domingo, 25 de dezembro de 2022


                                                                                                 Dara Scully


Carlos do Carmo - Estrela da Tarde


Era a tarde mais longa de todas as tardesQue me aconteciaEu esperava por ti, tu não vinhasTardavas e eu entardeciaEra tarde, tão tarde, que a bocaTardando-lhe o beijo, mordiaQuando à boca da noite surgisteNa tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijoQue a boca pediaE na tarde ficamos unidos ardendo na luzQue morriaEm nós dois nessa tarde em que tantoTardaste o sol amanheciaEra tarde demais para haver outra noitePara haver outro dia
Meu amor, meu amorMinha estrela da tardeQue o luar te amanheçaE o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amorEu não tenho a certezaSe tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amorEu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noitesQue me adormeceramDos noturnos silêncios que à noiteDe aromas e beijos se encheramFoi a noite em que os nossos doisCorpos cansados não adormeceramE da estrada mais linda da noiteUma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noiteNos aconteceramEra o dia da noite de todas as noitesQue nos precederamEra a noite mais clara daquelesQue à noite amando se deramE entre os braços da noite de tantoSe amarem, vivendo morreram
Meu amor, meu amorMinha estrela da tardeQue o luar te amanheçaE o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amorEu não tenho a certezaSe tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amorEu não tenho a certeza
Eu não sei, meu amor, se o que digoÉ ternura, se é riso, ou se é prantoÉ por ti que adormeço e acordoE acordado recordo no cantoEssa tarde em que tarde surgisteDum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despidaDe mágoa e de espantoMeu amor, nunca é tarde nem cedoPara quem se quer tanto
Compositores: Ary Dos Santos / Fernando Tordo

 « - Uma pequena esperança, mesmo uma esperança sem esperança, não prejudica ninguém - disse eu.»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 92

 « Somos todos, ou quase todos, os pupilos daquela ciência do século XIX que nega a existência de tudo o que não se sabe medir ou explicar.»


John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 84

 « O reu diz os seus segredos a um poço e eles ficam sem segurança. Quem confia os segredos ou uma história, deve contar com a pessoa que o escuta ou lê, pois uma história tem tantas versões como leitores. Cada um toma dela o que quer ou o que pode, talhando-a assim à sua própria medida. Alguns aceitam uma parte e rejeitam o resto; outros passam-na à peneira dos seus conceitos, outros ainda transformam-na a seu  bel-prazer.»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 84

 

Quem faz o Natal para todos nós? São os amigos
Quem nos dá prazer e dá calor? São os amigos
A quem é que damos a ternura? É aos amigos
A quem é que damos o melhor? É aos amigos

Os amigos são o nosso bolo de Natal
Cada amigo nosso vale mais que um Pai Natal
É um irmão nosso que trabalha no Natal
E com suas mãos faz a diferença do Natal

O dinheiro pouco importa
O que importa é a verdade
E a prenda mais valiosa
É a prenda da amizade

Quem faz das tristezas forças
E das forças alegrias
Constrói à força de Amor
Um Natal todos os dias. 

"Os Operários do Natal" - textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa

 «A beleza está à flor da pele e deve vir do interior.»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 82

 «Como se consegue que um joão-ninguém qualquer massacre outros homens numa guerra?»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 70

 «Mary...ouves-me? Que és tu lá por dentro?»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 63


Anne Brigman (née Nott; December 3, 1869 – February 8, 1950) was an American photographer

 

« O homem grego não teme o nu. O nu é para ele simultaneamente natural e sagrado.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 463

 «(...), um espaço vazio que é o espaço da sua respiração.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 457

 «Os Kouros ensina uma poética - uma arte do ser. Diz-nos que só estando poeticamente no mundo, estamos realmente no mundo.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 456

« Neles a beleza é directamente moral.»

