universidades. Não há uma política da UE, uma, sobre violações de mulheres (onde aí sim defendo penas muito mais pesadas) depois de turnos nocturnos a caminho da sua casa na periferia, mas há a imposição da denúncia anónima por assédio nos serviços públicos. Ninguém quer proteger as mulheres, querem que todos tenhamos medo dos bufos.

Metade dos homens que matam mulheres matam-se. É a pena máxima. Aumentar penas não protege as vitimas de violência doméstica. Eles matam-se a seguir.

Quem acha que é no caldo moralista e punitivo que se resolvem os problemas sociais, contribuindo para que as pessoas cada vez menos tenham relações de amizade ou amor ou sexo, se abracem sequer; tenham medo umas das outras no trabalho, desconfiem umas das outras. Muita moral, muita punição e o mundo será um lugar perfeito...É a proposta política da Igreja, da direita e desta parte da esquerda académica, que adora a palavra denúncia. É o Maio de 68 ao contrário.

Empregos seguros, carreiras para todos, com acesso igual, concursos realmente públicos (de portas abertas), casa para todos, cada família ter o seu espaço e não amontoados, filhos a viver com pais em adultos é um absurdo; horários de trabalho decentes, muita cultura, muita literatura, um teatro, casa de convívio em cada bairro para os jovens crescerem em comunidade. Tudo isso ia diminuir drasticamente o assédio, a violência e - o pior de tudo -, a violação. Mas para estes novos inquisidores o Estado, com uma lei, um tribunal e um polícia atrás de cada mulher, vai resolver tudo.

Não sei se sabem que toda a luta pela igualdade foi para nos livrar do pai, do padre, do patrão, do Estado e do polícia.

Que Boaventura seja lido, debatido, convidado, que discordem dele abertamente (coisa que durante anos não fizeram, ajoelhando-se às suas teorias) e que - se cometeu um crime -seja julgado. Isto - este purgatório em que o colocaram - não é justiça, não é nada. Não protege as mulheres, porque enquanto não existirem carreiras, empregos seguros, casas, as mulheres vão estar desprotegidas. E as penas só servem para as desproteger mais, dar mais poder ao Estado, mais leis e mais vigilância, mais polícia vai-se voltar contra as mulheres, mais do que contra os homens.''

Raquel Varela


«Estava noite de luar. Um luar brando de Outono que vestia as coisas de penumbra triste. Piscavam luzes na outra margem, dispersas aqui e além, mais ali reunidas, como num concílio de estrelas. Eram constelações de vidas, todas iguais vistas de longe. A luz que iluminava o senhor não brilhava mais do que a outra que alumiava o servo. Ali não havia casebres, nem palácios. Todas eram irmãs, como as estrelas da Estrada de Santiago que polvilhavam de oiro o azul-negro.»

– in “Gaibéus” (1939)

António Alves Redol

mádido

Tyler Childers - Long Violent History

"Si aquellos a quienes comenzamos a amar pudieran saber cómo éramos antes de conocerlos… podrían percibir lo que han hecho de nosotros.”

Albert Camus

📷Camus y María Casares



 para Nuno Dempster, in memoriam

O melhor que fizemos ainda foi partirmos
à pedrada os candeeiros da nossa infância antiga.
O mais, pouco valeu: o chiste que atirámos à garça
que passou, a luminosa sabrina, o peixinho
vermelho que se comprou na feira de S. Mateus,
o pedaço de rio entrevisto na Afurada, a confirmar-nos
que não podia ser outra a cidade amada,
nem maior a profunda paixão que lhe devotávamos.
E, no entanto, os sonhos por cumprir sobejavam-nos,
como se subir ao Kilimanjaro não fosse impossível
e as nossas forças ainda chegassem
para desfrutar da groselha infinita que merecíamos.
Mas enfrentamos os babuínos com coragem
e protegemos o melro que quis acompanhar-nos.

Amadeu Baptista

''não conseguimos adormecer no espanto''

''Uma sociedade incapaz de pensamento crítico é presa fácil para qualquer charlatão.''

 Carl Sagan

📷 CHANG Chao-Tang 張照堂


 

The Marías - Heavy

 “Os EUA têm muito claro que a América Latina é o pátio dos fundos deles.”

