NÓS OS DOIS AQUI À CHUVA
Novembro é um mês difícil: foi o mês em que morreu a tua mãe e perdemos o cão. A tua mãe a gente esperava mais ou menos, com a idade dela e os diabetes. O médico aconselhou
-- Tomem cuidado com o frio
Aumentamos-lhe os cobertores da cama, arranjaste um xale grosso, compramos um aquecedor eléctrico que empurramos para o lado da poltrona
-- Agora veja lá
reforçamos as canjas, 83 anos são 83 anos, a tua mãe via mal, tropeçou no aquecedor, partiu o osso da perna, na emergência foram avisando logo
-- ISSO DO OSSO DA PERNA VAI SER UM PROBLEMA .
Ainda voltou para casa, cobertores, xailes, e resta-nos a consolação de ter falecido quentinha. Pode parecer estranho mas sem ela a sala aumentou.
Na semana seguinte, o cão.
Não estava velho nem diabético . Eu levava-o a fazer xixi às segundas, quartas e sextas-feiras, tu ocupavas-te da bexiga do animalzinho às terças, quintas e sábados, aos domingos íamos juntos, de braço dado, para uma olhadela às vitrines do bairro, tu com a coleira eu a assobiar-lhe
-- Benfica
Distraimo-nos num estabelecimento de lâmpadas a tentar ver o preço de um lustre
-- Não é o da direita, é o da esquerda, Henrique, numa etiqueta que baloiçava no meio dos pingentes, esquecemos o Benfica por um segundo, a farejar os pneus de um carro parado
Adorava farejar pneus
e a paixão pelos pneus foi a perdição dele: apesar das instruções que lhe dávamos sempre antes de descer as escadas
-- cuidadinho Benfica
quis farejar as rodas de um automóvel por acaso em movimento, ouvimos um estrondozito mole e acabou -se. A tua mãe e o cão, defuntos, possuiam como que um ar de família, chamei-te a atenção ao debroçarmo-nos para o bicho na rua
-- Não dá ares da tua mãe, Irene concordava comigo a assoares desgostos, o dono do automóvel para a gente
-- Eu não tive culpa, eu não tive culpa.
Tu a apontares-lhe o cão
-- Dá ares da minha mãe, sabia?
O do automóvel de boca aberta, e a camioneta do lixo levou-o nessa madrugada.
A sala aumentou ainda mais, e como não temos mais ninguém para passear no bairro, deixamos de olhar as vitrines.
Portanto estamos sozinhos. Há a fotografia da tua mãe na cômoda e a coleira do cão na gaveta, de vez em quando observamos a fotografia ou abrimos a gaveta para tocar na coleira e todavia estamos sozinhos. Ficamos sentados nos lugares do costume , fazes crochê na cadeira de baloiço, finjo que leio o jornal no sofá, um silêncio muito grande entre nós e, com um bocado de sorte, a chuva lá fora.
Ao ouvirmos cair a chuva sobes os olhos do crochê
--Dás pela chuva, Henrique?
subo os olhos do jornal a acenar hum-hum que sim, e ficamos a contemplar a janela onde as gotinhas escorregam, aclaradas de viés pelas lâmpadas do passeio. Pelo menos falamos. Pelo menos disseste
-- dás pela chuva, Henrique?
Pelos menos acenei hum-hum que sim do jornal, pelo menos, por um momento, estivemos acompanhados. Somos pessoas discretas, incapazes de exageros, de conversas, de emoções inúteis. Julgo que foi isso que nos uniu, a timidez e ausência de lágrimas. Ainda bem. Acho que ainda bem para nós. Casamos há 37 anos e nunca discutimos. Para quê? E depois existem momentos assim, a seguir ao jantar, em que principia a chover e nós aqui dentro, em paz, quase felizes. Escrevo quase felizes porque para escrever felizes seria preciso que a chuva fosse tão forte que arrancasse o prédio do lugar e o arrastasse consigo na direcção do Tejo o que , é evidente, não acontecerá nunca.
Talvez seja melhor: o verão, graças a Deus passa num ai, e daqui a nada Novembro de regresso. Perderemos de novo a tua mãe, de novo perderemos o cão. Não tem importância. Como tu me explicaste umas coisas valem por outras e temos o consolo da chuva. Perguntar-me-ás
-- dás pela chuva, Henrique?
Acenaria que sim, e durante um momento, palavra, podia escrever em nome de ambos, eliminando o quase, que nos sentíamos felizes. Sim. HUM- HUM.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Segundo Livro de Crónicas


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