Kouroi Dóricos

Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 454

 « O tempo apodreceu e desfez estátuas mais antigas, feitas de madeira, os xoana. Apenas podemos ver na Hera de Samos, cujo longo corpo cilíndrico sobe do chão como um tronco de uma árvores, uma obra que conserva na pedra a forma que a madeira impunha aos xoana.


Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 452

terça-feira, 13 de dezembro de 2022


                                                                     Dara Scully

ROSALÍA - Por Mi Puerta No Lo Pasen

En la verde oliva canta, ay que cantaEn la verde olivaEn la verde oliva canta, ay qué cantaEn la verde oliva
Qué pájaro sería aquelQue canta en la verde olivaCorre y dile que se calleQue su cante me lastima, correY dile que se calleQue su cante me lastima
Tú seras mi prenda queridaTú seras mi prenda adoradaTu seras el pájaro cucoQue alegre canta en la madruga
Ay que te quieroCuanto te quieroCuanto te quieroSin ti mi almaPa' que la quiero
Y por mi puerta no la pasenNo la pasen por mi puertaY por mi puerta no la pasen no laPasen por mi puerta
Ya yo he dicho que tu entierroNo lo pasen por mi puertaPorque mirarte no quieroA la carita ni viva ni muerta
Ya yo he dicho que tu entierroNo lo pasen por mi puertaPorque mirarte no quieroNi a la carita ni viva ni muerta
Las entrañas mías, por ti las daréQue yo me encuentro paga'oCon que tu me cameles bien

 Diz Heraclito de Éfeso:

«Não compreendem que o que se opõe se reúne em si mesmo: harmonia de tensões opostas, como a do arco e da lira.»

 « O homem cai com fragor e as suas armas ressoam sobre ele.»

Homero, Ilíada (C.V., 42)

« O homem grego é o homem da tragédia e da catharsis.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 447


                                                                                                 Dara Scully

 «(...), o mal é a queda do ser no não-ser.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 446

 «Porque sabem que o chaos é abismo hiante.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 446

 « O que o homem grego espera do poeta, do pintor, do escultor, do arquitecto e do músico é que lhe revele o divino.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 444


                                                                            Dara Scully

 « Como os poetas nos recomendam o homem não deve, porque é

homem, pensar apenas nas coisas humanas, nem porque é mortal,

pensar apenas nas coisas mortais: o homem deve, na medida das

suas possibilidades, viver uma vida divina.»


Aristóteles, Ética a Nicómaco (X.7. 1177 B 30)

 « Mas o pensamento grego crê na aletheia , crê no não coberto, no não-oculto, procura o homem não-coberto, nu.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 441

 « O nu é uma invenção grega.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 441

 « - É aqui que vocês moram?

Gela olhou-o de frente:

- Nós não moramos aqui nem em nenhum outro lugar - disse ela - nós não moramos, nós vamos.»


 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 433

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Lana Del Rey - Did you know that there's a tunnel under Ocean Boulevard


Did you know that there's a tunnel under Ocean Boulevard?Mosaic ceilings, painted tiles on the wallI can't help but feel somewhat like my body marred my soulHandmade beauty, sealed up by two man-made wallsAnd I'm like
When's it gonna be my turn?When's it gonna be my turn?Open me up, tell me you like itFuck me to death, love me until I love myselfThere's a tunnel under Ocean BoulevardThere's a tunnel under Ocean Boulevard
There's a girl that sings Hotel CaliforniaNot because she loves the notes or sounds that sound like FloridaIt's because she's in a world preserved, only a few have found the doorIt's like Camarillo, only silver mirrors running down the corridorOh, man
When's it gonna be my turn?Don't forget meWhen's it gonna be my turn?Open me up, tell me you like meFuck me to death, love me until I love myselfThere's a tunnel under Ocean BoulevardDon't forget meThere's a tunnel under Ocean Boulevard
Harry Nilsson has a song, his voice breaks at 2:05Something about the way he says, "Don't forget me"Makes me feel likeI just wish I had a friend like him, someone to give me fireLeaning in my back, whispering in my ear, "Come on, baby, you can thrive"But I can't
When's it gonna be my turn?Don't forget meWhen it's gonna be my turn?Open me up, tell me you like itFuck me to death, love me until I love myselfThere's a tunnel under Ocean Boulevard
Don't forget meLike the tunnel under Ocean BoulevardDon't forget meLike the tunnel under Ocean BoulevardDon't forget meLike the tunnel under Ocean Boulevard
Don't forget me, don't forget meNo, no, no, don't forget meDon't you, don't you forget me (no, oh)

