«Para lá do cemitério, as chaminés dos fornos de tijolo deitavam fumo. Um fumo negro e espesso saía em grandes volutas por baixo dos grandes lenhados feitos de cana e abatidos contra o chão e depois eleva-se preguiçosamente para o céu. Por cima dos fornos de tijolo e do cemitério o céu estava dum tom ocre, enquanto nuvens de fumo cobriam os campos e a estrada com grandes sombras. Por entre o fumo, junto dos telhados, viam-se mexer homens e cavalos cobertos de poeira encarnada...
Transpostos os fornos de tijolo, a cidade cedia lugar ao campo. Iegoruchka virou-se uma última vez para olhar a cidade, encostou a cara ao cotovelo de Deniska e começou a chorar amargamente...
- Livra! Ainda não choraste tudo, meu palerma? -disse Kuzmitchov. - Olhem para este medricas a choramingar outra vez? Se não queres vir não venhas. Ninguém te obriga!
- Não chores, pequeno, não chores... - disse, por entre dentes, o padre Cristóvão em voz baixa e rápida.
-Não chores, pequeno. Pede a Deus que venha em teu auxílio...Se partes é para teu bem. Os estudos são, como se diz, a luz, e a ignorância, as trevas. Isto é que é a pura verdade.»



Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 7/8
«(...) O rapazinho olhava atentamente aqueles lugares familiares enquanto a odiosa caleça corria à desfilada, deixando tudo para trás de si. Depois da prisão, foi a forja negra de fuligem que ele viu aparecer e desaparecer e depois o cemitério verde e acolhedor, cercado dum murinho de pedra grossa. Para lá do murinho distinguiam-se as cruzes e os jazigos, que, de longe, punham nódoas brancas e alegres por entre a folhagem das cerejeiras, Iegoruchka recordou-se que, quando estavam em flor, essas nódoas se confundiam com as flores de cerejeira num mar de brancura e que, quando as cerejas amadureciam, as cruzes e os jazigos ficavam salpicados de manchas vermelhas como sangue. Sob as cerejeiras, por trás do murinho, dormiam, noite e dia, o pai de Iegoruchka e a avó Zenaida Damilovna. Quando a avó morreu tinham-na posto num longo e estreito esquife com duas moedas de cinco copeques sobre os olhos, que não se queriam fechar. Até ao dia da sua morte estivera tão viva como toda a gente, e quando ia ao mercado trazia macios biscoitos cobertos de grãos de dormideiro. Agora não fazia senão dormir, dormir...»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 7

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Adolescente

Certo verão - eu tinha dezasseis anos - uma voz estrangeira
cantou em meus ouvidos.
Era, lembro-me bem, à beira-mar, entre os regos vermelhos, e a
carcaça de um barco abandonado na areia, tal um esqueleto.
Quis aproximar-me dessa voz, colando o ouvido na areia.
A voz desapareceu
Mas uma estrela cadente
Como se pela primeira vez eu visse uma estrela cadente e nos meus
lábios o sal da vaga.
Naquela noite, as raízes das árvores não voltaram mais.
Na manhã seguinte, uma viagem abriu suas folhas em mim e se
fechou como um livro de imagens.
Eu quis todas as noites ir à praia
Aprender primeiro a praia e partir depois para o largo.
No terceiro dia, amei uma jovem numa colina;
Ela morava numa casinha branca feito capela de montanha, tinha
a mãe velhinha à janela, óculos abaixados para o tricô, sem-
pre calada,
Um vaso de manjericão, um vaso de craveiros.
Chamava-se, parece, Vasso, Frosso ou Bílio.
Assim esqueci o mar.
Numa segunda-feira de outubro
Encontrei um jarro quebrado diante da casa branca
Vassi (para simplificar) estava de roupa negra, os cabelos desfei-
tos, os olhos vermelhos.
E como a interrogasse, disse-me:
''Ela morreu, o doutor disse que ela morreu porque não estran-
gulamos o galo negro nos alicerces...Onde encontrar um
galo negro por aqui...Só animais de casa, e a criação,
vendem toda já crescida no mercado...''
Eu não imaginava assim a tristeza e a morte.
Parti e voltei para o mar.
De noite, na ponte do São Nicolau,
Sonhei que uma oliveira muito velha chorava.



Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 122/123

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Estacas

Os meus ossos estão espetados no deserto, não há
um só no meu corpo que lhe escape.
Cravados todos eles na areia do deserto, uns a seguir
aos outros, alinhados.
Seria absurdo falar-se de esqueleto.
A pele foi entretanto soterrada, há quem já tenha
caminhado em cima dela, uma bandeira, quase uma coroa.
O vento apoderou-se-me das vértebras. O próprio sol
que entre elas brilha é descarnado, um sol deserto, onde
o deserto penetrou.
Talvez pudéssemos lavá-lo, este deserto, quem sabe,
ou amarrá-lo, amordaçá-lo. A pele garante o espaço, o
resto logo se veria.




Luís Miguel Nava. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 160

University Parks

Do céu pende a folhagem.
A miúda angústia a que
de novo apoio os cotovelos
adquire aqui tonalidades de ouro.

Passaram cães que pareciam cabras.
Por entre os vidros
inquietos dos meus óculos, o verde
das folhas tinge o coração.

Nas ervas
que crescem do meu espírito
pequenos animais escondem o focinho.

O mar vem agarrado à luz. As árvores
desafiam o sol como se nele
tivessem as raízes enterradas.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 155

Crepúsculo

Ao sol começa a faltar a lenha, a rua
por onde eu agora sigo
vai só onde a memória a conseguir abrir.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 140

segunda-feira, 26 de julho de 2010

As fogueiras de São João

Nosso destino, chumbo derretido, não saberia mudar
Nada tem que se fazer,
Derramou-se o chumbo na água sob as estrelas apesar das foguei-
ras que queimam.

Se ficas nua diante o espelho à meia-noite, verás...
Verás no fundo do espelho passar um homem que, em teu destino,
Dominará teu corpo,
Na solidão e no silêncio, o homem
Da solidão e do silêncio
Apesar das fogueiras que queimam.

Na hora em que o dia acaba sem que o outro ainda comece,
Na hora em que o tempo se interrompe,
Aquele que desce então, de desde a origem dominava teu corpo
Deverás encontrar,
Deverás procurá-lo para que ao menos alguém o encontre quando
estejas morta.
São as crianças que acendem as fogueiras e gritam diante das chamas
na noite quente
(Houve acaso alguma fogueira que não a acendesse uma criança,
Eróstrato?)
E elas jogam sal nas chamas para que crepitem
(É estranho o olhar que súbito vos lançam as casas, funis de
homens, quando as percorre um reflexo)
Mas tu que conheceste o encanto da pedra sobre o rochedo batido
pelas vagas
No poente onde a calma desceu,
Tu ouviste, no fundo da tua carne, a voz humana da solidão e do
silêncio,
Quando extinguiram-se todas as fogueiras,
Nessa noite de São João,
E decifraste a cinza sob as estrelas.



Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 117/118

domingo, 25 de julho de 2010

''Pôs-se a gritar muito alto para mostrar
que não estava morto.''

SOLOMOS, A mulher de Zante.


in Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 115

Raposódia Numa Noite de Vento

(...)

A lâmpada disse:
«Quatro da manhã.
Eis aqui o número da minha porta
Memória!
Tu tens a chave,
A pequena lâmpada espelha um círculo na escada.
Sobe.
A cama está aberta; a escova de dentes pendurada na
[parede,
Põe os sapatos à porta, dorme, prepara-te para a vida.»
O último revolver da faca.



T.S.Eliot. Antologia Poética. Poesia Século XX. Selecção e Trad. de José Palla e Carmo. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988., p.19
«Eu sei da tua dor, ó Cavaleiro! / A dor da Perfeição que imaginaste!»