José Saramago

''demónios e senhorinhas''



''Todo o império diz, a si mesmo e ao mundo, que é diferente de todos os outros impérios e que a sua missão não é destruir e controlar, mas educar e libertar.”

Edward W. Said

 António José Forte. UMA FACA NOS DENTES.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025




 Uma miúda de Ezra Pound


A árvore entrou-me nas mãos,
A seiva subiu-me pelos braços,
A árvore cresceu no meu peito –
Para baixo,
Os ramos brotam de mim, como braços.

És árvore,
És musgo,
Violetas com o vento sobre elas.
Uma criança – tão alto – estás,
E tudo isto é loucura para o mundo.

Tradução de Tomás Sottomayor

 O PRINCÍPIO DO INVERNO


O frio. Uma palavra diz toda
A extensão dos campos pela manhã,
As suas sombras. Uma palavra cobre
Os telhados das casas antigas, escapando
Ao brilho. Fecham-se com vagar

As portas que dão para a rua, fecham-se
As mãos. Pouco a pouco, os braços
E os outros membros paralisam,
Definham de dentro para fora,
Ficam parados, atrofiam. Ao ouvido

Chega a réstia das vozes, chega
O vago murmúrio de longe. A pele fica
Limpa apenas ao contacto com o ar,
Na ausência de calor reduzem-se as criaturas
À sua pureza, assemelhando-se a pedras,

Simples presença mineral, gelada,
Fixa. E chove. As trevas chegam com a água.
O incómodo obriga à clausura, mas
O mundo é vasto. Tudo converge para a morte,
Para a putrefacção, enquanto momento

De um ciclo. E cada vida se recolhe em si mesma
Sem que pareça resistir. Não resiste mesmo,
Extinguem-se em seus sinais, uma a uma,
As manifestações de sensualidade, os movimentos,
A oscilação dos fluidos dentro dos corpos.

E fora os elementos soltam-se, libertam-se
Na sua violência e anulam a capacidade
De resistência. O que é sombra conflui
No texto, reveste a paisagem, entranha-se
Nos sons pronunciados no poema.

(in Cidade NUA, N.º 2, Dezembro de 2016)

“método Morelli”


Gemma Gorga, O ANJO DA CHUVA, tradução de Miguel Filipe Mochila, edição Do Lado Esquerdo


Al Berto (pelo próprio) do disco "Na Casa Fernando Pessoa" (1997)

Fortuna fiel

 Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
Uma assim como rosa,
a outra assim como espinho.
Não me prejudicou
o roubo que sofri.
Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
E estou rica de púrpura
e de melancolia.
Como é amada a rosa,
como é amante o espinho!
Tal num duplo contorno
frutas gémeas unidas,
tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.

Gabriela Mistral

Sou composta por urgências. Clarice Lispector

 Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector

desconfio



14 de janeiro

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.

curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.

desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.

sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar?

e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz.

escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto

Mark Lanegan - I Am The Wolf

Day of the Wacko, 2002






mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto


tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim


“A poet is, before anything else, a person who is passionately in love with language.”


W. H. Auden

''navalha de vidro''

''às vezes... quando acordava / era porque tínhamos chegado // ficava a bordo encostado às amuradas / horas a fio / espiava a cidade as colinas inclinando-se / para a noite lodosa do rio / e o balouçar do barco enchia-me de melancolia // a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados / cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia / o ruído dos becos a luz fosca dum bar / se descesse a terra encontrar-te-ia... tinha a certeza / para o voo frenético do sexo / e num suspiro talvez alagássemos os umbrais da noite / mas ficava preso ao navio... hipnotizado / com o coração em desordem / os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira / os pregos ferrugentos as cordas // as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios / penumbras donde se escapavam ditos obscenos / gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim / a vontade sempre urgente de partir''

Al Berto



“(…)

habito neste país de água por engano/

são-me necessárias imagens radiografias de ossos/

rostos desfocados/

mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos/

repara/

nada mais possuo/

a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã/

repara/

como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar”


Al Berto, “Escrevo-te a sentir tudo isto” in Vigílias. Assírio & Alvim, 2004

luzeiro

Mon Laferte - Femme Fatale

domingo, 21 de dezembro de 2025

It's hibernation season

''A raiva significa: não tenho poder, mas estou cheia de opiniões.''

