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quinta-feira, 27 de abril de 2017

"Sobre a Liberdade" (Khalil Gibran)

E um orador disse: Fala-nos da Liberdade.
E ele respondeu:
Às portas da cidade e junto à lareira já vos vi prostrados a venerarem a vossa própria liberdade.
Tal como os escravos se curvam perante um tirano e o louvam enquanto ele os açoita.
Ah, no bosque do templo e à sombra da cidadela já vi os mais livres de entre vós usarem a liberdade como grilhetas.
E o meu coração sangrou por dentro; pois só se pode ser livre quando o desejo de encontrar a liberdade se tornar a vossa torta e quando deixardes de falar de liberdade como objetivo e plenitude.
Sereis verdadeiramente livres não quando os vossos dias não tiverem uma preocupação nem as vossas noites necessidades ou mágoas.
Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida e vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.
E como vos podereis erguer para lá dos dias e das noites a menos que quebreis as cadeias que, na aurora do vosso conhecimento, apertastes à volta do entardecer?
Na verdade, aquilo a que chamais liberdade é a mais forte dessas cadeias, embora os seus aros brilhem à luz do sol e vos ofusquem a vista.
E o que é isso senão fragmentos do vosso próprio ser de que vos libertareis para vos tornardes livres?
Se se trata apenas de uma lei injusta que ireis abolir, essa lei foi escrita com a vossa mão apoiada na vossa fronte.
Não podereis apagá-la queimando os livros das leis, ou lavando as frontes dos vossos juízes, embora despejeis o mar sobre eles.
E se é um déspota que ireis destronar, certificai-vos primeiro de que o trono erigido dentro de vós também é destruído.
Pois como pode um tirano mandar sobre os livres e os orgulhosos, senão exercendo a tirania sobre a liberdade deles e sufocando-lhes o orgulho?
E se se trata de uma preocupação que quereis fazer desaparecer, essa preocupação foi escolhida por vós e não imposta.
E se é um receio que quereis afastar, a origem desse receio reside no vosso coração e não na mão daquele que receais.
Na verdade, todas as coisas se movem dentro do vosso próprio ser em constante meia união, o desejado e o receado, o repugnante e o atraente, o perseguido e o de quem quereis escapar.
Estas coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras, aos pares, agarradas.
E quando a sombra se desvanece e deixa de ser, a luz que resta torna-se sombra para uma nova luz.
Por isso, a vossa liberdade quando perde as cadeias torna-se ela própria uma cadeia de maior liberdade.
Do livro “O Profeta”

sábado, 1 de maio de 2010

Os Adeuses

«E, tal como as estações, também vós, no vosso inverno, negais a vossa
primavera, no entanto, a primavera que repousa em vós, sorri meio adormecida e
não fica ofendida.

(...)

Os vossos pensamentos e as minhas palavras são ondas de uma memória
selada que mantém registados os nossos ontens, e os dias antigos quando a terra
não nos conhecia nem se conhecia a si própria, e as noites em que a terra estava
mergulhada em caos. »


Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923 ,. p.70

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sobre o Bem e o Mal

«Vós sois bons de inúmeras formas e não sois maus quando não sois bons.
Sois apenas vagabundos e ociosos.
É pena que o veado não possa ensinar a rapidez à tartaruga.
Mas o vosso desejo pelo vosso eu gigante reside na vossa bondade: e essa
bondade está no todo de vós.
Mas em alguns de vós esse desejo é uma corrente que se dirige para o mar,
levando os segredos das encostas e as canções da floresta.
E noutros é um ribeiro sereno que se perde nos ângulos e nas curvas antes de
chegar à costa.»


Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923 ,. p.53
«Pois se fizerdes o pão com indiferença, estareis a fazer um pão tão amargo
que só saciará metade da fome.

E se esmagardes as uvas de má vontade, essa má vontade contaminará o
vinho com veneno.»


Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923

Gibran Khalil Gibran, 1908

Sobre o Amor

Quando o amor vier ter convosco,
Seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.
E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob
as asas vos possa ferir.
E quando ele falar convosco, acreditai,
Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte
devasta o jardim.
Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o
vosso crescimento também é para a vossa decadência.
Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao
sol,
Também até às raízes ele descerá e abaná-las-à
Enquanto elas se agarram à terra.
Como molhos de trigo ele vos junta a si.
Vos amanha para vos pôr a nu.

Vos peneira para vos libertar das impurezas.
Vos mói até à alvura.
Vos amassa até vos tomardes moldáveis;
E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos tomeis pão sagrado
para a sagrada festa de Deus.
Toda estas coisas vos fará o amor até que conheçais os segredos do vosso
coração, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do coração da
Vida.
Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor,
Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor,
Para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e
chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.
O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.
O amor não possui nem é possuído;
Pois o amor basta-se a si próprio.



Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923

A chegada do Navio

«Muitos foram os dias de dor que passei dentro das suas muralhas, e muitas
foram as noites de solidão; e quem pode separar-se da dor e da solidão sem
mágoa?

Espalhei demasiados fragmentos do espírito por estas ruas, e muitos são os
filhos da nostalgia que caminham nus por estas colinas, e não posso afastar-me
deles sem peso nem dor.

Não é a roupa que hoje dispo, mas uma pele que arranco com as minhas
próprias mãos.»


Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923
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