sábado, 30 de setembro de 2017

''Os olhos ainda eram muito lúcidos.''

Prefácio Óscar Lopes


João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa 1940-1980. Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1986., p. 18

''aterrissar de pássaros''

Prefácio Óscar Lopes


João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa 1940-1980. Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1986., p.18

O Sim contra o Sim

Prefácio Óscar Lopes


João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa 1940-1980. Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1986., p.15
«(...) o discurso de um rio em oposição aos charcos em que sazonalmente empoça.»


Prefácio Óscar Lopes


João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa 1940-1980. Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1986., p.14

« A poética do pouco, se não do mínimo, do inerte mineral (ou pelo menos vegetal), define-se em parte pela negação: é uma poética do não, do espinhoso cacto não, e do prefixo in - (inenfática, impessoal, inexcessiva, inemocional); agarra-se a vinte palavras, sempre as mesmas (provavelmente: pedra, osso, esqueleto, dente; gume, navalha, faca, foice, lâmina, cortar, esfolado; bala, relógio; seco, mineral, deserto, asséptico, vazio, fome; e, é claro, cana). Tendente à geometria certa de um cristal, deixa no entanto sempre à vista o material de que parte (...)»


Prefácio Óscar Lopes


João Cabral de Melo Neto. Poesia Completa 1940-1980. Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1986., p.11

pensadores



«(...pensadores, aquilo a que os franceses chamam de bricoleur, pessoas “do it yourself” que conseguem ver um pouco mais à frente e vão abrindo caminho na direção certa.»


Philippe Van Parijs, defensor do Rendimento Básico Incondicional

terça-feira, 26 de setembro de 2017



Obs. 22009Provas em brometo de prata sobre alumínio120 x 80 cm (cada). Edição de 3 

domingo, 17 de setembro de 2017

MaNyfaCedGod

[Intro: JAY-Z]
Yeah, uh
Vacay the pain away, uh
Smoking the pain away, uh
Drinking the–uh

[Verse 1: JAY-Z]
Look at all we been through since last August
Skating through the rumors like, "Aw, shit!"
Still came back, fucked up the red carpet
Shows how big your heart is
On the run, we took a hundred together
More than the money, it was the fact that we done it together
Uh, healing in real time
"Song Cry" to "Resentment", that was real crying
Bonnie and Clyde things, we hold it down
Had we surrendered then, that'd be the real crime
Got through it, got blessed times two with it
New Bel-Air estates with four pools in it
I told my bro, "You gotta go home," over vino
Goodfella, don't gamble with your life, this ain't Casino
Cost him two mill' plus the child support
We'll get the money back, but not the child support
It's getting too late, we can't afford mistakes
Woulda broke me down had you got away
It woulda broke me up had you took my child away
I'm glad we found a way
Sexin' the pain away
Vacay the pain away
Drinking the pain away
Smoking the pain away
Yeah



[Verse 2: James Blake & JAY-Z]
Too perfect not to wonder
If we created a flame that would warm us 'til October
We invented lovers from company for the summer
I was many faces, but at least I was willing to change
I was worried that the way I was would end me up alone
Shit feels so beautiful, don't you agree?
I was worried that the way I was would end me up alone

[Beat Change]

[Verse 3: JAY-Z]
Our external reality is an opportunity to heal our internal upset
Let's build a cathedral these evils couldn't fuck with
I wanna spend my Saturdays and my latter-days, eating sundaesand enjoying Mondays
Not worrying about what none say
Yoncé
All on this mouth like liquor
That my nigga, uh, that my nigga
Over everything, each of our mood swings
Whenever attitudes change, like a mood ring
Ain't nothing like somebody that get ya
Baby, I get ya
Let's go through this thing, come out stronger, the golden journey
Broken is better than new, that's kintsukuroi
You're fine china
I'm a bull and ball in a china shop
I promise to repair with gold each bowl I drop
Be grateful for whatever comes
Because each has been sent from a guy from beyond
That's what Rumi say
"Never go to bed mad," that's what my Ummi say
It always took her less to say more
I always thought she was an angel, now I'm sure
Sure

sábado, 16 de setembro de 2017

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Aristóteles, “o objetivo da arte não é representar a aparência exterior das coisas, mas o seu significado interior”.

domingo, 10 de setembro de 2017

''Os vossos ombros frágeis, estreitos, magoáveis.''

