domingo, 15 de julho de 2018

«É incontestável que a experiência exerce uma influência enorme sobre a ficção. O que há de melhor nos romances de Conrad, por exemplo, seria anulado caso lhe tivesse sido impossível andar na Marinha. Retiremos tudo quanto Tolstoi sabia acerca da guerra como soldado que foi, tudo o que conhecia da vida e da sociedade enquanto jovem rico cuja educação admitia todo o tipo de experiências, e War and Peace ficará incrivelmente empobrecido.
   Todavia Pride and Prejudice, Wuthering Heights, Villette e Middlemarch foram escritos por mulheres às quais era energicamente recusada toda a experiência para lá das quatro paredes de uma sala de estar da classe média.»


Artigo: As Mulheres e a Ficção
The Forum, March 1929



Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 108

«Charlotte Bronte  posava a pena e escolhia os olhos das batatas. E, vivendo na sala de estar rodeada de pessoas, uma mulher habituava-se a exercitar o espírito na observação e na análise de carácter. Aprendia a ser romancista, não poetisa. »


Artigo: As Mulheres e a Ficção
The Forum, March 1929



Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 108

Susan Meiselas 44 Irving St. Cambridge, MA. USA. 1971


«A mulher extraordinária depende da mulher comum.»


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 106

Inge Morath Self-portrait Jerusalem, Israel. 1958.


CAP. IX


''Bom, quanto ao que o mundo pensa desta ejaculação - não dou um vintém.''

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 99
«Pode lamber sofregamente com a sua longa língua glutinosa os mais ínfimos fragmentos dos factos e amontoá-los nos labirintos mais subtis, pode escutar um silêncio às portas por detrás das quais apenas se ouve um murmúrio, um sussurro. »


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 97
« No espírito moderno a beleza não é acompanhada pela sua sombra mas pelo seu contrário. O poeta moderno fala do rouxinol que solta ''os seus trinados para orelhas sujas''. Lado a lado da nossa beleza moderna caminha um espírito sardónico que desdenha da beleza por ser bela; que vira o espelho e nos mostra que a outra face dela está desfigurada, deformada. É como se o espírito moderno, ao pretender sempre verificar as suas emoções, tivesse perdido a capacidade de aceitar qualquer coisa simplesmente por aquilo que é. »


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 93

Katatsumori (Naomi Kawase, 1994)


«A beleza é em parte fealdade; a diversão é em parte aversão; o prazer em parte dor. Emoções que penetravam íntegras o espírito, assomam agora estilhaçadas.»


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 92/3
«Também um escritor tem, do mesmo modo, uma atitude perante a vida, ainda que seja uma vida diferente. Também os escritores podem encontrar-se numa posição desagradável, confusos, frustrados, incapazes de alcançar aquilo que pretendem como escritores. Isto verifica-se por exemplo, nos romances de George Gissing. Ou então podem retirar-se para os subúrbios e desperdiçar todo o seu interesse em cãezinhos de estimação e duquesas - em graças, sentimentalismos e snobismos - e é o caso de alguns dos nossos romancistas de maior êxito.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 90
«Há uma coisa vaga e misteriosa a que chamamos atitude perante a vida. Todos nós conhecemos pessoas - deixemos por um momento a literatura e voltemos-nos para a vida - que estão em conflito com a existência; pessoas infelizes que nunca conseguem aquilo que pretendem, que estão confusas, que se lamentam, que se encontram numa posição desagradável de onde olham tudo de soslaio. Outros, ainda que aparentem um perfeito contentamento, parecem ter perdido todo o contacto com a realidade. Desperdiçam todo o seu afecto com cãezinhos e porcelana antiga. Apenas lhes interessam as vicissitudes da sua própria saúde e os altos e baixos das vaidades sociais. Contudo, há ainda outros que nos impressionam, e seria difícil precisar porquê, como pessoas a quem a natureza ou as circunstâncias colocaram numa posição na qual podem usar inteiramente todas as suas faculdades em coisas de valor. Não são fatalmente pessoas felizes ou bem sucedidas, mas há na sua presença um sabor, naquilo que fazem um interesse. Parecem totalmente vivos.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 89/90

A QUIETUDE DA ÁGUA


A QUIETUDE DA ÁGUA, um filme de Naomi Kawase from Leopardo Filmes on Vimeo.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Herbert List Self-portrait in a mirror. Rome, Italy. 1955.


