DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA
Robert Bresson, 1951

 

ERVA DAS BRUXAS

 Qualquer coisa
indesejada chega ao mundo
e chama por desordem, desordem -

Se me odeias assim, 
porque cuidas em me dar
um nome? Precisas
de acrescentar uma calúnia
à tua língua, de encontrar outra
forma de culpar
uma tribo por tudo -

como sabemos ambos,
se adoras
um só deus, basta-te
 um inimigo -

Eu não sou o inimigo
sou só um estratagema para ignorar
o que vês acontecer
neste canteiro,
pequeno paradigma
de fracasso. Uma das tuas queridas flores
morre aqui quase todos os dias,
e tu não descansas enquanto
não atacas a causa, ou seja,
o que resiste e sobra, o que
parece ser mais forte
que a tua paixão pessoal -

Não estava destinada 
a durar para sempre no mundo real.
Mas porquê admiti-lo agora, se podes continuar 
a fazer o mesmo,
lamentares-te a acusar 
sempre as duas coisas.

Não preciso do teu louvor
para sobreviver. Eu já cá estava
antes de tu chegares, antes
sequer de teres plantado um jardim.
E hei-de estar aqui quando nada mais
houver, só o sol e a lua e o mar e o vasto campo.

Eu serei o campo.


Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 49/50

 

«(...)                          nada
sabes da natureza da alma,
que é não morrer nunca: pobre deus triste,
se nunca tiveste uma alma,
não a podes perder.»

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 47

''Não há desespero como o meu ''

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 45

 « Por vezes um homem ou uma mulher impõem a outro
o seu desespero. Chama-se a isso
abrir o coração, ou, em alternativa, pôr a alma a nu, abri-la -
o que quer dizer que nesse momento eles adquiriram almas -»


Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 43

 e eles pensam-se
livres para ignorar
esta tristeza.


Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 39
Água Tónica de Febre-Árvore de Flor de Idoso
 « Quanto mais me afasto de vós
mais claramente vos vejo.
As vossas almas deveriam ser já imensas
e não aquilo que são,
pequenas coisas que falam - »


Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 37

 «(...), planeando/as vossas vidas fúteis: ides/ aonde vos mandam.»

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 35

 «Perdoa-me se digo que te amo: aos poderosos
mente-se sempre, já que os fracos são sempre 
impelidos pelo pânico.»

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 31

 « só porque pensais que tendes direito
a contestar o que quero dizer:

estou finalmente preparada para impor 
entre vós a claridade.»

(...)

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 25

'' flores azuis na janela da varanda ''

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 23

«as vossas bocas,
pequenos círculos de medo - »

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 23

«Abandonados, esgotámo-nos uns aos outros.»

Louise Glück. A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 15
A ÍRIS SELVAGEM

No fim do meu sofrimento
havia uma porta.

Ouve-me bem: recordo aquilo
a que chamas morte.

(...)

Louise Glück.
A Íris Selvagem. Tradução Ana Luísa Amaral. Relógio D'Água. 1992., p. 11

domingo, 28 de janeiro de 2024

 «Segundo o amor que tiverdes, tereis o entendimento dos meus versos.»

Luís Vaz de Camões

Esgotei o meu mal



Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

 «Que força é essa amigo / que te põe de bem com outros / de de mal contigo.»

Sérgio Godinho


                                                                               Maria Lamas

O nosso mundo é este


(último poema do “Panfleto contra a paisagem” -1936/37)

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa (1931)




Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exato

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo.

José Gomes Ferreira

NÃO, NÃO QUEREMOS CANTAR

 HERÓICAS

VII
                
(Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos.
Recuso-me a ter mais de vinte anos.)
               
Não, não queremos cantar 
as canções azuis 
dos pássaros moribundos. 

Preferimos andar aos gritos 
para que os homens nos entendam 
na escuridão das raízes. 

Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes 
em tardes de fome pitoresca para quadros de exposição. 
Aos gritos como os fogueiros que se lançam vivos nas fornalhas 
para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros. 
Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto 
para o grande monumento à Dor Humana do Egipto. 
Aos gritos como o idílio dum operário e duma operária 
a falarem de amor 
ao pé duma máquina de tempestade 
a soluçar cidades de fome 
na cólera dos ruídos... 

Aos gritos, sim, aos gritos.

E não há melhor orgulho 
do que o nosso destino 
de nascer em todas as bocas... 

...Nós, os poetas viris 
que trazemos nos olhos 
as lágrimas dos outros.

José Gomes Ferreira


                                                  Fotógrafa y vídeo-artista Milena Krawetz


“Choupos” (ed. Assírio & Alvim)
Adília Lopes


 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

domingo, 21 de janeiro de 2024


Elis Regina e Ronaldo Bôscoli

 

No Bico Do Mamilo


No metrôEu penso que passoNum subterrâneoPerto da tua casa
No metrôEu penso que passoNum subterrâneoPerto da tua casa
Como dóiNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco gelado
No metrôEu penso que passoNum subterrâneoPerto da tua casa
Como dóiNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco gelado
E engoliUm ovinho de codorna inteiroSó pra ver se preenchia
Meu sistema estomacalEstomacalMeu sistema estomacalEstomacal(Meu sistema estomacal)
Óleo, manteigaSabão e vejaSuicídio pirataEspelho manchado
Óleo, manteigaSabão e vejaSuicídio piratasEspelho manchado
No metrôEu penso que passoNum subterrâneoPerto da tua casa
Como dóiNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco gelado
No metrôEu penso que passoNum subterrâneoPerto da tua casa
Como dóiNo bico do mamilo um peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco gelado
No bico do mamilo um petelecoUm peteleco geladoNo bico do mamilo um peteleco gelado

 

verbo intransitivo
andar tafultrajar com luxoluxar
A casa das bonecas 
foi demolida

As bonecas
foram parar
ao hospital das bonecas
com maus sonhos


Adília LopesBandolim. Assírio&Alvim, 1ª edição, 2016., p. 37

« O problema de muitos literatos que falam de flores e de frutos, porque os poemas falam de flores e de frutos, é que não sabem nada de botânica. Não sabem nada de nada, muito menos de literatura.»

Adília LopesBandolim. Assírio&Alvim, 1ª edição, 2016., p. 36

BICHOS

 A minha mãe era bióloga. Dizia «O que mata bichos mata pessoas.» As pessoas esquecem-se de que são bichos.

19/5/15


Adília LopesBandolim. Assírio&Alvim, 1ª edição, 2016., p. 32

 Gosto dos outros
que têm defeitos 
gosto dos outros
que não são perfeitos

Adília LopesBandolim. Assírio&Alvim, 1ª edição, 2016., p. 26

 Lena atirou o anel de noivado
à cara do noivo

Adília Lopes. Bandolim. Assírio&Alvim, 1ª edição, 2016., p. 23

Sérgio Godinho - Etelvina

 Etelvina com seis meses já se tinha de pé

Foi deixada num cinema depois da matuinéeCom um recado na lapela que dizia assimQuem tomar conta de mimQuem tomar conta de mimSaiba que fui vacinadaSaiba que sou malcriada
Etelvina com dezasseis anos já conheciaTodos os reformatórios da terra onde viviaEntregaram-na a uma velha que ralhava assimAi menina sem juizoNem mereces um sorrisoVais acabar num bueiroSem futuro nem dinheiro
"Eu durmo sozinha à noiteVou dormir à beira rio à noite, à noiteAcocorada com o frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite"
Etelvina era da rua como outros são do campoSua cama era um caixote sem paredes nem tampoSua janela uma ponte que dizia assim:Dentro das minhas cidadesJá não sei quem é ladrãoSe um que anda fora de gradesSe outro que está na prisão
Etelvina só gostava era de andar pela cidadeA semear desacatos e a colher tempestadesA meter-se c'os ricaços, a dizer assim:Você que passa de carroFerre aqui a ver se eu deixoVenha cá que eu já o agarroDou-lhe um pontapé no queixo
"Eu durmo sozinha à noiteVou dormir à beira rio à noite, à noiteAcocorada com o frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite"
Etelvina já cansada de viver sem ninguémA não ser de vez em quando amores de vai e vemPôs um anúncio no jornal que dizia assim:Mulher desembaraçadaQuer viver com alma irmãDe quem não seja criadaDe quem não seja mamã
Etelvina já sabia que não ia encontrarNem um príncipe encantado nem um lobo do marSó alguém com quem pudesse dizer assim:O amor já não é cegoAbre os olhinhos à genteFaz lutar com mais apegoA quem quer vida diferente
O seu homem encontro-o à noiteA dormir à beira rio, à noite, à noiteAcocorado com frio à noite, à noite, à noite, à noite, à noite


DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA
Robert Bresson, 1951



De Coração E Raça
Canção de Sergio Godinho

Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso trabalharEm vez de andar para alugarCom escritos na camisaE o dinheiro que desliza do salário prá despesaCompro cama vendo mesa deito contas à pobreza
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso produzirEm vez de ter que partirCom escritos numa mala e a idade que resvalaDo nascimento pra morteVou pra leste perco o norte e o meu corpo é passaporte
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha
Agora vamos é ser donos do nosso trabalharEm vez de andar para alugarCom escritos na camisaE o dinheiro que desliza do salário prá despesaCompro cama vendo mesa deito contas à pobreza
Sou português de coração e raçaMeio século comido pela traçaMantidos numa caixa e agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha-cha-cha-chaE agora ou vai ou rachaE agora ou vai ou racha


Assim Como Um Postal Para O Canadá
Canção de Sergio Godinho

Foi a sede, foi a neveE a falta de alguémQue me trouxe ao consoloDe quem o tem
Já vou, meu amor, eu já venhoSe o despertador tocarEstarei contigo ao jantar
Rapariga, mulher fácilDe compreenderTeu palácio onde a chuvaNão tem dizer
Já estou com o cabelo enxutoE a roupa a secar no fornoE os lábios num caldo morno
O correio hoje à tardeTrouxe um embrulhoAgitei-o para verSe fazia barulho
Abri-o e era um par de luvasE um metro de um bom riscadoEstou pronto para o noivado
Passa um carro a guincharDentro da cidadeSegue a multa por excessoDe velocidade
E eu aqui à janelaEsmagando as moscas de verãoCom o corpo a dizer que não
Telefonaste a dizerQue estás atrasadaFoi a sede que me fezVoltar para a estrada
Mas tudo o que quis dizerFica aqui no gravadorO medo, a alegria e a dor

Liberdade


Abaixo o pão, habitaçãoSaúde e educaçãoAbaixo o pão, habitaçãoSaúde e educação
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitaçãoSaúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sérioQuando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir
A paz, o pão, habitação, saúde, educação...

Sérgio Godinho

''país paupérrimo''

 https://www.dn.pt/opiniao/cavaco-e-a-sua-arte-de-nos-fazer-esquecer-como-governou-16980923.html/

 ''PSD hegemónico''

Pedro Mexia

 ''Cavaco Silva está viciado no auto-elogio.''

Pedro Mexia

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

"Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber".

Trecho do livro O caderno rosa de Lori Lamby
 Escritora e poeta Hilda Hilst.


“Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha”, escreveu em 1959, no livro Roteiro do Silêncio.

Hilda Hilst


'' As coisas avançaram evidentemente, mas o fascismo está sempre a espreitar uma ocasião, um buraquinho, um sítio, um país, um ser humano. Está sempre ali para saltar em cima. Nós, portugueses e brasileiros, que já passamos por fascismos, sabemos que eles estão por aí. E, pior, agora estão por aí a olhar para nós com suásticas tatuadas nos braços.''

Entrevista, Maria Teresa Horta


Dora Maar, 1936 | Fotografia Man Ray 

 Minha Senhora de Mim, de 1971

Maria Teresa Horta

Poetisa

''Eu gosto muito dessa palavra poetisa. Várias vezes os poetas e os críticos me disseram: 'Você é uma grande poeta'. E eu sempre disse que isso é mau português. Eu não sou um, sou uma. Faz toda a diferença.''

