domingo, 4 de janeiro de 2026
''Quando Boaventura Sousa Santos foi queimado na praça pública tomei posição pública contra a fogueira, sem conhecer qualquer versão de BSS. E discordando da sua obra, o que fiz sempre publicamente.
Já lá vou ao Manifesto. Não o defendi por ser de "esquerda". Em resumo simplista, BSS é o autor da teoria de que a revolução dos cravos não é uma revolução. Ou seja, é reforma, pressão das massas para ganhar espaço e direitos no aparelho de Estado, e que o seu ápice é a Constituição de 1976 que salda esse pacto capital-trabalho. O centro dos meus estudos foi demonstrar que a revolução é uma revolução (massas auto-organizadas nos seus organismos como comissões/conselhos contra o Estado). E que foi isso que garantiu direitos - assim que os trabalhadores se desorganizaram e se sentaram na concertarão social os direitos minguaram.
BSS acha que o Estado é disputado pelas classes sociais, pela burguesia e pelos trabalhadores, o Estado é árbitro. Eu acho que essa tese não explica a realidade. O Estado é de uma classe, a burguesa, e que as conquistas - Estado Social - que os trabalhadores impõem ao Estado, são apenas resultado de revoluções. O que me interesse no socialismo, como historiadora e como socialista, é como os trabalhadores tomam o poder sem abusarem do poder, essa é a minha pergunta de investigação. Por isso estudo democracia de base nas revoluções. A minha tese remonta à teoria marxista do Estado, a dele está próxima das teses da social democracia depois da I Grande Guerra e do PCP depois de 1930 com as teorias das frentes populares pós Dimitrov.
BSS usou-se da teoria sociológica para defender esta tese. Eu fiz vinte anos de estudos empíricos dos conselhos na revolução dos cravos. Calma, não é auto-elogio - nenhum de nós caiu do céu, são centenas de livros e autores aos ombros dos quais subimos. Mas, reitero, porque faço questão, os meus livros demonstram, os de BSS sobre este tema não demonstram, desenvolvem, com sofisticação, um argumento teórico - o da democracia dentro do Estado. São as teses de BSS que dominam a historiografia da revolução próxima do PCP (Loff) e do PS (Pimentel, Rezola). As suas teses foram centrais para formar o BE e para a Geringonça. Do BE saí em 2005, a Geringonça fui contra, apoiando sindicatos novos que BSS, e vários membros do CES, nas páginas do Público apelidou de movimentos inorgânicos de extrema direita.
Podia seguir o caminho explicando que o "sul global" é mais um conceito decalque do nacionalismo de 1914. Não existe sul global - existem classes sociais no norte e no sul, e existe imperalismo. O mundo não são dois campos.
Espero com isto ter explicado que a obra de BSS para mim não é interessante. É uma obra grande, coletiva, importante, dedicada, sofisticada. Equivocada, do meu ponto de vista.
BSS tem direito inalienável à presunção de inocência, a ser acusado, com julgamento, onde pode ser defendido. A presunção de inocência - que todas as ditaduras eliminam - não diz que beltrano "pode ser inocente ou culpado". Diz que é inocente.
Não assinei de início o Manifesto em sua defesa porque a carta que me chegou - e não foi por ele enviada - , falava da sua obra ilustre, de teses de BSS sobre sociologia etc, epistemologias do sul, e outras teses das quais discordo. A questão é que isso para mim é irrelevante. Podia ser um investigador precário, sem um artigo publicado, e teria de ter os mesmos direitos à defesa. Este Manifesto, que hoje assino publicamente, e que veio a público, é um Manifesto democrático contra a justiça pré capitalista, medieval.
E o que fazer das mulheres vítimas? Dizer que são vítimas é acabar com o princípio da presunção de inocência. É dizer que ele é culpado. É um ataque ao Estado de Direito - que é a única coisa que sobrou das revoluções - direitos políticos e civis elementares. Não, não foram os liberais que os conquistaram, em Portugal não certamente, foram as greves e as revoluções (no nosso livro Breve História de Portugal está lá, cada um deles, demonstrado, com datas).
Não houve julgamento algum para BSS. E que isso se está a tornar o padrão, na academia, com os ventos que sopram dos EUA, a Nova Gestão Pública e a sua progressão gestionária (os lambe botas, tantos de esquerda como de direita), e o desejo das ILs e Chegas deste mundo começarem a despedir funcionários públicos e acabar com a liberdade de cátedra.
Que cientistas tenham tido qualquer complacência com este processo medieval diz muito do estado da Academia. Por isso este Manifesto assinado por tantos é tão importante como esfera pública.
Digo mais - se ele um dia tivesse julgamento e fosse considerado culpado, eu seria contra o seu cancelamento. Cancelar livros, ideias, tudo isto é um caldo semi fascista, a que parte da esquerda aderiu.