Tatyana Kuzovleva. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 213

«Não há épocas suaves.»

Naum Korzhavin. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 203

«Como é horrível
                                   que as pessoas
                                                                se habituem
a fechar os olhos
e a não se espantarem
                                            com o dia.»



Robert Rozhdestvensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 189
(...)

«Levo 
          o meu
                        coração
para longe.»



Robert Rozhdestvensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 184
«O gafanhoto fica calado na sua folha
com uma terrível angústia no rosto.»


Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 179
"A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."


Aldous Huxley

«As pessoas passam,
estão desparafusadas,
como pássaros em gaiolas de arame,
gorjeiam pensamentos.»


Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 177

''ver o mundo sem as suas capas,''

Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 175
«Não trocam palavra e esse encontro
É o primeiro e não há outro, não.»


Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 173

''Que seria do falcão sem a serpente?''

Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 172

''Sem estupidez não havia esperteza,''

Andrei Voznesensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 172

sábado, 9 de setembro de 2017

''não só não podem - tudo podem os grandes no mundo! -''

Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 167

Arrastavam-se Madalenas

e semeavam lágrimas, 


Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 166

''Dá-me os teus lábios. Aperta-me e não penses.''

Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 165

Eu não choro. Já chorei tudo.

(...)

«Mas, vestindo a gabardina fina,
mostrando-me o anel no dedo,
uma portuguezinha diz: porque choras?
Eu não choro. Já chorei tudo.»


Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 165
(...)

«Mas no mundo, onde mandam os fascistas,
onde os direitos de todos são pequenos,»




Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 165

''emigramos com os lábios de visita''

Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 164

''As estrelas olham com olhos de prisão,''

Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 164

OS JOVENS FURIOSOS

O século XX,
                          ó grande era do spútnik,
como é grande a tua tristeza e mortificação,
tu - século generoso,
                                       e canalha também, 
século que assassina as nossas ideias,
século de uma juventude furiosa.
Os jovens estão extremamente furiosos.
Os seus olhos brilham de desdém pelo seu tempo.
Desprezam os partidos,
                                                o governo,
a igreja
              e as previsões dos filósofos.
Desprezam as mulheres 
                                                com quem dormem,
o mundo dos bancos 
                                        e escritórios.
Desprezam
                      com dolorosa perspicácia
o seu próprio lamentável desprezo.
O século XX não é pai para eles - mas padrasto.
Detestam-no muito,
                                          enormemente.
E um fermento negro
                                          denso
nos jovens cáusticos junto do Hudson;
e junto do Tibre,
                                 do Sena,
                                                  e do Tamisa
os mesmos jovens passeiam tristemente.
Duros,
              taciturnos,
                                    deformados,
Como se não pertencessem ao seu tempo...
Eu sei bem -
                        o que eles não querem.
Só o que eles querem -
                                                não sei compreender.
Certamente a sua crença jovem
não será apenas
                                praguejar!
De onde estou agora,
                                          em Moscovo,
falo-lhes francamente
                                            de homem para homem:
se alguma coisa me põe furioso,
não é porque em mim
haja uma triste descrença,
mas porque grito alto o amor pelo meu país.
Se alguma coisa me põe furioso -
é porque me orgulho
de estar com os amigos,
                                                de estar nas fileiras,
de estar no combate
                                        pelo meus direitos!
Que se passa convosco?
                                              Procuram a verdade?
'Psicose das massas, ' -
                                               suspiram os psiquiatras.
Jovens vagueiam tristes pela Europa.
Pela América vagueiam jovens tristes.
Ó século XX,
                           ó grande era do spútnik,
arranca-os às sombras e à confusão!
Não lhes dês uma comodidade plácida -
dá-lhes fé
                     na justiça
                                         e no bem.
Eles são teus filhos
                                       e não teus inimigos.
Ouves,
              século XX?
                                    Socorro!


Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 160-162

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Natividade de Nossa Senhora

Miriam, que em hebraico significa "Senhora da Luz", passado para o latim como Maria. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Prosa Memorialista de Seiscentos. FCG. António J. Saraiva e Óscar Lopes. «…’ a melancolia e nublado português e a boa sombra e alegria castelhana: uns, noitibós tristes, e outros, pintassilgos alegres, [...] andam os portugueses à caça de uma melancolia, e sonham os castelhanos de noite como poderão levar um bom dia’»

Prosa memorialista
(Excerto)

«A principal fonte de informação sobre este período é um diário particular referente aos acontecimentos decorridos entre 1662 e 1680, intitulado, Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, de que ficaram vários manuscritos, um deles editado em 1888, e que tem sido atribuído com verosimilhança ao beneditino de Entre Douro e Minho, frei Alexandre Paixão. O ponto de vista deste diário é o de um moralista muito conservador, antijudaico, favorável a ao monarca Pedro e à alta aristocracia. Mas a obra contém informações valiosas, graças a certo e novo gosto de registar efemérides, muito característico da época barroca e ao qual se devem obras tão notáveis como as Memórias de Saint-Simon ou o Diário de Samuel Pepys. A título de exemplo, e pelo seu extraordinário interesse para a história do teatro em Portugal, citemos as referências contidas em Monstruosidades às cartas por títulos e comédias e uma lista, elaborada por acinte nitidamente antinobiliárquico, em que figuram 117 nomes da aristocracia, ou designações colectivas de grupos dirigentes do País, seguidos cada qual de um título de comédia espanhola que lhe faz a caricatura; assim, Francisco Manuel de Melo é caracterizado pelo título da comédia Lances de Amor y Fortuna, o que parece confirmar a tradição linhagista segundo a qual a sua prisão tem qualquer relação com aventuras amorosas.
Entre as obras de memórias da época filipina salienta-se a Fastigímia ou Fastigínia do jurisconsulto Tomé Pinheiro Veiga (c. 1570-1656), diário de uma estada do autor em Valhadolid em 1605, mas com inserção de comentários e acrescentos indubitavelmente posteriores, obra que correu em numerosas cópias manuscritas. O autor dedica a maior parte do texto à descrição minuciosa de cerimónias e festejos áulicos e à transcrição da picante esgrima de galanteios que travou com damas espanholas, cuja desenvoltura e liberdade o surpreenderam e deleitaram, em contraste com a tirania que em Portugal se usa com as filhas e as mulheres. Bom observador humorístico, Pinheiro Veiga sabe insinuar, com humor, uma visão crítica da espaventosa corte de Filipe II (III de Espanha), do rei, do duque de Lerma e outras personagens, de certos costumes castelhanos e portugueses, das exibições teatrais do culto religioso, como procissões de tocheiros e milhares de disciplinantes, sermões em que sucedem farsas solenes, etc. Em certos pontos, como no gosto da reportagem concreta, da minúcia significativa, no interesse com que em dado passo refere progressos técnicos recentes, o autor ganha um ar moderno, apesar do seu lastro de citações clássicas e de conceitos espirituosos. Um dos maiores interesses do livro reside no contraste que estabelece entre a melancolia e nublado português e a boa sombra e alegria castelhana: uns, noitibós tristes, e outros, pintassilgos alegres, [...] andam os portugueses à caça de uma melancolia, e sonham os castelhanos de noite como poderão levar um bom dia. Tomé Pinheiro Veiga, cujo espírito autonomista se revelou no próprio exercício da magistratura, resistindo à aplicação de leis castelhanas, e que aderiu mais tarde à Restauração, reage de modo por vezes sarcástico contra a constante caricatura com que em Valhadolid é alvejado o seu Portugalete, quer em piropos de castelhanas ou em alusões orais diversas, quer até em entremezes, denominados portuguesadas, acerca de fanfarronices e sentimentalismos ridículos de tipos fidalgos portugueses. No entanto, não se cansa de também criticar os preconceitos e pechas da aristocracia nacional, à luz do que vê em Castela: a brutal sujeição feminina (que vimos preconizada pela Carta de Guia de Casados); a tola presunção provinciana de estirpe e o feitio brigão; a exibição sentimentalona, a alternar com o gosto de falar de um modo obsceno; a falta de limpeza; o baixo nível de convivência. O mais curioso é que o próprio autor se recorta, no livro, como um obsessionado sentimental pelo belo sexo, rematando mesmo a Segunda Parte por um longo encarecimento das sublimidades do amor freirático que é difícil de tomar apenas como uma ironia, a não ser que funcione como auto-ironia.
Sob o ponto de vista literário, trata-se de uma das obras mais notáveis do nosso século XVII, graças a uma prosa cheia de vivacidade, a um extraordinário sentido de humor, ao seu equilíbrio entre a coloquialidade e a erudição no sentido em que se orientavam já as obras de Jorge Ferreira Vasconcelos. Outras obras seiscentistas de Memórias: o Diário (1731-33) do 4.º conde de Ericeira, e o livro que Eduardo Brasão publicou no Porto, 1940, sob o título de D. Afonso VI, atribuindo-o a António Sousa Macedo; o investigador brasileiro Afonso Pena Júnior reivindica a autoria desta última obra para Pedro Severim Noronha. É ainda como memorialistas que aqui se devem registar dois homens que, além de Rodrigues Lobo, preceptista e antologista epistolográfico, Francisco Manuel Melo, padre António Vieira e frei António Chagas, deixaram uma significativa correspondência: Vicente Nogueira (1585-1654), clérigo muito culto, que, exilado em Roma, dá em numerosas cartas ao marquês de Nisa informações bibliográficas, pareceres e observações dos costumes da grande cidade; e José Cunha Brochado (1652-1735), a quem uma longa missão diplomática em Paris proporcionou curiosas reflexões e comparações em numerosas cartas, além de dois tomos de Memórias e anedotas da Corte de França».