« a vida é infinitamente bela mas repulsiva; o nosso próximo é um ser adorável mas repugnante; a ciência e a religião entre si destruíram a fé.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 72

transitoriedade

«(...) essa crítica literária adocicada e insípida, esses poemas que celebram de forma melodiosa a inocência das rosas e dos carneiros, e todos passam plausivelmente por literatura nos nossos dias.»



Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 84
«Ao ir para a cama à noite, perturbou-vos a complexidade dos vossos sentimentos. Num único dia milhares de ideias atravessaram o vosso espírito; milhares de emoções se cruzaram, colidiram, e desapareceram em assombrosa desordem.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 83

«Em determinadas estações é mais importante ter umas botas do que um relógio.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 72

planfetários

''Pode informar-me se um carvalho morre quando as folhas foram comidas por lagartas durante dois anos seguidos?''

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 68
«O estudo do carácter humano, torna-se uma procura absorvente, comunicá-lo torna-se uma obsessão.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 66

segunda-feira, 25 de junho de 2018

''alvoraçando-lhe o coração''


MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.. p. 42

''intrigas caritativas!''


MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.. p. 40

Daguerreotype (Agnès Varda)


''(...), para que as dúvidas do meu espírito doente se esclareçam''

MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.. p. 38
«ARNOLFO: É um pouco atrasado sob certos assuntos. É curioso ver como a paixão cega as pessoas.»

MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.. p. 28
«(...); sem que vos ofenda a comparação, conheci um aldeão, conhecido por Pedro Pateta, que, não possuindo mais do que um pedaço de terra, mandou fazer-lhe em volta um fosso para poder adoptar o pomposo nome de Sr. da Ilha.»

MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.. p. 27

''desbaptizar''


«Uma mulher inteligente pode faltar aos seus deveres, mas, primeiro, é preciso que o queira, conquanto que a estúpida, de ordinário, sem o querer e sem pensar que o faz.»

MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América., p. 25/6
«CRISALDO: Mas, antes de mais, como é que quer que uma estúpida saiba o que é ser honesta?»

MolièreEscola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América., p. 25
«ARNOLFO: Quem casa com uma ingénua é porque não é ingénuo de todo. Como bom cristão, acredito que a sua metade é recatada. Mas uma mulher esperta é mau presságio. Eu sei quanto tem custado a muitos terem casado com mulheres cheias de talento. Não seria eu que casaria com uma intelectual que só falasse de reuniões mundanas e de alcovas, que em prosa ou em verso soubesse escrever doces frases, que em casa recebesse marqueses e literatos, enquanto eu, com o rótulo de marido da senhora, não passaria de um santo ignorado, sem devotos! Não e não, não quero esposa de grandes talentos, pois mulher que sabe compor sabe mais do que é necessário. Para mim, prefiro mulher de poucas luzes, que nem sequer saiba o que é uma rima e no jogo do «corbillon» nunca acerte. Numa palavra, quero-a bem ignorante e basta-me que saiba rezar, amar-me, coser e fiar.»

Molière. Escola de Mulheres. Tradução de Maria Valentina Trigo de Sousa. Livros de bolso Europa América.

domingo, 24 de junho de 2018

"I am present, but I want to avoid the focus on myself"


Susan Meiselas

sobre a cidade de Lisboa

“NÃO: Nada de proas homéricas singrando rio acima, batidas de ignotos mares, a fundar a capital do futuro Império-que-foi: mas um homem hirsuto e furtivo, talvez em busca da liberdade, que um dia assomou aqui (...)”, e mais adiante, a propósito dos temas escolhidos, escreve que: “ainda há beirais floridos, varandas com nespreiras, gaiolas de passarinhos, papagaios, voos de pombas; e mulheres de luto, pimenteiras, namorados esquecidos, velhos dormindo ao sol nos parques e jardins (...)”

