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sábado, 20 de janeiro de 2024

Sérgio Godinho - Etelvina

 Etelvina com seis meses já se tinha de pé

Foi deixada num cinema depois da matuinéeCom um recado na lapela que dizia assimQuem tomar conta de mimQuem tomar conta de mimSaiba que fui vacinadaSaiba que sou malcriada
Etelvina com dezasseis anos já conheciaTodos os reformatórios da terra onde viviaEntregaram-na a uma velha que ralhava assimAi menina sem juizoNem mereces um sorrisoVais acabar num bueiroSem futuro nem dinheiro
"Eu durmo sozinha à noiteVou dormir à beira rio à noite, à noiteAcocorada com o frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite"
Etelvina era da rua como outros são do campoSua cama era um caixote sem paredes nem tampoSua janela uma ponte que dizia assim:Dentro das minhas cidadesJá não sei quem é ladrãoSe um que anda fora de gradesSe outro que está na prisão
Etelvina só gostava era de andar pela cidadeA semear desacatos e a colher tempestadesA meter-se c'os ricaços, a dizer assim:Você que passa de carroFerre aqui a ver se eu deixoVenha cá que eu já o agarroDou-lhe um pontapé no queixo
"Eu durmo sozinha à noiteVou dormir à beira rio à noite, à noiteAcocorada com o frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite"
Etelvina já cansada de viver sem ninguémA não ser de vez em quando amores de vai e vemPôs um anúncio no jornal que dizia assim:Mulher desembaraçadaQuer viver com alma irmãDe quem não seja criadaDe quem não seja mamã
Etelvina já sabia que não ia encontrarNem um príncipe encantado nem um lobo do marSó alguém com quem pudesse dizer assim:O amor já não é cegoAbre os olhinhos à genteFaz lutar com mais apegoA quem quer vida diferente
O seu homem encontro-o à noiteA dormir à beira rio, à noite, à noiteAcocorado com frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite


De Coração E Raça
Canção de Sergio Godinho

Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso trabalharEm vez de andar para alugarCom escritos na camisaE o dinheiro que desliza do salário prá despesaCompro cama vendo mesa deito contas à pobreza
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso produzirEm vez de ter que partirCom escritos numa mala e a idade que resvalaDo nascimento pra morteVou pra leste perco o norte e o meu corpo é passaporte
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso trabalharEm vez de andar para alugarCom escritos na camisaE o dinheiro que desliza do salário prá despesaCompro cama vendo mesa deito contas à pobreza
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha-cha-cha-chaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha


Assim Como Um Postal Para O Canadá
Canção de Sergio Godinho

Foi a sede, foi a neveE a falta de alguémQue me trouxe ao consoloDe quem o tem
Já vou, meu amor, eu já venhoSe o despertador tocarEstarei contigo ao jantar
Rapariga, mulher fácilDe compreenderTeu palácio onde a chuvaNão tem dizer
Já estou com o cabelo enxutoE a roupa a secar no fornoE os lábios num caldo morno
O correio hoje à tardeTrouxe um embrulhoAgitei-o para verSe fazia barulho
Abri-o e era um par de luvasE um metro de um bom riscadoEstou pronto para o noivado
Passa um carro a guincharDentro da cidadeSegue a multa por excessoDe velocidade
E eu aqui à janelaEsmagando as moscas de verãoCom o corpo a dizer que não
Telefonaste a dizerQue estás atrasadaFoi a sede que me fezVoltar para a estrada
Mas tudo o que quis dizerFica aqui no gravadorO medo, a alegria e a dor

Liberdade


Abaixo o pão, habitaçãoSaúde e educaçãoAbaixo o pão, habitaçãoSaúde e educação
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitaçãoSaúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
A paz, o pão, habitação, saúde, educação...

Sérgio Godinho

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Romance De Um Dia Na Estrada



Andava já há vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
A voltar-se de impaciente
Me fez parar de repente
Era noite e o casarão
Não tinhas lados nem frente
Dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-me a porta
Fiz as luzes se apagarem
Cheguei-me mais à janela
Vi acender-se uma vela
Passos de mulher andarem
E uma mulher muito bela
Chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
Nem ódio nem espingardas
Trago paz numa viola
Quase que não fui à escola
Mas aprendi nas estradas
O amor que te consola
Trago paz numa viola