Teixeira Pascoaes. Marânus. Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Velho

Tantos rebanhos desfilaram, tantos pobres
E ricos cavaleiros - alguns,
Vindos de cidades distantes, haviam passado
A noite em cavas,
Acendido fogueiras contra os lobos. Vês
A cinza? Feridas redondas e negras, cicatrizadas.
Está coberto de cicatrizes, como a estrada.
Mais longe, no poço seco, jogavam
Os cães raivosos. Não tem olhos, está coberto
De cicatrizes, é sem peso: o vento sopra.
Nada distingue, tudo sabe,
Carcaça vazia de cigarra numa árvore oca.
Não tem olhos, nem mesmo mãos, conhece
A aurora e o crepúsculo, conhece as estrelas
O sangue delas não o alimenta, nem é sequer
Um morto, não é de raça alguma, não morreu,
Assim o esqueceremos, sem linhagem.
As unhas fatigadas de seus dedos
Traçam cruzes sobre lembranças corrompidas
Enquanto sopra o vento desordenado. Neva.
Vi a geada em volta dos rostos.

Vi os lábios húmidos, as lágrimas geladas
No canto dos olhos; vi a prega
Da dor junto às narinas e o esforço
Nas raízes da mão; vi o corpo encontrar seu fim.
Esta sombra não está só, pregada
A esta bengala que jamais se dobra,
E nem mesmo pode baixar, para estender-se.
O sono esmigalharia seu esqueleto
Entre as mãos das crianças que brincam.
Ordena como esses galhos mortos
Que se partem quando a noite cai e o vento
Desperta nos vales,
Ordena às sombras dos homens,
Não ao homem em sua sombra
Que ouve apenas as vozes baixas
Da terra e do mar, lá onde elas encontram
A voz do destino. Fica de pé,
Na margem, entre rodas de ossadas,
Entre montes de folhas mortas,
Gaiolinha vazia esperando
A hora do fogo.

Drenovo, fevereiro, 1937.

Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 113

Santorim

Inclina-te, se podes, sobre o mar, obscuro, esquecendo
O som de uma flauta sobre pés desnudos
Que percorreram teu sono na outra vida, a devorada.

Sobre tua última concha, escreve, se podes,
O dia, o nome, o lugar
E lança-a ao mar, que ela desapareça.

Encontramo-nos desnudos sobre a pedra-pomes
Olhando as ilhas vermelhas mergulharem
No seu sono, em nosso sono.
Encontramo-nos desnudos, aqui, inclinando
A balança para a injustiça.

Tacão do vigor, querer sem falha, amor lúcido,
Desígnios que amadurecem ao sol do meio-dia,
Estrada do destino ao ruído da mão jovem golpeando as costas;
Nesse país que se rompeu, que não resiste mais,
Nesse país que outrora foi o nosso,
Ferrugem e cinza, as ilhas se devoram.

Altares destruídos
Amigos olvidados
Folhas de palmeiras na lama.

Deixa, se podes, que as tuas mãos viajem
Neste ângulo do tempo com o barco
Que tocou o horizonte.
Quando o dado bateu na eira,
Quando a lança feriu a couraça,
Quando o olho reconheceu o estrangeiro,
E se esgotou o amor
Em almas trespassadas;
Quando olhas à volta e encontras
Em tudo os pés ceifados
Em tudo as mãos inertes
Em tudo os olhos escurecidos;
Quando não há mais escolha, nem mesmo
A morte que desejavas tua,
Escutando algum grande grito,
O grito mesmo do lobo,
Teu débito;
Dexa que as tuas mãos viajem, se podes,
Separa-te do tempo enganador,
E abate-te
Como se abate aquele que leva as grandes pedras.



Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 97/8

XX

Andrômeda

Em meu peito abre-se de novo a chaga
Quando as estrelas baixam, misturando-se a meu corpo
Quando o silêncio cai sob o passo dos homens.