José Rodrigues Miguéis

noção de "imagem mental"

cinema de Hitchcock 

sábado, 23 de junho de 2018

Katsiaryna Tsynkel, Polska. Wyróżnienie


''(...) o supremacismo é a verdadeira divisão nos dias de hoje. E o nacionalismo é uma forma de supremacismo.''


De momento, exceto Portugal e Espanha, o racismo é o único ponto de entendimento entre os europeus. Nem mais nem menos: racismo. E não tem a ver com o medo do outro, da diferença. Tem a ver com a incapacidade de lidar com o passado colonial. A ideia que prevalece na Europa é que se ganha quando se é mais racista do que o outro. A Europa está fraturada e o discurso mantém-se: o Norte contra o Sul, [o grupo de] Visegrado contra Paris e Berlim… Enfim, apenas confluem num aspeto: rejeitar a imigração.''

Entre finais da década de 1970 e 2013, a taxa de suicídio aumentou 60% em todo o mundo, segundo dados da OMS. Como podemos explicar este aumento brutal?! O que aconteceu há 40 anos atrás? Como referi antes, Margaret Thatcher declarou que a sociedade não existe; paralelamente, o neoliberalismo eliminou a empatia da esfera social. Depois, a tecnologia digital começou a destruir a possibilidade do real, da relação física entre humanos; a emergência de Tony Blair é a prova de que a Esquerda morreu – refiro Blair por ser mais fácil de identificar, mas juntamente com ele estão muitos outros líderes. A Esquerda nunca foi capaz de equacionar alternativas como o RBI e outras, e embarcou no discurso neoliberal: pleno emprego, oito horas por dia, cinco dias por semana durante uma vida inteira. Isto é cada vez menos viável. O pleno emprego é algo impossível, o que temos é mais precariedade para todos, cortes nos salários para todos, mais trabalho para todos, em suma, uma nova escravatura. A isto somam-se dois aspetos importantes. Primeiro, a obrigação passou a ser parte integrante da nossa formação psicológica e a competição tornou-se no princípio moral universal. Segundo, passámos a julgar-nos em função do critério da produtividade. Existe apenas um modelo, um padrão, que é o da competição e sentimo-nos culpados de todos os nossos “fracassos”, seja ele o desemprego ou a pobreza. Há quem lhe chame auto-exploração.''

''psicopatologia da comunicação''

Saint-Exupéry in Toulouse, France, 1933


imersividade

sobrevivência social


Esse tem sido o discurso dos líderes políticos nos últimos 40 anos, desde que Margaret Thatcher declarou que “a sociedade não existe”. Existem apenas indivíduos, empresas e países competindo e lutando pelo lucro. É este o objetivo do capitalismo financeiro. E com esta declaração foi proclamado o fim da sociedade e o início de uma guerra infinita: a competição é a dimensão económica da guerra. Quando a competição é a única relação que existe entre as pessoas, a guerra passa a ser o ‘ponto de chegada’, o culminar do processo. Penso que, em breve, acabaremos por assistir a algo que está para além da nossa imaginação…''

“Tecnologia comunicativa”, que preconiza a expansão da internet como fenómeno social e cultural decisivo. ''

''(...) o papel dos media e da tecnologia de informação no capitalismo pós-industrial, a precariedade existencial e a necessidade de repensarmos “o nosso futuro económico”.''

“A/Traverso” - Revista

“O pensamento crítico morreu”

filósofo italiano Franco Berardi

''O formigueiro futuro apavora-me e odeio as suas virtudes de robôs. Eu nasci para ser jardineiro.''

''Meu caro Dalloz, como lamento estas quatro linhas. Teria adorado saber o que pensava dos tempos presentes. Eu desespero. Vivi avarias e desmaios por falta de oxigénio, fui perseguido por caças e tive incêndios a bordo. Já tive a minha dose. Se me abatessem, não me arrependeria de nada. O formigueiro futuro apavora-me e odeio as suas virtudes de robôs. Eu nasci para ser jardineiro. Um abraço Saint-Ex.''


