domingo, 29 de dezembro de 2019

“Todos os dias faça alguma coisa de que você tem medo.”

 Eleanor Roosevelt

sábado, 28 de dezembro de 2019

O JOGO DAS PERGUNTAS 
ou A Viagem à Terra Sonora




PERSONAGENS:

 UM OBSERVADOR?
UM DESMANCHA-PRAZERES
UM ACTOR JOVEM
UMA ACTRIZ JOVEM
UM CASAL VELHO PARSIFAL
UM-DA-TERRA, em diversas variantes
E aqueles peregrinos iam, pensativos...
Pareciam vir de longe, os peregrinos.

(Dante, Vita Nuova)
"Não contes a ninguém o que viste; fica-te pela imagem."

(Das palavras do oráculo de Dodona)
Por vezes, a infância parece muito próxima: “If I close my eyes a moment, I am able to bring back that picture very vividly.”
“But I remember [...] feeling both angry and dejected. I had not only made an ass of myself with Miss Hemmings, but that I had perhaps been doing so continuously throughout the previous month; that my friends, for all their congratulations, had been laughing at me.”
romance When We Were Orphans

 escritor Kazuo Ishiguro
“If any one faculty of our nature may be called more wonderful than the rest, I do think it is memory. There seems something more speakingly incomprehensible in the powers, the failures, the inequalities of memory, than in any other of our intelligences. The memory is sometimes so retentive, so serviceable, so obedient; at others, so bewildered and so weak; and at others again, so tyrannic, so beyond control! We are, to be sure, a miracle every way; but our powers of recollecting and of forgetting do seem peculiarly past finding out.”

(Jane Austen, 2003, p.158)
«A psique humana evoluiu para se defender contra a visão da verdade. Para nos impedir de avistar o mecanismo. A psique é o nosso sistema de defesa – ela se certifica de que nunca entenderemos o que está acontecendo à nossa volta. Sua principal tarefa é filtrar informações, mesmo que a capacidade de nosso cérebro seja enorme. Pois seria impossível carregarmos o peso desse conhecimento. Porque cada minúscula partícula do mundo é feita de sofrimento.»

Olga Tokarczuk
"Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos"

 Olga Tokarczuk

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

xv


Corpos há que terminam em pleno mar.
São corpos e são manhãs.
São corpos e são agosto atravessados pelo sol
por breves ventos.

Abandonado limite
quem levando aos lábios a chávenas de café
retém o gesto o vidro os dedos.
Nostálgico café por horas e horas repetido.

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 130/1

''A morte desce-lhe dos lábios''


João Miguel Fernandes Jorge. O Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 129

«A vida uma outra vingança »


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 128

« o tempo certo para cuidar da árvore.»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 128
«eu terei aves quando nelas não pensar.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 126

« No ar sobe o fogo.
Jardim depois da trovoada. Árvores à beira da 
água.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 120

''farrapos de gelo''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 119

Hilda Hilst na Casa do Sol

Cum vero reversus esset


(...)

«Cum vero reversus esset.
Fiquemos por aqui.
Pela parte do demónio.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 110

''mamilos duros''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 109

«a horrível solidão da inocência »

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 105

«O mar entre ruínas.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 104

«O gato reflectido no céu escuro.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 100

''Vivos e mortos têm o mesmo horizonte.''

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 97

«o sangue de cristo nunca me faltou.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 94
«Minha é a fidelidade cega.
Estou entre migalhas de bolo e formigas
estou com o papel de carta»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 94

«Nunca hás-de saber.
A inocência é assim.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 93

ERVAS MARINHAS E MAR AZUL


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 91

Lugares de Memória

Virás dentro do giz, adormecida em nuvens,
                  com esse fio de prata nos cabelos.


António Franco Alexandre


Outros virão mais capazes de gostar.

Morre-se sempre pelo lado do inverno
adormecido em nuvens
vindo dentro de uma árvore
metade das raízes,
a metade dos céus.

Este receio carregado de infância.

Alma pequena,
adormecida,
com esse fio de prata.

O vento as nuvens corpo estendido vencido
pela luz
não tenho mais a pedir
ervas aves e luz.

Vindo de tão perto.


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 89

(...)

«subindo do fundo dos tanques
para morrer à superfície das águas »


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 87

«Um dia, a Consolação há-de perder o cheiro das
algas de madrugada o cheiro do feno ao fim do fia

há-de perder.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 85

''caça da invernia''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 83

«No calmo mundo
o noivo roda até às rosas da manhã
coberto de orvalho conduz o sono até à morte.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 82

«Vou de azulejo em azulejo»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 76
(...)

« A mulher envolta em rendas negras. Vão
jantar na varanda sobre o rio.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 76

(...)