Estas pedras que afundam nas idades, até onde me arrastarão?
O mar, o mar, quem o esgotaria?
Vejo as mãos que sinalizam para o abutre, o falcão, toda manhã.
Ligado a este rochedo feito meu pela dor,
Vejo as árvores respirarem o obscuro repouso dos mortos
E os sorrisos, imutáveis, das estátuas.
Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 83

XVI

''E seu nome é Orestes.''
SÓFOCLES, Electra, 674.
Na arena outra vez, e sempre na arena!
Quantas voltas, e circuitos de sangue, sombrios
Degraus de rostos que olham...Esta multidão que me olha,
Que me olhava quando, de pé no carro,
Levantei alto a mão, radiante, e ela me aclamou!
A espuma dos cavalos me açoita. Quando chegarão
À meta? O eixo range, o eixo aquece, quando se incendiará?
Quando se romperão as rédeas, e os cascos
Afinal pisarão a relva tenra
Entre as papoulas onde, na primavera,
Colheste uma margarida?
Eram belos, os teus olhos. Mas não sabias o que olhasses
E eu mesmo não sabia o que olhar, eu que luto,
Justamente aqui, sem pátria - quantas voltas e circuitos ! -
E que sinto meus joelhos curvarem-se no eixo,
Nas rodas, na pista selvagem.
Comodamente dobram-se os joelhos quando os Deuses assim o
determinam.
Ninguém pode escapar; para que lutar, resistir?
Não podes escapar a este mar que te embalou, e que procuras,
Neste instante de luta, no sopro dos cavalos,
Com as canas que cantavam no outono ao modo lídio,
O mar nunca tornarás a ver, nem mesmo de passagem,
Voltando sem delonga à presença das sombras
Eumênides que se aborrecem e não perdoam.


Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 75

terça-feira, 20 de julho de 2010

«[…] Disseram-nos como / no instante em que nascemos a noite se
confundia com o nosso corpo. Víamos / que maiores se tornaram
estas paredes, agora presas / ao rosto materno. A sombra de uma
criança acabaria / aí por encontrar / as suas primeiras imagens. […]
Os olhos não têm pressa; viam ainda essas / recordações que se
tornaram no primeiro / dos nossos segredos. Não era outra a suspeita
que / ficava / do instante em que nascemos, até nos afastarmos de /
um sono que para nós havia de ser / difícil; recebíamos essa dádiva
e vimos como nela se / iniciara / também a culpa. O que era para
nós o nascimento / senão o início de uma separação? […]» («Acerca
de um Estúdio I»).


Fernando Guimarães. O Anel Débil. Porto, Edições Afrontamento, 1992, pp. 7-8.
«A poesia é o silêncio de um nome. Os caminhos a que ela nos conduz são tão próximos como a intimidade de qualquer linguagem. Mas não é em nós que essa linguagem existe. Há nela uma realidade própria que vem recusar a presença de quem é capaz de a pronunciar, porque só deste modo estaria ao nosso alcance revelá-la aos outros. E a essa realidade, que há-de ficar por fim repartida, se poderá chamar silêncio, para que a ninguém pertença.»
Fernando Guimarães. Casa: O seu Desenho, Lisboa, INCM, 1985, p. 10. Poesias Completas, ed. cit., p. 146.
«Alguém procura o livro / submerso; aproxima-se dele com a luz dos meses, / as imagens, a submissa reflexão. Os dedos estremecem / ainda e encontram os pesados arbustos da idade / ou folhas abertas como anéis. O último conhecimento.» («Idade»)



Fernando Guimarães. Poesias Completas vol. I: 1952-1988, Porto: Edições Afrontamento, 1994.,p.118
«Lê o poema, escuta a própria voz / dele, que não é minha, e só existe em nós.»


Fernando Guimarães. Poesias Completas vol. I: 1952-1988, Porto: Edições Afrontamento, 1994.,p.57
«A morte nunca vem pôr em questão a presença do homem no diálogo que mantém com o tempo. Quer dizer, cada um de nós nesse diálogo que é poesia – e, portanto, criação – não se destrói, porque isso não seria mais que fugir absurdamente à própria morte. E o nosso destino é encontrá-la.»