De Amor nada Mais Resta que um Outubro

                                               De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia

Cântico do País Emerso

 

Os previdentes e os presidentes tomam de ponta
Os inocentes que têm pressa de voar
Os revoltados fazem de conta fazem de conta...
Os revoltantes fazem as contas de somar.

Embebo-me na solidão como uma esponja
Por becos que me conduzem a hospitais.
O medo é um tenente que faz a ronda
E a ronda abre sepulcros fecha portais;

Os edifícios são malefícios da conjura
Municipal de um desalento e de uma Porta.
Salvo a ranhura para sair o funeral
Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora

Que é dos meninos com cataventos na aérea
Arquitetura de gargalhadas em cornucópia?
Almas bovinas acomodadas à matéria
Pastam na erva entre as ruínas da memória,

Homens por dentro abandalhados em unhas sujas
Que desleixaram seu coração num bengaleiro;
Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras
Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro;

Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa
Passam por mim como alamedas de ciprestes
E a flor de cinza da juventude é uma aresta
Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres

E essa ansidedade de mim mesma me virgula
Paula de pátria entressonhada. É um crisol.
E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula
Sabe-me a sol. Sabe-me a pássaro. Pássaro ao sol.

Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva
De uma angústia florida em narinas frementes.
Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me
a galope num sonho com espuma nos dentes.

E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto!
Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora
E com a tinta azulada desse aceno me pinto.
O cais é a urgência. O embarque é agora.

Natália Correia

Queixa das almas jovens censuradas

 

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Natália Correia

 «(...), pergunto a mim próprio se todos os homens têm um Lugar, se desejam tê-lo ou têm necessidade dele.»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 57

 « Nenhum homem sabe verdadeiramente como são os outros. O que mais pode fazer é supô-los semelhantes a si.»


John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 57

 «Simular a idiotice modifica um estado de espírito e permite tomar uma nova posição mental. Quanto tenho aborrecimentos faço de idiota e a minha mulher não nota as preocupações.»

John Steinbeck. O Inverno do Nosso Descontentamento. Tradução de João Belchior Viegas. Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1962., p. 57

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

 « A glória é maçadora e complicada. Só quero sossego.»


Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 407

''a minha cabeça está cansada''

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 396

'' o estalido dos ramos secos''

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 383

''as aves entontecidas esvoaçavam sem descanso.''

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 383

 

“HÁ SEMPRE UM LIVRO QUE NOS TORNA LEITORES. É AQUELE QUE NÃO SE CONSEGUE PARAR DE LER E QUE, NO FIM, PROVOCA UMA SENSAÇÃO GRATIFICANTE, QUE VAMOS QUERER VOLTAR A SENTIR”

 A comissária do Plano Nacional de Leitura, Regina Duarte

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022



                                                                      Dara Scully


 


pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer


pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas


é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves


já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

**********

escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite do teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste na testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sábia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me.

**********

A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada


esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar


outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada


esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar


outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Adeus

 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

''Parece um lírio de Maio''

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 380

chorar até que a minha solidão se desfaça

 «Ele vai encostar a minha cabeça aos seu ombro para que eu possa chorar, chorar até que a minha solidão se desfaça.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 374

«E ela levava os pés em sangue e o coração pesado.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 374

« Olhei tanto para mim que me esqueci de tudo.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 368

''Perdoai-me a minha vaidade.''