Meu marido foi pra longe
Tomar conta das herdades
Ela disse "Companheiro"
Eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
Afundados num colchão
Entre arcas e um reposteiro
Descobrimos um vulcão
Era o mês de Fevereiro
E o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
E só conhecia atalhos
E ela a mostrar-me caminhos
Entre chaminés e orvalhos
Pela manhã, sem agasalhos
Voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O que há-de ser de nós

 Já viajamos de ilhas em ilhas

Já mordemos fruta ao relento
Repartindo esperanças e mágoas
Por tudo o que é vento
Já ansiamos corpos ausentes
Como um rio anseia p'la foz
Já fizemos tanto e tão pouco
Que há de ser de nós?
Que há de ser do mais longo beijo
Que nos fez trocar de morada
Dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há de ser, só nós o sabemos
Pondo o fogo e a chuva na voz
Repartindo ao vento pedaços
Que hão-de ser de nós?
Já avivamos brasas molhadas
No caudal da lágrima vã
E flutuando, a lua nos trouxe
À luz da manhã
Reencontramos lágrima e riso
Demos tempo ao tempo veloz
Já fizemos tanto e tão pouco
Que hão de ser de nós?
Que há de ser da mais longa carta
Que se abriu, peito alvoroçado
Devolver-se-á, "Endereço errado?"
Que há de ser, só nós o sabemos
Pondo o fogo e a chuva na voz
Repartindo ao vento pedaços
Que hão de ser de nós?
Já enchemos praças e ruas
Já invocamos dias mais justos
E as estátuas foram de carne
E de vidro os bustos
Já cantamos tantos presságios
Pondo o fogo e a chuva na voz
Já fizemos tanto e tão pouco
Que hão de ser de nós?
Que há de ser da longa batalha
Que nos fez partir à aventura?
Que será que foi
Quanto à quanto dura?
Que há de ser, só nós o sabemos
Pondo o fogo e a chuva na voz
Repartindo ao vento pedaços
Que hão de ser de nós?

Compositores: Ivan Lins / Sergio De Barros Godinho

domingo, 21 de junho de 2020

«Se estou sozinho
E num beco que me encontro
Vou porta a porta perguntando a quem me viu
Se ali morei, se eu era o mesmo e em que ponto
O meu desejo fez as malas e fugiu»

As Armas do Amor - Sérgio de Godinho



Desarmem
Os campos minados da ignorância
Onde se infiltra friamente
O preconceito, esse sim, fatal, letal, brutal
E não há senso que lhe valha
O preconceito desempalha
Animais incongruentes
Atacando pela trilha
De uma ilha outrora virgem
Aparência de virtude
O preconceito nunca falha
Flecha certeira, na esteira da inocência
Aparência de virtude
E por mais que se escude
Na justificação pseudo-ética
Cosmética, caquética
Do seu valor de guardião das morais
Vitais p'ra lá do ano 2000
O preconceito não tem estado civil
É casado com a morte
Divorciado da vida
É viúvo de si mesmo
É solteiro e por junto separado
Suicida
Desarmem o preconceito
Armem por favor as armas do amor
Amar no sentido primeiro e secular
Armem o mar
Armem o vento p'ro uso depois
Vão e regressem depois
Mas por quem sois
Mas por quem sois
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem por favor as armas do amor
Desarmem
As metralhadoras côr-de-cinza
Que defendem a condescendência
Cautelosa, lacrimosa
Das decisões oficiais
Carimbadas despachadas
E só por isso legais
Mas que vão milhas atrás
Das atrozes realidades
Que o corpo grita
E a alma berra
A condescendência não desferra
No cofre forte onde se encerra
A planificação ponderada
De um problema complexo
Há soluções de fachada
Dois mil mortos perfilados na parada
Há palestras sobre sexo
É um problema complexo
Não se dane se ninguém resolve nada
Ano após ano
Dois mil mortos perfilados na parada
Um por ano
Nossa escada em caracol para o nirvana
Desarmem a condescendência!
Armem por favor as armas do amor
Amar no sentido primeiro e secular
Armem o mar
Armem o vento p'ro uso depois
Vão e regressem depois
Mas por quem sois
Mas por quem sois
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem por favor as armas do amor
Desarmem
A pose altiva
Emproada gargalhada
Que veste a incompetência
Incipiência disfarçada de suma
Sabedoria, quem diria
Quem diria que debaixo de uma só alegoria
Tanto exemplo existiria
Exemplos de incompetência
São aos montes, são às serras
Impossíveis de escalar
Passos vãos, inúteis guerras
A incompetência é incapaz de se olhar
O cadáver inocente
É olhado pelo soldado incontinente
Pelo menos é um olhar
A incompetência, nem pensar
Nem pensar em juntar o resultado à vontade
O sonhado à realidade
E do real partir para a utopia
Menos mal, assim seria, menos mal
Desarmem a incompetência!
Armem por favor as armas do amor
Amar no sentido primeiro secular
Armem o mar
Armem o vento p'ro uso depois
Vão e regressem depois
Mas por quem sois
Mas por quem sois
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem por favor as armas do amor
Desarmem
A boa consciência arrogante
Altissonante, complacente
Da intolerância religiosa, da intolerância civil
Da intolerância, tanto faz
Desdenhosa e incapaz
De intuir na diferença
A trave-mestra desta vida
Sal da vida
A intolerância é uma água envenenada
Rota em jorros mas dos gritos só sai água silenciosa
A mais perigosa
Engrossa rios, traz detritos
Traz a caixa das esmolas
Flutuando já tombada
Penetra casas e escolas
Leva livros ditos sagrados
Mas levados mais à letra
Que a própria letra das suas margens
E assim pondo-se à margem
Dos próprios rios sagrados
Desarmem a intolerância!
Armem por favor as armas do amor
Amar no sentido primeiro e secular
Armem o mar
Armem o vento p'ro uso depois
Vão e regressem depois
Mas por quem sois
Mas por quem sois
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem as armas do amor
Armem por favor as armas do amor
Armem por favor as armas do amor
Compositores: Sérgio Godinho