In António J. Saraiva e Óscar Lopes, Prosa Memorialista de Seiscentos (excerto), História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, FCG, Lisboa, 2005, Halp 35, ISSN 1645-5169.

Soneto de amor


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.


Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio

Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde


Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,


E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...


Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!


A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...


Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
Mundo, se te conhecemos,
porque tanto desejamos
teus enganos?
E, se assim te queremos,
muito sem causa nos queixamos
de teus danos.


Tu não enganas ninguém,
pois a quem te desejar
vemos que danas;
se te querem qual te vem,
se se querem enganar,
ninguém enganas.


Vejam-se os bens que tiveram
os que mais em alcançar-te
se esmeraram;
que uns, vivendo, não viveram,
e os outros, só com deixar-te,
descansaram.


E se esta tão clara fé
te aclara teus enganos,
desengana ;
sobejamente mal vê
quem, com tantos desenganos,
se engana.


Mas como tu sempre morres
no engano em que andamos e que vemos,
não cremos o que tu podes,
senão o que desejamos
e queremos.


Nada te pode estimar
quem bem quiser estimar-te
e conhecer-te;
que em te perder ou ganhar,
o mais seguro ganhar-te
é perder-te.


E quem em ti determina
descanso poder achar,
saiba que erra;
que sendo a alma divina,
não a pode descansar
nada da terra.


Nascemos para morrer,
morremos para ter vida,
em ti morrendo.
O mais certo é merecer
nós a vida conhecida,
cá vivendo.


Enfim, mundo, és estalagem
em que pousam nossas vidas
de corrida;
de ti levam de passagem
ser bem ou mal recebidas
na outra vida.

Luís Vaz de Camões, in «Cartas»

«(...)                                         deste-lhe,
                                                                 o talento de não ter medo.»



Yevgeny  Yevtuschenko. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 158

QUARENTA ANOS

Quarenta anos, a vida chegou à segunda fase.
Eu amei, pensei, lutei na guerra.
Estive aqui e ali, vi algumas coisas,
E algumas vezes fui feliz.

A raiva evitou-me, passou como uma seta,
Mas das balas - dois pequenos vestígios.
E o infortúnio fugiu, como uma gota com asas,
Como água separando-se em gotas.

