domingo, 19 de abril de 2026

Sou composta por urgências

 Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.


Clarice Lispector

 

                                            Sem título (da série My Tangier) Daniel Blaufuks

Death Is The Diamond


 

"exaurir as forças"

Aleivosia

Pórtico

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

Daniel Faria
in “A casa dos Ceifeiros”

Conserto a palavra

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a.

Daniel Faria, in “Homens que São como Lugares Mal Situados”
 Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me
debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente
caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um
para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita

© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão

 


The World On Fire - An American Prayer | Jim Morrison

Men who are like places in the wrong place

 Homens que são como lugares mal situados

Daniel Faria

 Acontecera que as coisas se destruíssem sem
que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si
mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem 
Uma luz parada no meio da voragem.

 © 1998, Daniel Faria 
From: Poesia
 Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão

Amo-te no intenso tráfego

 Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me
no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
 Sei que o homem lavava os cabelos como se
fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento

Sei que os lavava como se os contasse
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o
centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos
cortados

Era um homem imaginado no coração da
mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas
margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar

 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O
cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

Daniel Faria
Powered By Blogger