última carta que Saint-Exupéry escreveu ao seu amigo pintor Pierre Dalloz

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Jane Birkin in Jane B par Agnès V (1988) directed by Agnès Varda


I Thought About Killing You

I know, I know, I know, I know, know
I, I know it, I know it (I know, I know, I know, I know, know)
The most beautiful thoughts are always besides the darkest
Today I seriously thought about killing you
I contemplated, premeditated murder
And I think about killing myself 
And I love myself way more than I love you, so
Today I thought about killing you, premeditated murder
You'd only care enough to kill somebody you love
The most beautiful thoughts are always beside the darkest
(Mhm—mhm—mhm—mhm—mhmm)
Just say it out loud to see how it feels
People say, "Don't say this, don't say that"
Just say out loud, just to see how it feels
Weigh all the options, nothing's off the table
Today I thought about killing you, premeditated murder
I think about killing myself, and I, I love myself way more than I love you
The most beautiful thoughts are always beside the darkest
(Mhm—mhm—mhm—mhm—mhm—mhm—mhm—mhm—mhmm)
I think this is the part where I'm supposed to say something good 
To compensate it so it doesn't come off bad
But sometimes I think really bad things
Really, really, really bad things
And I love myself way more than I love you
See, if I was trying to relate it to more people
I'd probably say I'm struggling with loving myself 
Because that seems like a common theme
But that's not the case here
I love myself way more than I love you
And I think about killing myself
So, best believe, I thought about killing you today
Premeditated murder
I called up my loved ones, I called up my cousins
I called up the Muslims, said I'm 'bout to go dumb
Get so bright it's no sun, get so loud I hear none
Screamed so loud got no lungs, hurt so bad, I go numb
Time to bring in the drums, that prrt-pum-pum-pum
Set the Newtone on 'em, set the nuke off on 'em
I need coconut rum, I taste coke on her tongue
I don't joke with no one, they'll say, "He died so young"
I done had a bad case of too many bad days
Got too many bad traits
Used the floor for ashtrays
I don't do shit halfway, I'ma clear the cache
I'ma make my name last, put that on my last name
It's a different type of rules that we obey
Ye, Ye, Ye season, nigga, we obey
We was all born to die, nigga DOA
Niggas say they hero, mm, I don't see no cape
Mm, I don't see no, mm, yeah, I don't see no, mm, mm
If I wasn't signed to so hard, wouldn't be no shade
Buckwheat ass nigga, it's 'gon be otay
Young nigga shit, nigga, we don't age
I thought I was past my Deebo ways
Even when I went broke, I ain't break
How you gon' hate? Nigga, we go way back
To when I had the braids and you had the wave cap
Drop a pimp of the fade and I'm on my way ASAP
Don't get socked in the mouth, you know homie don't play that
Pay the fire marshal bill 'cause this shit done got way packed
They wanna see me go ape (ape, ape)
All you gotta do is speak on Ye
All you gotta do is speak on Ye
Don't get your tooth chipped like Frito-Lay
Compositores: Kanye West / Francis Farewell Starlite / Mike Dean / Benny Blanco

domingo, 17 de junho de 2018

«O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a. Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive. O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse. O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática. O Ruy Cinatti, um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que entretanto desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…) [“Espécie de Amor”, 2014]»

Pedro Paixão

Rosa Vermelha Em Quarto Escuro

Pedro Paixão
''Só escreve de verdade quem tem mãos verdadeiras. ''

Pedro Paixão, ao Observador


''Uma pessoa pode salvar-te. Uma multidão esmaga-te, deixa-te morrer.''

Pedro Paixão, entrevista ao Observador

“escritor coqueluche”

urbanidade e cosmopolitismo

pilhéria

"Viver todos os dias cansa" (1995)

Pedro Paixão

quarta-feira, 13 de junho de 2018

OS AMANTES CRUCIFICADOS, de Kenji Mizoguchi



«Leiam o Agamemnon e vejam se, com o tempo, as vossas simpatias não vão quase inteiramente para Clitemenestra. Ou então considerem a vida conjugal dos Carlyles e lamentem o desperdício, a futilidade, para ele como para ela, da terrível tradição doméstica que julgava conveniente gastar o tempo de uma mulher genial a dar caça às baratas e a arear panelas, em vez de o aproveitar a escrever livros.»


