Photographer CHANG Chao-Tang
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Uma miúda de Ezra Pound
A árvore entrou-me nas mãos,
A seiva subiu-me pelos braços,
A árvore cresceu no meu peito –
Para baixo,
Os ramos brotam de mim, como braços.
És árvore,
És musgo,
Violetas com o vento sobre elas.
Uma criança – tão alto – estás,
E tudo isto é loucura para o mundo.
Tradução de Tomás Sottomayor
O PRINCÍPIO DO INVERNO
O frio. Uma palavra diz toda
A extensão dos campos pela manhã,
As suas sombras. Uma palavra cobre
Os telhados das casas antigas, escapando
Ao brilho. Fecham-se com vagar
As portas que dão para a rua, fecham-se
As mãos. Pouco a pouco, os braços
E os outros membros paralisam,
Definham de dentro para fora,
Ficam parados, atrofiam. Ao ouvido
Chega a réstia das vozes, chega
O vago murmúrio de longe. A pele fica
Limpa apenas ao contacto com o ar,
Na ausência de calor reduzem-se as criaturas
À sua pureza, assemelhando-se a pedras,
Simples presença mineral, gelada,
Fixa. E chove. As trevas chegam com a água.
O incómodo obriga à clausura, mas
O mundo é vasto. Tudo converge para a morte,
Para a putrefacção, enquanto momento
De um ciclo. E cada vida se recolhe em si mesma
Sem que pareça resistir. Não resiste mesmo,
Extinguem-se em seus sinais, uma a uma,
As manifestações de sensualidade, os movimentos,
A oscilação dos fluidos dentro dos corpos.
E fora os elementos soltam-se, libertam-se
Na sua violência e anulam a capacidade
De resistência. O que é sombra conflui
No texto, reveste a paisagem, entranha-se
Nos sons pronunciados no poema.
(in Cidade NUA, N.º 2, Dezembro de 2016)
Fortuna fiel
Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
Uma assim como rosa,
a outra assim como espinho.
Não me prejudicou
o roubo que sofri.
Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
E estou rica de púrpura
e de melancolia.
Como é amada a rosa,
como é amante o espinho!
Tal num duplo contorno
frutas gémeas unidas,
tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
e a fortuna perdida.
Uma assim como rosa,
a outra assim como espinho.
Não me prejudicou
o roubo que sofri.
Tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
E estou rica de púrpura
e de melancolia.
Como é amada a rosa,
como é amante o espinho!
Tal num duplo contorno
frutas gémeas unidas,
tenho a fortuna fiel
e a fortuna perdida.
Gabriela Mistral
Sou composta por urgências. Clarice Lispector
Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.
desconfio
14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me.
desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar?
e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz.
escrevo com um único fim: salvar o dia.
Al Berto
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto
tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim
''às vezes... quando acordava / era porque tínhamos chegado // ficava a bordo encostado às amuradas / horas a fio / espiava a cidade as colinas inclinando-se / para a noite lodosa do rio / e o balouçar do barco enchia-me de melancolia // a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados / cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia / o ruído dos becos a luz fosca dum bar / se descesse a terra encontrar-te-ia... tinha a certeza / para o voo frenético do sexo / e num suspiro talvez alagássemos os umbrais da noite / mas ficava preso ao navio... hipnotizado / com o coração em desordem / os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira / os pregos ferrugentos as cordas // as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios / penumbras donde se escapavam ditos obscenos / gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim / a vontade sempre urgente de partir''
Al Berto
“(…)
são-me necessárias imagens radiografias de ossos/
rostos desfocados/
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos/
repara/
nada mais possuo/
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã/
repara/
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar”
Al Berto, “Escrevo-te a sentir tudo isto” in Vigílias. Assírio & Alvim, 2004
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