Fernando Guimarães. Poesias Completas vol. I: 1952-1988, Porto: Edições Afrontamento, 1994.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Poema Inicial

Poder-me-ão entender todos aqueles
de quem o coração for a roldana
do poço que lhes desce na memória.

Se alguma coisa vi foi com o sangue.
De alguém a quem o sangue serviu de olhos poderá
falar quem o fizer de mim.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 133

Até à infância

Tive hoje, olhando o céu pela janela do meu quarto, a sensação de que ele se me entranhava até à infância. Nunca supus que em mim houvesse uma profundidade capaz de absorver uma tão extensa superfície azul, a qual vertiginosamente refluía por mim dentro, iluminando espaços de cuja existência eu nem sequer desconfiava. O certo é que, ao atingir maior profundidade, a cor se lhe alterou sensivelmente, embora a natureza dessa mutação não fosse propriamente de ordem física. Foi como se ao chegar a esse ponto, tendo a bomba da memória começado a trabalhar, a luz que sobre ele este mecanismo vomitava lhe alterasse a própria consciência e furiosamente arrancasse ao coração da terra aquele que, a um ritmo idêntico, eu sentia acelerar-se-me entre os ossos.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 107
«Estava de novo na estrada, de novo ao volante do velho sedan azul, de novo só. Rita estava morta para o mundo quando eu lera a carta e me debatera com as montanhas de angústia que se tinham levantado dentro de mim. Olhara para ela, que sorria adormecida, beijara-lhe a fronte húmida e deixara-a para sempre, com um bilhetinho de terno adieu que lhe colara ao umbigo, pois de contrário seria capaz de não o ver.»




Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.277.
«Tenho notado muitas vezes que possuímos tendência para dotar os nossos amigos com a estabilidade de tipo que as personagens literárias adquirem na mente do leitor. Por muitas vezes que reabramos o Rei Lear, jamais encontraremos o bom rei a emborcar a caneca de cerveja, numa grande farra, esquecidos todos os infortúnios, numa alegre reunião com todas as três filhas e os seus cãezinhos de regaço. (...)Sejam quais forem as evoluções por que passou esta ou aquela personagem popular entre as páginas de um livro, o seu destino está fixado no nosso espírito. Similarmente, esperamos que os nossos amigos sigam este ou aquele rumo convencional e lógico que para ele determinámos. (...)E jamais nos atraiçoará, sejam quais forem as circunstâncias. Temos tudo isso bem arrumadinho no nosso espírito, e quanto menos vemos determinada pessoa mais nos compraz verificar, sempre que dela temos notícias, como respeita obedientemente a ideia que fazemos a seu respeito. Qualquer desvio do destino que fixámos parece-nos não só anómalo, mas também contrário à ética. Preferíamos não ter conhecido o nosso vizinho, vendedor reformado de cachorros quentes, se vimos a saber que acaba de publicar o melhor livro de poesia do século.»


Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.275

VII

Vento do Sul


O mar para Oeste se confunde com a linha das montanhas.
A nossa esquerda, o vento do Sul sopra deixando-nos loucos,
Esse vento que descarna os ossos,
Entre os pinheiros e as alfarrobeiras, nossa casa.
Grandes janelas. Grandes mesas
Para escrever as cartas que te havemos escrito
Desde há tantos meses, e que lançamos
Ao centro da separação, para a igualar.
Estrela da aurora, quando baixavas os olhos
Nossas horas eram mais doces que o azeite
Na chaga, mais ligeiras que a água fresca
No palácio, mais plácidas que a penugem do cisne.
Sustentavas nossa vida em tua mão.
Depois do pão amargo do exílio.
Se permanecemos à noite diante a parede branca
Tua voz nos chega como a esperança duma chama;
E esse vento de novo
Afia sua lâmina em nossos nervos.
Escrevemos-te cada qual as mesmas coisas
E cada qual fica silencioso diante o outro
A olhar cada qual para si, o mesmo mundo,
Trevas e claridade sobre a linha das montanhas
E tu.
Que espantarás esta tristeza de nossos corações?
Ontem à noite, um aguaceiro e hoje
Pesa de novo o céu encoberto. Nossos pensamentos
Como as agulhas de pinheiro, amassadas, inúteis
À porta de nossa casa, sob o aguaceiro de outrora,
Esforçam-se por levantar uma torre que desaba.
Nessas aldeias dizimadas,
Sobre o cabo entregue ao vento do Sul
Com esta linha de montanhas diante de nós, que te oculta,
Quem nos creditará por nossa vontade de esquecimento?
Quem neste fim de outono acolherá nossa oferenda?



Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 57/8

sexta-feira, 16 de julho de 2010

II

Outro poço, uma gruta.
Era-nos fácil dele retirar, outrora, ídolos e adornos,
Assim dando prazer aos seus amigos que nos eram ainda fiéis.
Partidas as cordas. Sulcos apenas na borda
Lembram-nos a felicidade desaparecida.
''Os dedos apalpam a borda'', disse o poeta.
Os dedos apalpam o frescor da pedra um instante
E a febre do corpo se espalha na pedra
E a gruta joga sua alma e a perde
A todo instante, cheia de silêncio, sem uma gota.




Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 47


Nota: ''Os dedos da borda'', disse o poeta. Dionysos Solomos, A mulher de Zante:''E os Justos, quantos são eles segundo a Santa Escritura? E, pensando nisso, meus olhos tombaram sobre minhas mãos, postas na borda do poço.''

I

O mensageiro
Três anos o esperamos
Olhos fixos nos pinheiros,
Na margem e nas estrelas.
Estreitamente unidos à relha da charrua, à quilha do barco,
Queríamos achar a semente primeira
E que recomeçasse o drama tão antigo.

Voltamos a casa esfalfados,
Os membros partidos, a boca roída
Pelo gosto da ferrugem e do sal.
Ao despertar, navegamos para o Norte, estrangeiros,
Enterrados no coração dos nevoeiros
Por asas imaculadas de cisnes que nos machucavam.
Nas noites de inverno, o vento furioso do Leste deixava-nos loucos.
No verão, desorientávamo-nos na agonia do dia incapaz de morrer.

Trouxemos estes entalhes de uma arte bem humilde.



Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 45
Um dia, Seferis descreveu-se nos seguintes termos: ''Sou um homem monótono e obstinado que, há mais de vinte anos, não se cansa de repetir as mesmas coisas.''


in 'Pequena História' da Atribuição do Prémio Nobel a Giorgos Seferis, pelo Dr. Kjell Strömberg


Giorgos Seferis. Poemas. Trad. de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. TH. Dimaras. Editora Opera Mundi. Rio de Janeiro, 1973., p. 20/1

quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O Demónio da Perversidade

«Hoje envergo estas correntes e estou aqui. Amanhã estarei desagrilhoado - mas onde


Edgar Allan Poe. Obra Poética Completa. Trad. Introdução e notas de Margarida Vale de Gato. Ilustrações de Filipe Abranches. Tinta da China, Lisboa, 1ª ed. 2009., p. 26

Os nós da escrita

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 104

A Memória

Assim é a memória. Onde quer que eu me encontre abre um buraco, entra na terra, o que me dificulta a marcha ao mesmo tempo que acentua esta estranheza de eu me sentir eu até onde nem mesmo as minhas mãos, ainda que escavassem, lograriam ir. Granitos, xistos, cimentos, a nada ela deixa de aceder por causa deles - às vezes acontece essa inquietante coisa de, num prédio, ser como se ela atingisse o andar de baixo ou outro mais abaixo ainda, o que é de tal forma insidioso que, se alguém que dele chegasse me dissesse nada ter notado, eu ficaria atónito. Mas é na pele que tudo se reflecte com mais intensidade - a memória abre um sulco através dela, espalha-se-lhe à tona com tudo o que da terra atrás de si carrega até se misturar com a saliva, a qual -completamente subterrânea - é o que por fim lhe serve de coroa, aquilo a que chamamos, referindo o mar, rebentação. Vem sempre dar à pele o que a memória carregou, da mesma forma que, depois de revolvidos, os destroços vêm dar à praia.


Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 97

Basalto

Agora que se o mar ainda
rebenta é por acção da memória, arrancam-me
basalto ao coração ondas fortíssimas.

Ainda o vejo às vezes por aí, olhamo-nos
então como se à boca
nos viesse o sabor do nosso próprio coração,
mas pouco há a dizer acerca disso.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 91

Apenas a folhagem

De novo o encontro onde as linguagens abrem umas sobre as outras, o rapaz. Da árvore encarnada, meio dentro da memória, apenas a folhagem salta pelos olhos e se espalha pelo rosto, o que me põe a braços com as palavras. As raízes entram-lhe no sangue, abrem-lhe internos focos de paixão, não tarda que penetrem pela terra e cujos intestinos vão buscar com que saciar-lhe os olhos - as visões ascendem tumultuosamente, como seiva a ferver, creio que por vezes trazem pedra misturada. Lembro-me de o ver assim, todo ele tomado pela força da folhagem.



Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 50

ARS POETICA

O mar, no seu lugar pôr um relâmpago.


Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 44.

O Tanque de Bashô

O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de
Bashô.
A água maravilha-se.

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,
o dia decompõe-se, o sangue explode contra a claridade.

Um nó de leite a nudez cresce pela água.


Luís Miguel Nava. Poesia Completa 1979-1994. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral e Org. e Posfácio de Gastão Cruz. Publicações Dom Quixote, Porto, 1ª ed. 2002., p. 40

terça-feira, 13 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

«(...) Poe consagrará, não obstante, a imaginação como única indutora do entusiasmo da alma, via para atingir aquilo que designou como «Beleza superna», distinguindo-se do entusiasmo do coração, induzido pelas paixões terrenas e sensuais, já que « o Céu não traz consolação/ Àqueles que ouvem só o eco ao coração» («Al Aaraaf»). Como se sugeriu, o coração percebe já uma realidade adulterada. Mas parece ser, por uma qualquer fatal necessidade, um órgão sobredesenvolvido no poeta ao ponto de ameaçar a sua perdição. Sem a hipersensibilidade emocional, porém, talvez ao poeta não fosse dada a urgência de se salvar pelo esforço de alcançar a beleza «do que outros mundos conterão» (cf. poema «Estrofes»). Daí o coração-lira, tenso e vibrátil, percorrendo a obra de Poe, presente até nas «fibras de alaúde» de um anjo habitado lá no «alto firmamento» («Israfel»), e culminado na visão cosmogónica de universos ciclicamente dilatados e contraídos « a cada pulsação do coração divino» em Eureka, o «poema-ensaio» que o autor escreveria no fim da vida (1848).
Introdução da Tradutora Margarida Vale de Gato


Edgar Allan Poe. Obra Poética Completa. Trad. Introdução e notas de Margarida Vale de Gato. Ilustrações de Filipe Abranches. Tinta da China, Lisboa, 1ª ed. 2009., p. 15/6
«(...) A obstinação com que este órfão, por várias vezes privado de figuras maternas substitutas, se desliga do princípio de realidade tem sem dúvida algo de juvenil, sobretudo na formulação dos seus primeiros poemas: «Eu não fui, desde infância/ Como outros eram...» («[Só]»).
Introdução da Tradutora Margarida Vale de Gato