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 65

''bagatelas artificiosas''


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 44

''mediocridade irreligiosa''


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 44

«O espírito recebe uma miríade de impressões - triviais, fantásticas, efémeras, ou gravadas com a veemência do aço.»

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 41

Virginia e Vanessa Stephen. St Ives, c.1893-1894


''Quero escrever um romance acerca do silêncio,
das coisas que as pessoas não dizem.''

Virginia Woolf
«Nós não vemos a vida - vemos um instante da
vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a
vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás
deste ramo em flor houve camada de primaveras
de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores
desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo
não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que
aí vem um tropel, um sonho desmedido que há-de
realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o
sonho vivo ande pelo seu pé. (...)
   O mundo é um grito. Onde encontrar a harmo-
nia e a calma neste turbilhão infinito e perpétuo,
neste movimento atroz? O mundo é um sonho sem
um segundo de paz. A dor gera dor num desespero
sem limites.

   Eu não sou nada. Sou um minuto e a eterni-
dade. Sou os mortos. Não me desligo disto - nem
do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o
espanto aos gritos.

RAÚL BRANDÃO, Húmus

melómana

''seres hiperbólicos''

« Paro de escrever muitas vezes. O mundo está em mau estado e eu sinto-me esmagada.»

Agnès Varda

Frida Kahlo, por Guillermo Kahlo, 1932


''Dói-me tudo!»

vassouradas

«O homem é senhor do que pensa e escravo do que fala.»

«Um olho no peixe, outro no gato.»

''silêncio afectuoso''

"Manifesto das 343 Vadias",  redigido por Simone de Beauvoir

terça-feira, 12 de junho de 2018

Corinne Marchand in “Cléo de 5 à 7”


últimos paroxismos


agonia antes da morte
''O público em 1910 foi atirado para paroxismos de cólera e de riso. Iam de Cézanne a Gauguin e de Gauguin a Van Gogh, iam de Picasso a Signac e de Derain a Friesz e enraiveciam. Os quadros eram uma brincadeira e uma brincadeira feita à sua medida.»



Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 13

''público filistinamente hostil''


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 13


« A fragmentação do ser humano, o descalabro de uma sociedade fin-de-siècle, cega pela miragem do progresso tecnológico (de que é exemplo a espectacular mudança realizada nos transportes e comunicações a partir de 1890) e iludindo de si mesma os inquietantes sintomas da decadência, irromperam na criação artística com alguns anos de avanço, como é visível nas sucessivas mutações pelas quais, em toda a Europa, a pintura ia passando.»



Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 13

Corrine Marchard in 'Cléo from 5 to 7', directed by Agnès Varda


''o irracional, o fragmentário''


Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 12

''sociedade cada vez mais anódina e massificada''

Ensaios de Virginia Wolf. O Momento Total. Organização e Introdução de Luísa M.ª Rodrigues Flora. Ulmeiro Universidade, p. 12

psiconeuroses

quarta-feira, 6 de junho de 2018

“Manual de Civilidade para Meninas” [ Pierre Louÿs]

“De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu” (1983)

''narcisismo autoral''


veleidade

ve.lei.da.de
vəlɐjˈdad(ə)
nome feminino
1.
desejo que não chega a realizar-se
2.
desejo ou ambição irrealista ou de difícil realização
3.
vontade extravagante ou pouco razoávelcapricho
4.
fantasia
5.
volubilidade

“Nem a cultura nem a sua destruição são eróticas; apenas a fenda entre ambas se torna erótica.”

Roland Barthes

mes.mi.da.de

«Para o nosso próprio projecto de identidade contamos com uma expectativa de continuidade e esperança, ou ilusão. Quando perdemos a ilusão adoecemos. A doença mental é a perda da ilusão.»

Vasco Santos

''este fetichismo da imagem, uma instagramação da vida…''

Vasco Santos

''Édipo cede terreno para dar lugar a Narciso.''

