quinta-feira, 11 de maio de 2023

BENDITO SEJA

 Bendito seja o fruto do teu ventre,

minha mãe

minha casa de silêncio,

erguida sobre as montanhas.


Benditos eram os dedais da tua arte, as

agulhas do teu lume,

quando bordavas com fios de prata e dor

os xailes de orações murmuradas,

de vagas entoações de búzios.


Ainda respiro na tua água,

a tua água muito de dentro,

ainda chamo por ti quando os lobos me

procuravam,

quando o terror bate nos olhos dos animais 

puros.


Bendita seja a morada nossa de cada dia

e o belo pássaro do vento

que canta pela última vez nos ramos

da árvore despida.


Bendita sejas para sempre,

minha mãe das terras latas,

minha senhora de irremediável luto.


José Agostinho Baptista. Esta Voz É Quase o Vento. Assírio & Alvim. 2ª Edição , Junho 2006., p. 49/50

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