domingo, 5 de abril de 2026

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A CIDADE
(1910)

Disseste « Vou pra outra terra, vou pra outro mar.
Haverá por aí melhor cidade certamente.
Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente
e o meu coração - como morto - enterrado aqui jaz.
Por quanto tempo há-de minh'alma em podre paz?
Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi
ruínas negras dessa vida que vivi,
que tanto tempo aqui desperdicei a dissipar.»

Novo lugar não vais acabar, nem achar novos mares.
A cidade vai-te seguir. Ruas vais percorrer,
serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás-de viver,
nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.
Hás-de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.
Para outro lugar não há navio ou caminho
e estragares a vida tu neste cantinho
é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.


Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 19

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