Vasco Santos
«Na esteira de Paul Ricouer, o que me interessa mais na leitura deste mito é a ideia de que Édipo é a tragédia da verdade. Ilustra que o sujeito não sabe toda a verdade sobre si próprio. Eu nunca me vou olhar de frente. Nunca saberei tudo sobre mim mesmo, e é isto que me torna um ser trágico. O inconsciente é o outro de mim mesmo. Ora, hoje estamos num tempo em que este homem trágico perdeu valor, e isto é o pilar da psicanálise e, de alguma maneira, da cultura ocidental.»

Vasco Santos
«Parece-lhe que o que o neo-liberalismo conseguiu criar foi um racismo contra os desfavorecidos? Contra o pobre? Se os Nazis conseguiram fazer a excepção do judeu, que não era bem humano, mas sub-humano, hoje essa mesma condição parece estar a abrir-se para o pobre. Fala-se cada vez menos dessa condição que afecta cada vez mais pessoas. E o pobre, que já vive no gueto, surge tantas vezes como um falhado, alguém que não conseguiu provar o seu valor social. Ou porque é preguiçoso, ou porque não tem ambição… Está cheio de uma série de vícios, de culpa, e isto quando tudo nos mostra que ser pobre é muito mais difícil, obriga uma pessoa a ser muito mais engenhosa do que quem acede, de nascença, ao privilégio. Todos os estudos nos mostram que a mobilidade social é cada vez mais um mito das sociedades ocidentais, e que hoje é dificílimo superar uma situação de pobreza extrema.


Entrevista a Vasco Santos

''processo sistemático de alienação''

Vasco Santos

John Hoagland, American Civilians flee as guerrillas burn trucks on the coastal highway, Usulután, 1980–83


«(...)parece-me que esta destruição dos laços sociais levou a um empobrecimento do pensamento, do pensamento complexo, daquele que não fica pela superfície dos fenómenos.»

Vasco Santos

extimidade



Em tudo o que vinha já sendo apercebido, o que é que lhe parece que escapou à previsão crítica deste modelo capitalista?


Entrevista a Vasco Santos

tudólogos

«Tipos que tanto falam de Psicanálise, como de Arte, como do Médio Oriente, como da crise na Síria, como do PSD, como dos incêndios em Pedrógão… Sabem tudo. »

unidimensionalidade


Entrevista a Vasco Santos

Entrevista a Vasco Santos

Entrevista a Vasco Santos

''decadência da influência dos intelectuais na Europa''

Vasco Santos

quinta-feira, 31 de maio de 2018


(...)

«A véspera da paixão
repete-se todas as noites:
cada noite: a última noite:
a mesma nota na corda vocal nocturna:
a exploração do som na cisterna vazia»


António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 49

V


«Conversámos de «coisas amáveis»
mantendo a distância de um deserto
entre as nossas miragens»


António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 52

(...)

«Plumas que semeiam
um jardim de pombos
a florir planctôn
na flotilha dos teus ombros»



António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 37

IV

Escrita surda a surdir do silen-
cio: pássaro líquido, dedo
a dedilhar um violino sob
a água ígnea do dilúvio

Depois do interlúdio inten-
sifico o sílex, sinalizo
seixo a seixo o sémen só-
lido, livro a livro, lixo

Em círculo de súbito so-
letrado, líquene no lábio
húmido com fogo posto

Até fundir em sacra labar-
eda, o gelo e a geada


António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 31
«This bird is distinguished by the sharpness
of its vision and the speed of its wings»

Plutarco

«A juventude intacta
intensamente animal.»

António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 28

terça-feira, 29 de maio de 2018


(...)

« Senhor, não é de ti que duvido:
mas de mim porque não morro»




António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 17

''devoradoramente mansa e devagarosa''



António BarahonaRitual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 15

surdir

verbo intransitivo

1.sair de dentro
2.sair de onde estava mergulhado; emergir
3.surgir, aparecer

verbo transitivo

resultar (de), advir (de)
(...)