« Seus olhos dão-me fogo os meus dão-
lhe água
a menos que me dê o caminho da lua.»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 73

''o criado mundo''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 71

''claro foi o dia nos olhos das raparigas ''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 68

«(...) obedece incita inspira a dor»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 61

«O sangue o sacrifício e a fraca face.»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 61

«o inverno é agora mais inverno»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 60

domingo, 22 de dezembro de 2019

(...)

«eu já cometi um assassínio já não existo aconteço
quando há frio. Os barcos espedaçam-se cruelmente
                                                                             são
por si a vingança quando não restar senão o céu.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 55
(...)

«O frio anda à sua volta não tem chão
para os seus pés.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 51

''o pão da merenda''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 49

''a primeira puta ecológica''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 49

''doces erecções''


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 48
«Tinha a sua vida de outras vidas.
Pela manhã o ar é um céu molhado.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 47
(...)

«Entre juras e juras sem fim « eu não posso
mais trair-te»,
«eu sou mortal, mas o dia da minha morte
é uma coisa interminável»
iam seguindo nevoeiro adentro.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 45
«(...)              As mãos tombando no rosto os joelhos
e o verso « dou-te um nome de água», um
nome de aventura e de medo»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 43

''brancos ramos de árvore''

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 43

«tinha as mãos limpas e não fumava»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p.  43

«Entrego ao sonho a dor»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 39

«e traz o coração entre duas a-
feições.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 37

«Não arde a neve alta.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 34

pegureiro

pe.gu.rei.ro
pəɡuˈrɐjru
nome masculino
aquele que guarda gadopastorzagal

''asa rutilante''

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 25

«Tinha um colar e o olhar ferido»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 25
«(...)                                             Estende-
-me um cigarro, conta-me os reclames do
extenso muro, os seus amores.

Sem fim. Sem caminho. Eu gosto da preguiça
desta praça. Sob este céu e chuva
lembro-me mais daquilo que não fui.»


João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 22

«(...) e os olhos sofrem.»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 21

«Negro escravo para uma farda brilhante»

João Miguel Fernandes JorgeO Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 17

«os olhos já lá não estão há muito.»

João Miguel Fernandes Jorge. O Roubador de Água. Assírio & Alvim, Lisboa. 1981., p. 16

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

exautoração

 /z/
e.xau.to.ra.ção 
izawturɐˈsɐ̃w̃
nome feminino
1.
ato ou efeito de exautorar, de retirar a autoridade ou o poder que haviam sido conferidos a
2.
destituição de cargo, posto, etc.exoneração
3.
diminuição de valor, prestígio, etc.depreciação

amiserar

a.mi.se.rar 
ɐmizəˈrar
verbo transitivo
despertar a piedade de
verbo pronominal
1.
compadecer-se, apiedar-se
2.
lamentar-se, queixar-se

epifenómeno

e.pi.fe.nó.me.no
epifəˈnɔmənu
nome masculino
1.
FILOSOFIA fenómeno secundário e acessório que acompanha outro reputado primário
e acidental
2.
MEDICINA sintoma que sobrevém numa doença  declarada

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Ainda tem necessidade de fotografar?
Tenho mais necessidade de escrever e de ler sobre fotografia do que de fazer fotografia. A fotografia para mim hoje tornou-se um fenómeno quase fantasma. Olho para certas coisas e vejo que ela é tão, tão fotografia que já não posso fotografá-la. O processo de beleza e de arte estão em diálogo. Quando você olha para uma flor e diz que é linda, você pode estar certa que ela também está achando você bonita. No diálogo as duas coisas não se desprezam, não se esquecem, atraem-se. O diálogo existe mesmo. Como existem várias coisas que me preocupam ligadas à arte e à própria fotografia. A questão da escuta é uma tese que ando a desenvolver.

E significa o quê?
Significa a escuta como uma memória, é uma ajuda. É que a memória é traiçoeira. Então penso no gesto. O que é o gesto? O gesto na arte, o teu gesto para fazer uma gravura é diferente do gesto de fazer uma pintura. O teu gesto significa o tempo para fazer uma escultura ou um desenho. O gesto é uma coisa real e precisa como um eletrocardiograma. Você pega uma pintura e põe e tira, depois põe e tira, até ao momento em que ela se fecha mas você não tem tempo para ficar. A escultura também você tira tanto, tanto, que chega a uma certa altura e pensa: o que é que foi importante? O que tirei ou o que ficou? Veja a experiência do cinema. Toda a gente sabe que um filme só é bom e está pronto quando é cortado no fim, a montagem é que é a definição do filme. É onde fica essa relação do que ficou e do que foi tirado. Se eu fosse cineasta ia aproveitar isso para fazer um filme sobre a saudade.

Teve saudades?
Saudades do que ficou. A saudade é tão importante que no campo da arte ela é não só saudade do que você já fez, como também saudade do futuro, do que tem de fazer.