''Depois da dor, como conservar a inocência?''

«Olha os amores são facas de dois gumes
Têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
São desencantos que vivem encantados
Como velas que ardem por dois lados.»

sábado, 20 de junho de 2020

(...)

«Meu amor eu gosto tanto
Da forma como tu gostas
Mas por favor anda buscar
As tuas unhas às minhas costas.»

Sérgio Godinho

2º Andar Direito - Sérgio Godinho

Ele vinte anos, e ela dezoito
E há cinco dias sem trocarem palavra
Lembrando as zangas que um só beijo curava
E esta história começa no instante
Em que o homem empurra a porta pesada
Entra no quarto onde a mulher está deitada
A dormir dum sono ligeiro
A dormir dum sono ligeiro
E no quarto, às cegas
O escuro abraça-o como que a um companheiro
Que se conhece pelo tocar e pelo cheiro
E é o ruído que o chão faz que lhe traz
O gosto ao quarto depois duma rutura
Faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
Dos dias em que um beijo bastava
Dos dias em que um beijo bastava
E agora, da cama
Vem uma voz que diz sussurrando, és tu?
E a luz acende-se sobre um braço nu
E a mulher pergunta, a que vens agora?
É que não sei se reparaste na hora
Deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
Amanhã tenho de ir trabalhar
Amanhã tenho de ir trabalhar
Não fales, que o bebé ainda acorda
Não grites, que o vizinho ainda acorda
E não me olhes, que o amor ainda acorda
Deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais
Deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais
E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
E grita e diz que ele também não se vende
Que quer a paz mas de outra maneira
E nem que essa noite fosse a derradeira
Veio afirmar quer ela queira ou não queira
Que os dois ainda têm muito a aprender
Que os dois ainda têm muito a aprender
Se temos, diz ela
Mas o problema não é só de aprender
É saber a partir daí que fazer
E o homem diz, que queres que responda?
Não estamos no mesmo comprimento d'onda
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
E eu com ar de filme americano
E eu com ar de filme americano
Somos tão novos, diz o homem
E agora é a vez de a mulher se impacientar
Essa frase já começa a tresandar
É que não é só uma questão de idade
O amor não é o bilhete de identidade
É eu ou tu, seja quem for, ter vontade
De mudar e deixar mudar
De mudar e deixar mudar
Não fales, que o bebé ainda acorda
Não grites, que o vizinho ainda acorda
E não me olhes, que o amor ainda acorda
Deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais
Deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais
E assim, se ouviu
Pela noite fora os dois amantes falar
E o que não vi só tive que imaginar
É preciso explicar que sou eu o vizinho
E à noite vivo neste quarto sozinho
Corpo cansado e cabeça em desalinho
E o prédio inteiro nos meus ouvidos
E o prédio inteiro nos meus ouvidos
Veio a manhã e diziam
Telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
Que viveste uns dias assim tão brutais
E que precisas de convalescença
Sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
Mete um atestado ou pede licença
Sem prazo nem vencimento, se preciso for
Sem prazo nem vencimento, se preciso for
(Espero que não seja preciso
Porque não sei como é que eles vão viver sem os dois salários)
Vá fala que o bebé está acordado
O vizinho deve estar já acordado
E o amor, pronto, também está acordado
Mas tem cuidado, trata-o bem muito bem, de mansinho
Que ainda agora vai pisar outro caminho