«E procuro o sítio
pra afiar o bico
na solidão sem tempo,
fora do espaço num rito
realmente eterno»

António Barahona. Ritual Análogo. Extratextos de Catarina Baleiras. Edições Rolim., p. 12

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Há 44 anos, a absolvição das ‘Três Marias’

Foi em Lisboa, em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa desafiaram a ditadura e decidiram escrever um livro a seis mãos, intitulado Novas Cartas Portuguesas.
A obra torna-se um símbolo e um macro incontornável na história o feminismo em Portugal. Há um antes e um depois destas três extraordinárias Marias.

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS E O CASO DAS ‘TRÊS MARIAS”

Foi em Lisboa, em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa desafiaram a ditadura e decidiram escrever um livro a seis mãos, intitulado Novas Cartas Portuguesas.
Abordando temas proibidos e censurados durante o Estado Novo, como a guerra colonial, o adultério ou a violação, o aborto, e a subordinação da mulher.
Em Abril de 1972, o livro é publicado pela Estúdios Cor, sob a direção literária de Natália Correia. Três dias depois, o livro é proibido pelo regime, que o considerou pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes.
Novas Cartas Portuguesas rompe com a legislação, moral e costumes vigentes na sociedade portuguesa, e ousa despertar a consciência social denunciando a guerra colonial, a discriminação a falta de liberdade, a marginalização das minorias e a subordinação da mulher na sociedade.

A obra torna-se num manifesto contra todas as formas de opressão, tornando-se um símbolo da luta pela liberdade, igualdade e direitos da mulher.

Escritas simbolicamente durante nove meses – de 1 de março de 1971 a 25 de novembro de 1971 – o livro ousa desafiar e questionar as representações sociais e o papel da mulher na sociedade portuguesa.
“Que desgraça o se nascer mulher! Frágeis, inaptas por obrigação, por casta, obedientes por lei a seus donos, senhores sôfregos até de nossos males”.
Partindo da história de Soror Mariana as autoras mostram a clausura da mulher portuguesa no seu quotidiano, seja num convento ou na sociedade patriarcal do Estado Novo.
“Que mulher não é freira, oferecida, abnegada, sem vida sua, afastada do mundo? Qual a mudança, na vida das mulheres, ao longo dos séculos?”
Abordando temas proibidos e censurados, como a guerra colonial, o adultério ou a violação, o aborto, bem como a questão da mulher enquanto sujeito do desejo e de subordinação.
“as mulheres bordam, cozinham, sujeitam-se aos direitos de seus maridos, engravidam, têm abortos ou fazem-nos, têm filhos, nados-mortos, nados-vivos, tratam dos filhos, morrem de parto, às vezes, em suas casas, onde apenas mudou o feitio dos móveis, das cadeiras e dos cortinados.” 
Três dias após o lançamento do livro, boa parte da primeira edição é recolhida e destruída pela censura de Marcelo Caetano, sob o pretexto e a acusação de que o seu conteúdo era “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”. 

As três autoras são acusadas e levadas a julgamento, num caso que ficará para a história como o das ‘Três Marias’, uma das primeiras grandes lutas pela causa feminista em Portugal. 
O julgamento indignou e mobilizou movimentos feministas e a opinião pública internacional. Em várias cidades americanas e do resto do mundo houve manifestações de solidariedade no dia 3 de Julho de 1973, data originalmente marcada para o início do julgamento.

A 25 de outubro de 1973 começa o julgamento.
Durante os dois anos em que durou o julgamento em Portugal, grupos de feministas organizaram  manifestações de protesto juntos às embaixadas e consulados portugueses em Londres, Paris e Nova Iorque.
De entre os nomes que assumiram a defesa pública das ‘três Marias’ encontra-se Simone de Beauvoir, Margarite Duras, Doris Lessing, Íris Murdoch e Stephen Spence.
A 7 de maio de 1974, dias após a Revolução do 25 de Abril, é lida a sentença pelo juiz Lopes Cardoso:
“O livro ‘Novas Cartas Portuguesas’ não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”. 

Artigo Disponível no link:  http://acegis.com/2018/05/ha-44-anos-a-absolvicao-das-tres-marias/