 Fran Lebowitz


"Pretend It's a City" (Finja que é uma Cidade), uma série documental da Netflix com Martin Scorsese e a icónica escritora Fran Lebowitz

domingo, 23 de novembro de 2025

 Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
 
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
 
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder. “Se houvesse degraus na terra” in “A Faca Não Corta o Fogo” (2008)

domingo, 16 de novembro de 2025

PJ Harvey - EPK: Stories From The City, Stories From Sea


Tereza Zelenková

 

[A beleza da arte]

incognoscível

Teoremas da Incompletude

 Gödel

 Alberto Pimenta

poesia quase incompleta
fenda
1990



Sharon Van Etten - Flirted With You All My Life

Despesismo



8 de Janeiro de 1953: Sempre que me levanto para trabalhar, tenho de me reconstituir, lentamente, imagem a imagem, passo a passo, olhar a olhar … Sou o puzzle de mim próprio. E vivo ou morro (viver é morrer pouco a pouco …) com a impressão de que vou perdendo, hora a hora, pedaços desse puzzle … Um dia já nem sei como era o desenho.

Excerto de “Diário Íntimo”, inédito de António Ferro. [FAQ/04/0966]

sábado, 15 de novembro de 2025



“...quem me dera que a chuva viesse e nos diluísse um ao outro,
e pela noite corrêssemos como um regato
em direcção ao mar.”

Al Berto, O Medo

Cat Power - Let Sadness Not Be Attached To Your Name


Markéta-Luskačová. Czech-Republic
 

Lugar último

 Escrevo sobre um tema alucinante e antigo.

Esquecimento
que me lembrasse agora para sempre
como
uma roseira. Como
que escrevo assim com um grito maravilhoso
dentro da carne podre, terrivel-
mente.
Nas pancadas da boca.
— Sei cantar devagar, de pé, a enlouquecer muito.
Respirando, sangrando tanto.
Sei cantar com estrelas iradas.
Há uma elevada mulher com flores
na boca e no ânus.
Contra mim, contra minha divagação.
Penso: a flecha ama a onça.
A morte ama o que morre.
Pensei ainda pela pancada dentro: a mulher
ama o homem.
E quando apodrecias debaixo de minha luz
espantada, também pensei:
eu amo-a. Porque mexeste nos meus
nomes desde o nascimento.
Contei-te pelas pétalas coloridas,
e agora
o meu amor é puro puro louco louco.
E o que dorme dorme
do que é forte.
 
Uma mulher passou quando eu dormia ou acordava.
Era uma luz molhada.
Estava ao cimo como lágrimas, estava
com folhas à tona da idade.
Passou uma delicadeza, uma mulher
que ficou.
Existiu um campo transviado.
Uma alagada adivinhação. Por cima
abruptamente
uma — pancada na noite dos órgãos.
 
A noite é não ter amor senão
em luzes.
Com uma pedra sobre a boca.
A pedra sente a boca, a solidão sente
o homem. Digo que um homem beija
interiormente a boca.
Mas era uma mulher que morria,
uma mulher que nascia agora altamente.
Um lúcido campo morto.
 
Passou, transferiu-se, reviveu
sobre a minha cabeça. Atra-
ves-
sava-a
uma flecha. Era
uma cabra silvestre uma cabra azul
uma cabra colorida
pela ira e a doçura e pela altura
saltada de uma cabra entrevista nos grandes céus
loucos.
Era caçada pelo caçador do amor.
Era com os cascos e os malmequeres. Com a delicadíssima
boca humana.
Os veios de ouro.
Era como as belas mamas brancas.
Quente como as urtigas.
Era deitada cor de violeta.
Uma mulher retumbante com todo o silêncio.
Dormia contra mim.
Ela vigiava, corria no ar.
Quebrava no ar. Era a mulher tão pura.
 
— Anos e anos de viagem sideral com os pés
iracundamente
azuis. Sou eu,
como um retrato de cabeça para baixo.
Conheci-me cantador em estado
de amante. Tive
o desviado ofício de canteiro.
Fiz uma catedral. Morri
acocorado. Eu era um amante
com ofício de poeta cego. Um dia
transformei-me na mulher que amava.
 