Edgar Allan Poe. Obra Poética Completa. Trad. Introdução e notas de Margarida Vale de Gato. Ilustrações de Filipe Abranches. Tinta da China, Lisboa, 1ª ed. 2009., p. 13/4
«Poe tem do mundo a visão de um homem com os sentidos perturbados, em ebulição. O mundo é para ele como o espaço para o comedor de ópio. Para o escravo do ópio, o mundo surge ampliado, expande-se para além do ilimitável, acrescentando-se-lhe uma extensão interior, ou uma espécie de alma. Há uma sensação de superabundância no êxtase. E uma dor... Assim, para os olhos de Poe, o louco, o mundo é dilatado, horrível. A sua vida é a de um sonhador.»
Fernando Pessoa


Edgar Allan Poe. Obra Poética Completa. Trad. Introdução e notas de Margarida Vale de Gato. Ilustrações de Filipe Abranches. Tinta da China, Lisboa, 1ª ed. 2009.
Para mim a poesia não foi nunca uma intenção, mas uma paixão; e as paixões merecem ser tratadas com respeito; não devem - não podem - ser excitadas a nosso bel-prazer com vista às compensações triviais, e às honrarias mais triviais ainda, da humanidade.


Edgar Allan Poe. Obra Poética Completa. Trad. Introdução e notas de Margarida Vale de Gato. Ilustrações de Filipe Abranches. Tinta da China, Lisboa, 1ª ed. 2009.

«A necessidade da poesia»

As palavras de Jean Cassou, citadasno incipit, não perderam actualidade: a poesia continua a ser «a mais perfeita expressão do homem, a sua mais alta operação espiritual». Se o seu fim «é explicar o homem, acompanhá-lo, exaltá-lo no decurso da sua prodigiosa ascensão», a poesia não pode, por outro lado, deixar de reflectir «a vida dramática do homem que a todo o custo procura humanizar o mundo, mudar a vida».


Vd. Árvore – folhas de poesia, Edição fac-similada. Introdução e Índices de Luís Adriano Carlos [«Uma Árvore no meio do Cosmos ou o Retorno do Sublime»], Porto, Campo das Letras, 2003. 1.º Fascículo -Outono de 1951. Texto «programático», impresso em itálico.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

«(…) Ó friorento Cristo atraiçoado / Pelo culto que te usurpa a leda fala! / Pois no caudal dos deuses és o facho / De uma meiga alegria que faltava. // Vieste para beber as nossas lágrimas / Com o mesmo amor com que bebias vinho, / Campos humildes, ó deus plebeu, lavravas / E eras nas bodas campestre bailarino, // Doce derriço das samaritanas, / Consolação de corações esquecidos, / Companheiro gentil de putas santas, / Irmão de adúlteras, estrela dos vadios».


Natália Correia. O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II. Lisboa. Círculo de Leitores, 1993., p. 227.
Ora uma noite de luar medonho
(Lembro-me disto como dum sonho)
Alevantou-se um Homem a meu lado,
Todo nu, e desfigurado.

(...)

Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,
Cheio de amor e de terror por esse intruso.
À minha mão direita, ele avançava aereamente,
Com seu ar espectral e transcendente.



José Régio. Poesia I. Lisboa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, p. 49
«O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro.»
(p.11)

«A obra deixa que a terra seja terra.» (p.36)

Martin Heidegger . A Origem da Obra de Arte. Lisboa: Edições 70, 1990.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

o tempo percorre a espinha dorsal, a espinal medula
o céu está vermelho como o inferno
olha comigo como vamos juntos a lado nenhum
se eu fizesse sentido isto quereria dizer alguma coisa
escapar-me-á a entrelinha, o sobressalto
a esquina dos teus olhos virei-a há um segundo
e eu continuo a querer coisas que se apagam como fósforos
nenhum olhar me trará a tua luz


Susana Almeida

quinta-feira, 1 de julho de 2010

« (...)o que é preciso é compenetrarmo-nos de que, na leitura de todos os livros, devemos seguir o autor e nao querer que ele nos siga.»
Fernando Pessoa. Páginas Íntimas e de Auto-interpretação. Ed. por Jacinto do Prado Coelho e Georg Rudolf Lind, Lisboa, 1966, p. 116.