sábado, 28 de março de 2026

Les mots bleus

"Quero morrer bonita"

 "Quero morrer bonita",

pediu Noelia Castillo Ramos

''Como se escolhe o vestido certo para morrer?''

“I am not what you think I am.”

 Porcile (1969) dir. Pier Paolo Pasolini

“I am not what you think I am.”
The film unfolds through two parallel narratives: one set in a barren, undefined past where a young man becomes a cannibal and forms a primitive, lawless existence; the other in modern Germany, where Julian, the son of an industrialist, lives in quiet rebellion against his family and society.
Pier Paolo Pasolini juxtaposes these stories to expose the persistence of violence beneath civilization. The archaic world is raw and instinctual, while the contemporary setting appears controlled and rational—yet both conceal forms of brutality and moral decay.
The visual style shifts between stark landscapes and rigid, composed interiors, reinforcing the contrast between instinct and repression. Performances, including Jean-Pierre Léaud as Julian, are deliberately restrained, emphasizing alienation and emotional detachment.
Rather than offering resolution, the film confronts the viewer with disturbing parallels, suggesting that modern structures of power are not far removed from primal violence. It becomes a critique of bourgeois society, authority, and the mechanisms that normalize cruelty.
Premiering in 1969, the film remains one of Pasolini’s most provocative and unsettling works, emblematic of his radical engagement with politics, philosophy, and human nature.
Production Companies
Euro International Film
Arco Film


 “Writing is an integral part of the process of understanding... because certain things are laid down. Let's suppose I had a very good memory and remembered everything I think: knowing my own laziness, I very much doubt I would have ever noted anything down. What counts for me is the process of thinking itself. When I have that, then I am quite content personally. If then I succeed in adequately expressing it in writing, I am content again.”


Hannah Arendt
“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.”

 J.D. Salinger

 [7 anos sem Patrícia Baltazar]

III
Não sei falar. Nunca soube. Fico exausta quando falo. Todos vocês devem ficar a saber disto. Nunca chego a dizer exactamente aquilo que pretendo - fica sempre do outro lado do vidro. Daí a poluição que me envolve. Um pranto.
Derivo das várias posições no mundo. Da ignorância, de todos os poemas que comi, de todos os livros, todos os ídolos (geralmente esquisitos), todos os palcos e cinemas, balcões, da família, de todos os amigos. Raros no mundo. Valiosíssimos. Eu sou eles todos e as viagens que nunca fiz. Sou tudo isso. Não há mais ou menos importância em nada, especificamente - tudo isto é o meu sangue no papel.
Tenho várias salivas. Vário géneros. Acumulei rostos e corpos. E o teu, o teu, o teu, o teu e ainda o teu, continuam guardados, para sempre, em todos os meus lugares. Eu sou tudo o que
vocês fizeram de mim. E tu, meu amor, tu dormes ainda na minha cama. Planetas nos olhos. Tecendo melodias. Trazendo gengibre na boca. Para a minha boca. O teu tear.
Importante é dizer-vos que trago fruta para todos. Flores. Paciência. Coração. Mesa. Uma lareira. Delícias. Espaço. Muito espaço. Jacarandás para ti, Mário! Jacarandás para sempre. Também para ti, todo o Rossio em Junho. Abraços com força e ombro. Manta. A minha intenção é dar-vos uma coisa impossível à partida. Uma invenção.
E estou longe. Estou muito longe para mim.
Passa por aqui, várias vezes por dia, um único pardal. E nem ele, mais solitário que eu, me cumprimenta.
Patrícia Baltazar
1977-2019
FUMAR MATA, ed. Ediresistência

 


SOLARIS, Andrei Tarkovsky



“The traditional statement about language is that it is in itself living, and that writing is the dead part of language.”

Jacques Derrida


[ C’est ma faute
c’est ma faute
c’est ma très grande faute d’orthographe
voilà comme j’écris
giraffe.

J’ai eu tort d’avoir écrit cela autrefois
je n’avais pas à me culpabiliser
je n’avais fait aucune phaute d’orthografe
j’avais simplement écrit giraffe en anglais. ]

Poème '' Sans faute '' de Jacques Prévert

Amor feinho

Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.


Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Monstera Variegata

Costela-de-adão


Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda
Álvaro de Campos

 
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
s.d.
Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990.
- 325.

Society's Child (Baby I've Been Thinking)

Shirin Neshat

 


Falo pouco. Falo pouco e cada vez falo menos. Em primeiro lugar porque me distraio e esqueço o assunto das conversas e em segundo lugar porque as pessoas não esperam que lhes responda mas que as oiça, o que é fácil se acenar que sim de vez em quando e disser
– Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
– Pois claro
(...)

 
António Lobo Antunes, Crónicas, “A Minha Morte” (1993)

desaparecimento

Consultório de Freud

 ''Faço psicanálise há muitos anos e tomo anti-depressivo há seis anos.

Acho grave, ofensivo, além de muito estúpido, dizer (há uma senhora de quem nunca ouvi falar que o diz nas redes sociais) que as pessoas que tomam anti-depressivos são fracas. Desconsiderar a depressão e o problema da saúde mental tem consequências.
Sou outra pessoa por ter conseguido pedir ajuda. E não hesitei em tomar um anti-depressivo quando compreendi que a minha depressão era também química, motivada pelas alterações no meu corpo doente (e que não fosse).
Pus em https://anabelamotaribeiro.pt entrevistas com os psicanalistas Coimbra de Matos e Seabra Diniz, bem como uma leitura de "Análise - Notas do Divã" de Vera Iaconelli.
"Era um rapaz com 12 para 13 anos, que estava com grandes crises de ansiedade, acordava de noite. Tinha um ar maduro para a idade, com alguma reserva. Percebi, à medida que fomos falando, porque é que tinha as suas crises de ansiedade. A mãe tinha um cancro. Ele sabia que o cancro era incurável e que a mãe ia morrer."
A fotografia é no consultório de Freud.

Post no Facebook da Anabela Mota RibeiroSou jornalista, escritora e programadora cultural. 
http://anabelamotaribeiro.pt


 Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva
de Sophia de Mello Breyner Andresen

Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco.
Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988


Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Ilhas’

“This love of ours has driven me to madness.”

 Kenji Mizoguchi's Ugetsu Monogatari (1953)

Sobre a história de resistência da Noelia Castillo Ramos

«Há dias que aquela imagem não me sai da cabeça. Tem-me assaltado amiúde. Foram segundos, mas bastaram; o sorriso simbólico, verdadeiro, marcado pelo orgulho, foi partilhado de maneira tão genuína. Durante aquela troca de olhares, pareceu-me que, à volta, o mundo entrou numa ligeira pausa, entre mim, aqueles dois cigarros, o poder de uma imagem e as recordações de uma infância que se fez muito por ali.»

Crónica do jornalista Pedro Lemos, no jornal Sul Informação

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