Irene Pimentel passou parte da sua vida defendendo o regime Israelita e o sionismo e a sua obra sobre o Estado Novo é importante. Vamos queimar os seus livros? Pacheco Pereira foi defensor da invasão do Iraque, um crime que custou milhões de vidas e para a qual milhares de opinadores públicos como PP contribuíram. Vamos deixar de usar esse arquivo sublime - Ephemera - que ele construiu? Eu aderi ao boicote a Israel, recusei-me a dar aulas nesse país - onde seria muito bem paga e era precária - perdi a conta aos meus colegas de esquerda, e claro de centro e direita, que aceitam os generosos convites de Israel, com gosto. Vamos tirar os seus livros das Universidades? Não janto com eles, há limites, mas não posso pedir que os seus livros sejam tirados das prateleiras.
O mais importante de tudo isto é a concepção autoritária que está em quem diz defender as mulheres. A ideia de que se salvam mulheres do assédio com denúncias anónimas, penas pesadas, perseguições, leis duras. Assistimos a manter-se a violação como crime sujeito a penas leves e ao mesmo tempo ao assédio ser o crime mais penalizado do mundo. Já se perguntaram porquê? Porque as mulheres violadas são da classe trabalhadora ou são-no dentro da família, e aí a direita (e a Igreja) não entram. Já a acusação de assédio é a porta dos directores e colegas para dominarem pelo medo as Universidades. Não há uma política da UE, uma, sobre violações de mulheres (onde aí sim defendo penas muito mais pesadas) depois de turnos nocturnos a caminho da sua casa na periferia, mas há a imposição da denúncia anónima por assédio nos serviços públicos. Ninguém quer proteger as mulheres, querem que todos tenhamos medo dos bufos.
Metade dos homens que matam mulheres matam-se. É a pena máxima. Aumentar penas não protege as vitimas de violência doméstica. Eles matam-se a seguir.
Quem acha que é no caldo moralista e punitivo que se resolvem os problemas sociais, contribuindo para que as pessoas cada vez menos tenham relações de amizade ou amor ou sexo, se abracem sequer; tenham medo umas das outras no trabalho, desconfiem umas das outras. Muita moral, muita punição e o mundo será um lugar perfeito...É a proposta política da Igreja, da direita e desta parte da esquerda académica, que adora a palavra denúncia. É o Maio de 68 ao contrário.
Empregos seguros, carreiras para todos, com acesso igual, concursos realmente públicos (de portas abertas), casa para todos, cada família ter o seu espaço e não amontoados, filhos a viver com pais em adultos é um absurdo; horários de trabalho decentes, muita cultura, muita literatura, um teatro, casa de convívio em cada bairro para os jovens crescerem em comunidade. Tudo isso ia diminuir drasticamente o assédio, a violência e - o pior de tudo -, a violação. Mas para estes novos inquisidores o Estado, com uma lei, um tribunal e um polícia atrás de cada mulher, vai resolver tudo.
Não sei se sabem que toda a luta pela igualdade foi para nos livrar do pai, do padre, do patrão, do Estado e do polícia.
Que Boaventura seja lido, debatido, convidado, que discordem dele abertamente (coisa que durante anos não fizeram, ajoelhando-se às suas teorias) e que - se cometeu um crime -seja julgado. Isto - este purgatório em que o colocaram - não é justiça, não é nada. Não protege as mulheres, porque enquanto não existirem carreiras, empregos seguros, casas, as mulheres vão estar desprotegidas. E as penas só servem para as desproteger mais, dar mais poder ao Estado, mais leis e mais vigilância, mais polícia vai-se voltar contra as mulheres, mais do que contra os homens.''
Raquel Varela
«Estava noite de luar. Um luar brando de Outono que vestia as coisas de penumbra triste. Piscavam luzes na outra margem, dispersas aqui e além, mais ali reunidas, como num concílio de estrelas. Eram constelações de vidas, todas iguais vistas de longe. A luz que iluminava o senhor não brilhava mais do que a outra que alumiava o servo. Ali não havia casebres, nem palácios. Todas eram irmãs, como as estrelas da Estrada de Santiago que polvilhavam de oiro o azul-negro.»
– in “Gaibéus” (1939)
António Alves Redol
António Alves Redol
"Si aquellos a quienes comenzamos a amar pudieran saber cómo éramos antes de conocerlos… podrían percibir lo que han hecho de nosotros.”
Albert Camus
Albert Camus
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Maria Casares
para Nuno Dempster, in memoriam
O melhor que fizemos ainda foi partirmos
à pedrada os candeeiros da nossa infância antiga.
O mais, pouco valeu: o chiste que atirámos à garça
vermelho que se comprou na feira de S. Mateus,
o pedaço de rio entrevisto na Afurada, a confirmar-nos
que não podia ser outra a cidade amada,
nem maior a profunda paixão que lhe devotávamos.
E, no entanto, os sonhos por cumprir sobejavam-nos,
como se subir ao Kilimanjaro não fosse impossível
e as nossas forças ainda chegassem
para desfrutar da groselha infinita que merecíamos.
Mas enfrentamos os babuínos com coragem
e protegemos o melro que quis acompanhar-nos.
Amadeu Baptista
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
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