Venci uma parte, vencerei a segunda
Por mais pesada que seja a mochila.
Que se passa aí, por detrás da montanha?
Da altura embranquecem as minhas fontes.

Quarenta anos. Onde está a última paragem?
Onde se interromperá a minha rota?
Quarenta anos. A vida chegou à segunda parte.
E não experimentei todos os sofrimentos até agora.




David Samoilov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 148

«Os olhos, como uma lâmina que corta a dor.»

Yevgeny Vinokurov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 147
«Picasso dividiu o mundo em partes.
Rasgou a carne das coisas.»




Yevgeny Vinokurov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 146
«...Num sonho viu os fornos de Auschwitz
E cadáveres empilhados em fossas.»




Yevgeny Vinokurov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 145

Allah-Las - Tell Me (What's on Your Mind)



Tell me what I could get from what you had
I'm not feeling yet quite so bad
I'm not getting half of what I earn
Thought that we were set but now I, I've yearned

So tell me what's on your mind
Tell me what's on your mind
Tell me what's on your mind
'Cause I can't find it

All my troubles, yeah
Stem from you
Not much I expected you to do
I'm not feeling quite the way I should
Once I was upset now I've been feeling good

So tell me what's on your mind
Tell me what's on your mind
Tell me what's on your mind
'Cause I can't find it

All my time I gave to you
All those trials you ran me through
Love like your's will have to wait
Not my style to hesitate
I'm not saying that I try
Hard enough to gain my stride
All I have to say to you
Is anything you want me to, so

Recordo-me do pão.

Pão de guerra.


Yevgeny Vinokurov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 144
«Não corro atrás de agradecimentos.
Sou eu que quero agradecer.»



Mikhail Lukonin. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 142
«Tu pensas:
Levarei para ti
O meu corpo cansado.»


Mikhail Lukonin. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 141

(...) «o coração do homem não vive de soluços»

Margarita Aliger. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 132

«Tu estás fria, e a mim a tristeza queima-me.»


Margarita Aliger. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 131

«Só tu não recebeste uma carta dele, noiva da neve.»


Margarita Aliger. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 130

(...)

«A tua espera
Me salvou.
Como sobrevivi, saberemos
Só tu e eu, -
É porque me soubeste esperar
Como ninguém mais.»

Konstantin Simonov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 129

«Espera por mim, que eu voltarei,»


Konstantin Simonov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 128

«Lembras-te, Aliocha, dos caminhos de Smoelensk,
Como caía sem fim a chuva forte,
Como nos traziam leite camponesas lassas,
Em cântaros, como crianças, contra os peitos murchos,

(...)»



Konstantin Simonov. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 127

(...)

«Vê - chegou o tempo das estrelas cadentes
e, talvez, o momento de nos separarmos para sempre...
...E eu compreendo agora um pouco, como é preciso
amar, e ter pena, e perdoar, e
                                             dizer adeus...»


Olga Bergolts. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 123

EU NUNCA POUPO O MEU CORAÇÃO

Eu nunca poupo o meu coração:
nem na canção, nem na amizade, nem na dor,
                                                                                      nem na paixão...
Perdoa-me, querido. O que aconteceu, aconteceu
amargamente para mim. E apesar de tudo isso - sou feliz.

E aquele cuja falta ou apaixonada, inflamavelmente sinto
e aquele que teme imaginárias tragédias,
no espectro, na pequena sombra indigna.
Tenho medo...E apesar de tudo - sou feliz.

Permite estas lágrimas e estes suspiros,
se batem censuras, como ramos à chuva:
terrível completo perdão. Terrível
                                                                   indiferença.
O amor não perdoa. E apesar de tudo - sou feliz.


Olga Bergolts. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 121/2
(...)

«Tudo o que no mundo saiu da mão do homem
Pela mão do homem pode ser reduzido a escombros.
Mas o caso é que
Na sua essência, a pedra 
Não é boa nem má.»


Alexandr Bezmensky. Antologia da Poesia Soviética. Tradução directa do russo, selecção, prefácio e notas de Manuel de Seabra. Editorial Futura., Lisboa, 1973., p. 116