domingo, 27 de abril de 2025


 

Bom Dia Tristeza


Bom dia, tristezaQue tarde, tristezaVocê veio hoje me verJá estava ficando até meio tristeDe estar tanto tempo longe de você
Se chegue, tristezaSe sente comigoAqui nesta mesa de barBeba do meu copoMe dê o seu ombroQue é para eu chorarChorar de tristezaTristeza de amar
Compositores: Vinicius De Moraes / Joao Rubinato

 ''Isto que eu sou é o resultado da tua educação e da minha obediência.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos
 ''Falava de morte e não morria.
Vivia para perpetuar a sua ausência.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos

 ''Estás sempre a falar de morte e não morres.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos

Giesta-branca

rudeza

violência erótica



Man Ray. Suicide, Kiki de Montparnasse 1928
 

Cameron Winter - Take It With You

| 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲! |



"(25 de Abril de 1974)

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- O Fafe telefonou de Cascais, ... Lisboa está cercada por tropas...
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
-Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem, um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
-Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
-Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazarismo-caetanismo).
São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem!
Ou tudo ruirá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de, heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres, correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena ... Terra da fraternidade... O povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas, medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?... interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. O Chico, está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! ... )
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas, cravadas, nas palmas das mãos...
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução."

José Gomes Ferreira
Poeta Militante III - Viagem do Século Vinte em mim
Círculo de Poesia
Moraes Editores
Lisboa, 1983

Nobuyoshi Araki Cat


 

rescender

''Não se não é artista, quando se é.''

 Pedro Cabrita Reis

''Quem é artista nunca poderá deixará de o ser.''

 Pedro Cabrita Reis

«I feel safe when the birds sing» (2025)

exposição pop-up desenvolvida por Karen Francesca

terça-feira, 22 de abril de 2025

Slowdive - Spanish Air

'' O complexo de Frankenstein''

´´vida artificial''

pólvora


 

''Fui terra, fui ventre, fui vela rasgada''

«Poemas aos homens do nosso tempo»

 Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra
além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.


 Hilda Hilst, excerto de «Poemas aos homens dos nossos tempos», in Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Heroin - Lana Del Rey

 


 ''(...) Na solidão, onde todos se veem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo.

Arthur Schopenhauer, no livro “Aforismos Para Sabedoria de Vida. (Editora Martins Fontes; 3.ª edição [2009]).

Língua-de-sogra


azedo como rabo-de-gato
muito azedo

autorretrato

Today, I met who I’m gonna be from now on / And he’s a piece of shit.

“Heavy Metal”, álbum a solo de Cameron Winter


Sad Lovers And Giants - Lost In A Moment (1982) Post Punk, Dream Pop

“O desejo selvagem, esse é fácil — nasce do instinto. Mas desejar alguém com ternura, com alma, com cuidado… isso exige tempo. É preciso atravessar todas as estações do amor, suportar os invernos da dúvida e os verões do encantamento, até que, no centro do afeto, acenda-se a chama rara do desejo que respeita, que acolhe, que permanece.”

Albert Camus

 “Há ferrugem na minha boca, a mancha de um beijo antigo.”

Anne Sexton

Quem Fabrica Um Peixe Fabrica Duas Ondas


De Herberto Helder

Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas,
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro Íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro,
quem baixa a mão para quebrar um selo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo.
**
Herberto Helder, in Servidões

 "Nunca desejaria usar inteligência artificial no meu trabalho. É um insulto à própria vida", assumia o realizador japonês Hayao Miyazaki, co-fundador do Studio Ghibli, em 2017.


Fonte: Comunidade Cultura e Arte

Que se foda alcançar

"(...) Que se foda a alegria
Que se foda o sucesso
Que se foda o progresso
Que se foda a morte
Que se foda chegar
Que se foda alcançar"

OIOAI

Crime Scene Queen

Sexting

sarilhos grandes

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Barbara, c. 1954

 


''Ainda bem que não falo com pessoas e hoje em dia só falo com o meu cão.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017


25 livros em 25 anos. Porque escreve tanto?

''Escrevo para mim, só para mim, para me tentar salvar. Quando escrevo, as coisas parecem ganhar um plano superior, mais verdadeiro. Contra a passagem do tempo, o desvanecimento, a escrita dá-nos a ilusão de que a nossa vida é mais durável. Dá-nos a ilusão de que continuaremos vivos naquilo que escrevemos. Ser-me-ia impossível viver sem escrever.''


Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017

Nick Drake - River Man

Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…)

«O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a. Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive. O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse. O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática. O Ruy Cinatti, um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que entretanto desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…) »

Pedro Paixão. [“Espécie de Amor”, 2014]
"Já não conheço as novas gerações… não os leio… eles também não me leem a mim… portanto estamos bem. Mas eu também escrevo sempre a mesma coisa. Sou eu e eu. Só escrevo sobre mim. Porque não teria sobrevivido se não escrevesse. Só assim é que vou sabendo quem sou."

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

Deborah at Tante Esther's, 1947


 

Father John Misty - The Ideal Husband




Julian, he's gonna take my files
Every woman that I've slept with
Every friendship I've neglected
Didn't call when grandma died
I spend my money getting drunk and high
I've done things unprotected
Proceeded to drive home wasted
Bought things to win over siblings
I've said awful things, such awful things
And now, now it's out
And now, now it's out
Julian, he's gonna take my files
Telling people jokes to shut them up
Resenting people that I love
Sleep in 'til two then doin' shit
Just stay in bed and later lie 'bout it
Obsessing over graying hair
Knowing just what people wanna hear
Binging on unearned attention
I've said awful things, such awful things
And now, now it's out
And now, now it's out
I came by at seven in the morning
Seven in the morning, seven in the morning
I came by at seven in the morning
I said, "Baby, I'm finally succumbing!"
Said something dumb like, "I'm tired of running
Tired of running, tired of running!"
Let's put a baby in the oven
Wouldn't I make the ideal husband?

''Só escreve de verdade quem tem mãos verdadeiras.''

''Escrever é uma forma de poder.''

''Uma pessoa pode salvar-te. Uma multidão esmaga-te, deixa-te morrer. E eu percebi isso.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

«atrás da cortina de nenúfares, eu não saberia resistir-te»


LI PO (também LI BAI) com Um Copo de Vinho no Exílio
(em colaboração com a livraria Livros Tintos, de Fundão). Versões de Manuel Silva-Terra.

''Houve o doce veneno da fama que nos conduz à maior solidão. A última coisa que queria era ser outra vez famoso como fui. Perdi bastante. Porque a fama dá-nos um poder irreal feito de fumos, espelhos, que é perigoso. Há uma aparência de que conhecemos muitas pessoas, que as pessoas gostam muito de nós. Tudo falso. Graças a Deus, descobri isso antes de ter feito muitas asneiras, sem ter ficado viciado em drogas, álcool, poder.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

“escritor coqueluche”

descasar

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