Compositores: Sérgio Godinho

sábado, 2 de maio de 2020

A Noite Passada - Sérgio Godinho

A noite passada acordei com o teu beijo
Descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
Vinhas numa barca que não vi passar
Corri pela margem até à beira do mar
Até que te vi num castelo de areia
Cantavas: "Sou gaivota e fui sereia"
Ri-me de ti: "Então porque não voas?"
E então tu olhaste
Depois sorriste
Abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
A viola irmã cuidou de me arrastar
Chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
Olhei para baixo dormias lá no fundo
Faltou-me o pé senti que me afundava
Por entre as algas teu cabelo boiava
A lua cheia escureceu nas águas
E então falámos
E então dissemos
Aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
Pela fresta aberta o meu peito fugiu
Estavas do outro lado a tricotar janelas
Vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho: "Olá!"
Toquei-te no ombro e a marca ficou lá
O sol inteiro caiu entre os montes
E então olhaste
Depois sorriste
Disseste: "Aínda bem que voltaste!"

Compositores: Sergio De Barros Godinho

terça-feira, 28 de abril de 2020

12- Maré alta

Letra e música de Sérgio Godinho

Aprend'a nadar, companheiro
aprend'a nadar, companheiro
que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta
Maré alta
Maré alta
(Aprend'a nadar,...)
(Aprend'a nadar,...)
Aprend'a nadar, companheiro
aprend'a nadar, companheiro
que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui

10- A linda Joana

Letra e música de Sérgio Godinho

Olhai a linda Joana
que linda que ela vai
com pombas no vestido
que muito bem lhe cai
e rolas na garganta
que ao cantar encanta
Que é da manta, qu'é da manta
levou-a pra dormir
Três homens a seguem
qual será seu
ai sim, ai não, ai sim, que sou eu
Olhai a feia Alcina
que feia que ela vai
com corvos no vestido
que muito mal lhe cai
e corujas na garganta
que os pardais espanta
Que é da manta, qu'é da manta
levou-a pra dormir
Três homens a seguem
qual será seu
ai não, ai sim, ai não, não sou eu
(Olhai a linda...)
Olhai a linda Joana
que linda que ela vai

11- Romance de um dia na estrada

Letra e música de Sérgio Godinho

Andava há já vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Quando um barulho de cama
a voltar-se d'impaciente
me fez parar de repente
era noite e o casarão
não tinhas lados nem frente
dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente
Me fez parar de repente
Ó da casa, abram-m'a porta
fiz as luzes se apagarem
cheguei-me mais à janela
vi acender-se uma vela
passos de mulher andarem
e uma mulher muito bela
chegou-se mais à janela
chegou-se mais à janela
Não tenhas medo, eu não trago
nem ódio nem espingardas
trago paz numa viola
quase que não fui à escola
mas aprendi nas estradas
o amor que te consola
Trago paz numa viola
Trago paz numa viola
Meu marido foi pra longe
tomar conta das herdades
ela disse "Companheiro"
eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"
Ela disse "Companheiro"
A contas com a nossa noite
afundados num colchão
entre arcas e um reposteiro
descobrimos um vulcão
era o mês de Fevereiro
e o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão
Descobrimos um vulcão
E eu que falava de estradas
e só conhecia atalhos
e ela a mostrar-me caminhos
entre chaminés e orvalhos
pela manhã, sem agasalhos
voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos
E ela a mostrar-me caminhos
Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

9- Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos

Letra de Sérgio Godinho
Música de José Mário Branco

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
nascidos do mesmo ventre
um vive de joelhos pr'ó outro passar à frente
e esta velha mãe pr'áqui já no sol poente
Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
seguiram pla estrada fora
um voltou-se pra trás, disse adeus que me vou embora
voltaremos trazendo connosco a vitória
De que vitória falas, disse eu então
da que faz um escravo do teu irmão?
ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?
Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde paravam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
e o silêncio enchia de morte o meu coração
Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
não foi pra isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei
Às vezes rogo pragas de os ver assim
sinto assim uma faca dentro de mim
sei que estou velha e doente
mas para ver o mundo girar dum modo diferente
'inda sei gritar, e arreganhar o dente



Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
não quero dar-te conselhos
mas s'é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
doa a quem doer, faz o que tens a fazer
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