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 368

 « Sem ti em morreria miseravelmente asfixiado entre os trevos e as margaridas.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 359

« Os meus olhos de vidro não têm pálpebras. Só as noites são as minhas pálpebras.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 355

«Quem dá aos pobres empresta a Deus.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 355

'' cansa e magoa os meus olhos de vidro.''

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 352


Desire, 2016
Sven Van Driessche

 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

ACONSELHO-VOS O AMOR




“Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).
ACONSELHO-VOS A LUTA."

De "Cuidar dos Vivos" (1963), incluído em "A Musa Irregular" (1991), de Fernando Assis Pacheco

Visita-me Enquanto não Envelheço



visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

O cortejo dos penitentes

 No cortejo dos penitentes

Vão culpados pecadores da gulaVão culpados da sensualidadeCastigados até à medulaVão os tíbios e frouxos no amorImaculados como o CriadorVão culpados por abstinênciaVão culpados das suas carênciasNo cortejo dos penitentesOs homens cortam suas próprias carnesSão ofertas que fazem aos céusAo mais alto de todos os céusNo cortejo dos penitentesOs sacerdotes da austera vidaVão contentes e muito enfeitadosSobre as cinzas dos sacrificadosE cantam louvoresAo Deus
Abranda SenhorA pena dos mortosP'ra que te louvemCom sono quieto
No cortejoOs penitentesBebem tragos da bebida amargaDa urina que depois vomitamPela noite mal aventuradaNo cortejoOs penitentesComem postas de sangue coalhadoDa sangria dos outros romeirosSuavemente mutiladosE cantam louvoresAo Deus

Fausto Bordalo Dias

 "Pôr a nu as pessoas que violaram a lei, fazê-las tombar e bater nelas com yaras no traseiro"

Leon Tolstói

 "A poesia assim como a prosa é antes de tudo, e sobretudo, uma certa maneira de pensar e conhecer"

V. CHKLOVSKI

O mundo recompensa com mais frequência as aparências do mérito do que o próprio mérito.


Autor: La Rochefoucauld , François   
''Um asno será sempre um asno, mesmo se o cobrires de ouro.''

 Derjavine , Gavril    

 « À senhora L ***

                                     Petrovskoe, 3 de Junho de 18...

                                    Lembre-se de perto,

                                    Lembre-se de longe,

                                    Lembre-se de mim

                                    Hoje e sempre,

                                    Lembre-se até ao túmulo,

                                    Como sei amar fielmente...

                                                                         Karl MAUER..»


''Um sonho apaga o outro''

 Leon Tolstói. Infância e Adolescência. Edição Amigos do Livro, Lisboa, p. 78


Sven Van Driessche is a Polaroid photographer from Belgium

 

« O simples som da sua voz diz tantas coisas ao meu coração!»

 Leon Tolstói. Infância e Adolescência. Edição Amigos do Livro, Lisboa, p. 75

snobs

« - Quem são? - perguntou o Gladíolo.

- Ela é a mulher mais chique e mais bem vestida desta terra. É uma espécie de tulipa. Ele é um snob.

- O que é um snob? - perguntou o Gladíolo.

-É uma espécie de Gladíolo.

- Que fazem os snobs?

- Têm muitos amigos e são muito convidados, e por isso toda a gente gosta muito deles e os convida muito.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 346

''Dorme como se tivesse morrido.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 343

 « (...) e o homem e o rio não se encontravam.»


Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 333

« - A floresta é grande e na escuridão ninguém  a conhece.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 332

 « - Dante foi o maior poeta da Itália, um poeta que conhecia os segredos deste mundo e do outro, pois viu vivo aquilo que nós só veremos depois de mortos.»

Sophia de Mello Breyner Andresen. Prosa. A Fada Oriana (1958). Assírio & Alvim. 1ª Edição, 2021., p. 321