Em tantos anos não ignoro como os elefantes
florescem. Neste lado de agora
vejo como os cravos batem no ar que bate
na roupa que bate nas pedras.
E penso: houve uma quinta, quarta, uma
terça, uma segunda-feira, uma sexta-
-feira.
Bocados exaltados por cima.
Porta extática debaixo dos raios.
Sábado era um dia de ardente vileza.
Um domingo de amor ou de exemplo.
Eu era um amante que era uma semana
de lado:
               ou era a chuva
amada por uma misteriosa velocidade,
ou o sol que a lentidão
apaixona por dentro.
 
Eu era uma mesa com tantos anos
sentados para comer-me em estado
de pêra inclinada.
Eu fui um amante que comeu uma torre
no meio da praça. Um amante
antropófago.
Eu fui parado e unido.
Quantos anos iracundos. Cantadores.
E se a roupa molhada bate
sobre a minha cabeça, e nela se embebe
a luz penetrante — é preciso transformar-me.
Fui amante como um cão. Fui
de di-
vagação em divaga-
ção a lua lua. Eu ladrava de cima.
Eu era a baixa lua lua onde os pântanos
caíam em êxtase. Perdi
todas as mãos, e na derradeira mão
transformei-me na morte.
Batem os levíssimos nomes como pedras
no ar, mais verdes, como
crisântemos abrindo-se e depois
fechando-se. Crisântemos — digo —
virtuais. Com tantos tantos anos delicados
iracundos de todas as cores.
 
— Celebro agora os dias da sombra de onde
sagrada a loucura se lev-
antava. Quando os cantores eram tomados
pela embriaguez
soturna, e falavam
alto com as ondas à volta. E eu lembro
a entrada
desses dias retumbantes, quando alguém
entoava em sonhos as fontes
da ilusão. E a idade avançava por dentro
da aguda alegria, por dentro e a gente
gritava que era alto tão tão alto — o amor.
 
Celebro a tecelagem, as mãos som-
bria-
mente
embebidas no trabalho. E por cima
de tudo as pedras
rosas da cabeça, os cestos, as liras, o pão.
E em baixo o sangue bate acen-
den-
do e apagan-
do. E eu agora sei tudo, e esqueço
muito devagar. Também com força uma mulher
aperta
os pés sobre a minha boca. E eu pareço
pensar no ar. Pareço
dormir entre gotas frias. Ou então
também pareço vir verga-
do e louco debaixo do estuar celeste.
Nas noites onde cerrados os girassóis
esperavam a ressur-
reição. Ou nos dias levantados
sobre as melancolias mais fortes. Quando
a mulher era levada pela interior
fantasia do seu próprio encerramento.
 
Noites oh noites tantas e
tantas noites oh tantas noites seguidas
intactas, despedaçadas, regeneradas como noites
para dentro e para fora,
debaixo da chuva. Enlouquecendo.
E cantando o corpo, as voltas, os terrenos, os fetos
do corpo, e as achas aproximadas e brilhantes
do corpo humano.
 
E talvez seja este o último exemplo
de amor e a i-
memorial noite lancinante, solidão.
E eu me transmude na zona de uma idade
antiga, e Deus
fale de em mim no puro alto da carne.
E uma onda e outra onda e outra e outra
e outra
onda e onda
batem em sua belíssima deserta altíssima
voz.
 
E não sabemos escutar o barulho
Frio, nem vemos os roseirais dominados pelo silêncio,
oh nem
deliramos nos enormes inóspitos campos
de Deus.
 
 
 
Herberto Helder
poesia toda
lugar último
assírio & alvim
1996

 

The Marías - Superclean, Vol. II (full album)

Yamamoto Masao - #1140, Nakazora, n.d.
 

Teoria Sentada

 I

 
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
 
Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
 
Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim — a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
 
Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
 
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
os cravos forte
da sua solidão. Como um campo desbaratado
e branco.
 
 
 
Herberto Helder
poesia toda
teoria sentada
assírio & alvim
1996

Teoria sentada

 III

 
A minha idade é assim – verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
 
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
com um espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
É uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
 
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor de salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
 
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade se quebram
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
 
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
 
 
 
Herberto Helder
poesia toda
teoria sentada
assírio & alvim
1996





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