terça-feira, 23 de junho de 2026

Louis Faurer

 


Francesca Woodman, Virgem Suicida

''Começou a fotografar aos 13 anos, matou-se aos 22: as imagens que produziu nesse intervalo são agora alvo da sua maior retrospectiva americana de sempre. Tantos auto-retratos depois, continuamos a não saber quem é Francesca Woodman, mas uma coisa parece mais clara: este é o tempo dela
Francesca Woodman começou a fotografar aos 13 anos e suicidou-se aos 22. Nas centenas de imagens que produziu, o centro é quase sempre ela própria, quase sempre sozinha, frequentemente nua.


As suas fotografias são habitualmente descritas como auto-retratos. Mas, a sério, o que é que sabemos sobre Francesca Woodman?

A maior retrospectiva americana desde a sua morte, em 1981, está actualmente no Museu Guggenheim em NovaIorque, onde pode ser vista até 13 de Junho. Corey Keller, curadora de fotografia do Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA), onde a exposição inaugurou em Novembro, antes de viajar para Nova Iorque, trabalhou durante quase cinco anos na preparação da retrospectiva. "Quando olhamos para um auto-retrato, esperamos aprender qualquer coisa sobre a pessoa representada", diz. "Mas depois de olhar para centenas de fotografias de Francesca Woodman, eu não sei quem ela é. Isso foi a parte mais frustrante para mim. Não se consegue perceber quem ela é. Ela não deixa. Ela aparece e desaparece e não há como fixá-la a nada."
O paradoxo das fotografias de Woodman é que elas são intensamente reveladoras - o corpo nu, frontal, impudico - mas simultaneamente opacas. Não são retratos no sentido autobiográfico. Ela própria terá relativizado a sua auto-representação, reduzindo-a a "uma questão de conveniência" (embora algumas fotografias, como uma em que três raparigas seguram uma reprodução do rosto de Francesca Woodman à frente da cara, sugiram que também tentou explorar questões de identidade).

APRENDER A PENSAR

   Devo dizer desde já sem rodeios que vou falar acerca de uma determinada forma de pensar. Uma das coisas mais estranhas e fascinantes desta atividade a que chamamos pensar é o facto de cada um poder inventar, para lá dos seus próprios pensamentos, uma maneira de pensar que seja só sua. Nem é necessária qualquer preocupação sobre se está a pensar mal ou bem - a não ser que se entre num domínio muito especializado, que exija uma forma de pensar muito específica. Na verdade, a única coisa a fazer é mesmo pensar e nada mais.

   Ora pensar é, como sabemos, tão natural como respirar - de um modo ou outro, o pensamento está sempre a trabalhar nas nossas cabeças. Por isso, que haverá de excepcional acerca dele? Bom, apesar de todos nós estarmos constantemente a pensar em qualquer coisa, acontece a coisa terrível de uns pensarem mais e outros menos. É que alguns empenham-se nisso de uma forma muito mais activa.

(...)

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 75

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhares entre ruinas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco p'ra chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, mas sei
É que não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, mas sei
É que não sei - ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê não sei, mas sei
Que essa coisa... é que é linda !

 a grande muralha de Nietzsche

a queda de todos os edifícios
a queda de todos os multibancos
a devastação dos jardins
a devastação das cheias
a devastação do cânone-púrpura
a concavidade da lama
a concavidade dos pés das musas
o hálito
o hálito dos prisioneiros
o hálito dos aprisionados cavalos metafísicos
Nietzsche deixou-se traumatizar
e traumatizou-nos para sempre
munido de pólvora
de borboletas assassinas
de estantes siderais
Nietzsche
um irredutível velhinho gagá
como todos os outros esqueletos do asilo
e no entanto
tão distinto
Augusto António Cabrita

 quando me deito no sopé dos ninhos

tenho visões que me são trazidas pela precipitação
de antepassados:
por tapetes forjados por faraós
pela pele medieval das cobras.
em Silves
há um faquir que aponta o polegar a uma cama
forjada por um gigante
há pinturas moçárabes
estalactites de estio
e o último turbante de Al-Mutamid
é afinal de contas
uma porta giratória
uma porta de entrada para um lago de cisnes.
depois há o itinerário acidental que leva os olhos de Dali até Sevilha
sustentados por um dromedário de poucas palavras
depois há berberes-ardinas numa longa piscina
dando conta das últimas notícias da Taifa
através da trôpega gesticulação das nuvens.
quem sou eu?
uma pintura rupestre fora de horas,
uma máquina do tempo,
o resultado de um totémico acaso.
Augusto António Cabrita
nunca me interessei muito pela semiologia dos animais surrealistas
prefiro as planícies e as escarpas que dilatam
o seu sangue
a sua reverberação provocante
a sua urina fantasmagórica
e há igualmente as montanhas oceânicas
amantes desses animais sem morada
esquálidos desde o seu batismo sem fé
e há igualmente as cidades tectónicas
onde juntos adormecemos debaixo
de um firmamento de urina
águias
minotauros
Melusinas
bruxas de éter
homens imolados defronte de semáforos intermitentes
marsupiais ébrios
impossibilitados de viajar de comboio
impossibilitados de regressar a uma cidade adiada
o que interessa o significado-significante
a cartografia de um corpo dividido em horários
em créditos por telefone
e em rochedos paranoicos?
esta noite vi-te dançar no ventre de um coreto em pousio
estavas à sombra de uma águia disléxica
uma ave pronta para morrer 100 anos antes
num desenho elíptico de Salvador Dali
é estranho ver os séculos através deste espelho retrovisor
ouvir o frémito das Melusinas
a sonoplastia do teu itinerário alquímico entregue a uma floresta de minotauros
de tentáculos
e eu sentado do outro lado da Terra
possivelmente a menos de oito quilómetros de distância dos teus cabelos de mármore
a fingir-me esfinge
Augusto António Cabrita

sexta-feira, 5 de junho de 2026


 

Josef Koudelka, From the book Diaries book

 









Palavras, actos



A ironia ensina a sabotar uma frase
como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
no verbo ou numa letra do substantivo
a frase trágica torna-se divertida,
e a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
a linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.


Gonçalo M. Tavares

nogueiral

''A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite.''


Marjane Satrapi (1969 – 2026)

 


 S. Martinho de Anta, 1 de Junho de 1948.

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres .
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Diário IV
Miguel Torga

chaloupe

quarta-feira, 3 de junho de 2026


 

  Eugénio de Andrade, no livro “Poemas de Eugénio de Andrade”. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.




 Na morte de Marilyn

Ruy Belo

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.
Hoje, passaram 100 anos
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