Maria Teresa Horta

“Os fascistas estão por aí com suásticas tatuadas a olhar para nós”

Maria Teresa Horta

King Crimson - Epitaph


The wall on which the prophets wroteIs cracking at the seamsUpon the instruments of deathThe sunlight brightly gleams
When every man is torn apartWith nightmares and with dreamsWill no one lay the laurel wreathWhen silence drowns the screams
Confusion will be my epitaphAs I crawl a cracked and broken pathIf we make it we can all sit back and laughBut I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be crying
Between the iron gates of fateThe seeds of time were sownAnd watered by the deeds of thoseWho know and who are known
Knowledge is a deadly friendIf no one sets the rulesThe fate of all mankind I seeIs in the hands of fools
The wall on which the prophets wroteIs cracking at the seamsUpon the instruments of deathThe sunlight brightly gleams
When every man is torn apartWith nightmares and with dreamsWill no one lay the laurel wreathWhen silence drowns the screams?
Confusion will be my epitaphAs I crawl a cracked and broken pathIf we make it we can all sit back and laughBut I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be crying
CryingCryingYes, I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be cryingYes, I fear tomorrow I'll be cryingCrying

Exílio


Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

Explicação do País de Abril

 aís de Abril é o sítio do poema.

Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não vem na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.

                                                                                 Manuel Alegre

Abril de sim, Abril de Não

 Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.
 
Manuel Alegre

Abril


Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer
pelo rosto das mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
pelas ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

Ardiam as palavras
Nesse mês
e foram vistos
dicionários a voar
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril que veio e que partiu.

Abril
a deixar sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver.


José Fanha, Lisboa, Portugal
(Do livro "Tempo azul")

 Poema: A Cor da Liberdade


 
 
               Não hei-de morrer sem saber
               qual a cor da liberdade.
 
               Eu não posso senão ser
               desta terra em que nasci.
               Embora ao mundo pertença
               e sempre a verdade vença,
               qual será ser livre aqui,
               não hei-de morrer sem saber.
 
               Trocaram tudo em maldade,
               é quase um crime viver.
               Mas, embora encondam tudo
               e me queiram cego e mudo,
               não hei-de morrer sem saber
               qual a cor da liberdade.
 
Jorge de Sena    
(1919-1978)  

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

 Reconhece-se sem ascendência,

sem descendência
e sem paciência para estes dias,
para esta televisão, para este jornalismo,
para esta classe média da democracia,
para este subsídio de Natal,
para esta indevida abundância,
para esta tanta ignorância.

Enfim, problemas de primeiro mundo,
e lembra-se do senhor Feynman
a explicar teoria quântica às prostitutas de Las Vegas.

Não sabe de física quântica,
sabe de corpos e de corações,
de axiomas, de princípios e de intenções,
sabe que até os monarcas obedecem ao corpo.

E pensa em faias, teixos e choupos
e que a verticalidade não é uma qualidade da carne.

Agora que a elasticidade das palavras
ultrapassa todas as figuras de estilo,
se lessem Tolstói e Dostoiévski,
seriam menos filisteus,
seriam menos embusteiros.

Mas gabam-se de fazer negócios da China,
sem conhecer Pequim,
saber uma palavra de mandarim,
saber quem foi Mao Tsé-Tung,
ter visto um dragão,
corpo de tigre, barbas de bode,
barbatanas de carpa e barriga de cobra,
diz a lenda que capaz de cuspir fogo,
convocar o vento, invocar a chuva e voar,
um dragão pode ficar tão grande quanto o céu
ou tão pequeno quanto a cabeça de um alfinete.

Se não tinhas, não vendias!
Pelo que não finjam que não sabem do que está a falar,
pois os ludibriados, como os amantes pretéritos,
guardam as mesmas más memórias.

Poema de Raquel Serejo Martins