sexta-feira, 26 de novembro de 2021

''Os cães mantiveram características juvenis durante o processo de domesticação, um processo chamado pela Biologia de pedomorfose. Tais características, tanto comportamentais (abanar a cauda, engajar-se em brincadeiras, solicitar colo e carinho e lamber a cara das pessoas) como morfológicas (cabeça e encéfalo menores em relação ao tamanho corporal, focinho mais curto e largo, menor número de dentes e olhos mais arredondados), estão associadas a animais mais dóceis, assim selecionados para nos proteger e ajudar na caça (Ha; Campion, 2019). Pesquisadores russos que mantêm um programa de criação de raposas (Vulpes vulpes) em cativeiro na Sibéria desde 1959 conseguiram obter filhotes dóceis em apenas seis gerações, mantendo as mesmas características pedomórficas apresentadas pelos cães domésticos.''

ESTUDOS AVANÇADOS 34 (98), 2020


 ''compaixão pelo sofrimento mental e social de outras pessoas''

 “O cão, com mais de oito séculos de maus tratos no sangue e na herança genética, levantou de longe a cabeça para produzir um ganido lamentoso, uma voz exasperada e sem pudor, mas também sem esperança, pedir de comer, ganindo ou estendendo a mão, mais do que degradação sofrida de fora, é renúncia vinda de dentro.” 

Saramago

 "Os poetas e os artistas rivalizam na determinação da forma da sua época e o futuro orienta-se docilmente segundo as suas profecias." 

APOLLINAIRE

 "L'avenir n'appartient à personne. Il n'y a pas de précurseurs, il n'y a que des retardataires." 

COCTEAU

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

 o contexto político do sofrimento

 '' animalidade e o desejo físico do homem''

''Ganhamos espaço para o vazio; gostamos muito da nossa morte; trabalhamos esplendidamente por conta dela [...] e o pior é que tudo, espalhado por fora, se liga coerentemente por dentro: a minha, a nossa morte. Trata-se de uma anedota, claro, e de uma metáfora com sentidos muito precisos.''

Herberto Helder

Dentro da linguagem, a morte é constantemente adiada porque infinitamente repetida, porque repetidamente anunciada, nomeada dentro de uma gramática inventada torta.

Herberto Helder 

 Pedro Eiras: “o poema tem de ser conquistado de cada vez. Nem é certo que vivamos sobre terra firme, mas a própria terra tem de ser conquistada. O poema é impuro porque está sempre inacabado, com o barro fresco, as gotas a secar”

''Para o homem medido e comedido, o quarto, o deserto e o mundo são lugares estritamente determinados. Para o homem desértico e labiríntico, destinado à errância de uma marcha necessariamente um pouco mais longa do que a sua vida, o mesmo espaço será verdadeiramente infinito, mesmo que ele saiba que isso não é verdade, e ainda mais se ele o sabe.'' 

Blanchot

 “não sei se fazer um poema não é fazer um pão/ um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas, um dia destes vejo que não vou parar nunca, as mãos súbitas cheias: o mundo é só fogo e pão cozido”

Herberto Helder

 “já nenhum poder destrói o poema.” 


(A colher na boca - Herberto Helder)

 “tão fortes eram que sobreviveram à língua morta”

Herberto Helder

 “Morte ao/meio como alta desarmonia”

Herberto Helder

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

 « - Então, o que estás a sentir? - perguntou-lhe a Sra. Elm, agora a olhar para ela.

 - Que ainda quero morrer. Há já algum tempo que quero morrer. (...)


Matt Haig. A Biblioteca da Meia-Noite. p. 86

«(....), e queria menos mal à virgem por não poder possuí-la do que por achá-la formosa e sobretudo tão pura. Notava muito bem, por vezes, o modo por que ela se fatigava, diligenciando penetrar-lhe o pensamento. Nessas ocasiões afastava-se dela mais triste; sentia-se mais abandonado, mais só.»

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 172

 «Salammbô figurava, na aridez da sua vida, como uma flor na fenda de um sepulcro.»

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 172

'' as cinzas do altar''

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 172

 

turíbulo

nome masculino
1.
recipiente em que se queima incensoincensório
2.
pequeno vaso metálico em que se queima incenso durante certas cerimónias religiosas, geralmente suspenso por correntes que permitem que seja balançado diante do que ou de quem se deseja incensar

 

sandáraca


nome feminino
1.
resina aromática extraída de certas árvores coníferas e empregada na preparação de vernizes
2.
arsénio rubro

«Coberto o rosto com um véu, lançara um galo preto numa fogueira de sandáraca, acesa diante do peito da Esfinge, o Pai do terror.»

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 171

«Mas Salammbô continuava a padecer, as suas aflições tinham-se tornado cada vez mais profundas.»

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 171

 «A serpente de Salammbô tinha já rejeitado  muitas vezes os quatro pardais vivos que lhe ofereciam por ocasião da Lua Cheia e da Lua nova.»

Gustave Flaubert. Salammbô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 169

Wolf Alice - Wicked Game


The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you
And I never dreamed that I'd lose somebody like you
No, I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
No, I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
With you
With you
(This world is only gonna break your heart)
What a wicked game you play, to make me feel this way
What a wicked thing to do, to let me dream of you
What a wicked thing to say, you never felt this way
What a wicked thing to do, to make me dream of you
And I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
No, I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
With you
The world was on fire and no one could save me but you
Strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I'd love somebody like you
And I never dreamed that I'd lose somebody like you
No, I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
No, I don't wanna fall in love (this world is only gonna break your heart)
With you (this world is only gonna break your heart)
With you (with you)
(This world is only gonna break your heart)
No, I (this world is only gonna break your heart)
(This world is only gonna break your heart)
Nobody loves no one

«(...) e consumindo horas a gritar contra ela, como cães ladrando à lua.»

 Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 168

 « Do fundo das ruas mais estreitas, das mais negras pocilgas, saiam constantemente rostos macilentos, homens com perfis de víboras, rangendo os dentes.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 167

''ódios comprimidos''

 Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 167

 

áugure

nome masculino
1.
sacerdote romano que pressagiava pelo voo e canto das aves
2.
figurado adivinho
3.
figurado profeta

'' os comedores-de-coisas-imundas''

 Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 165

 ''choravam as suas grandes salas cheias de azuladas trevas''

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 165

sábado, 20 de novembro de 2021

«Os cabelos arrancados aos punhados, deixavam a descoberto no crânio grandes úlceras;»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 164

''Foram repelidos por uma nuvem de pedras''

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 162

 «(....) e no meio deles reconheciam-se os comedores-de-coisas-imundas, pelas espinhas de peixe que tinham metido entre os cabelos.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 161

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

  ''(...) o homem é o único ser marcado pela consciência da sua morte, o que o faz morrer diariamente.''

Maria Joana Barroca Coder Barbosa 

 Silvina Rodrigues Lopes, ainda em A anomalia poética e dialogando com Calvino, equaciona a possibilidade de “a literatura responder acima de tudo a uma consciência aguda de limites, consciência de mortalidade, ou melhor, de morrer em cada instante como único vestígio da experiência – marca de memória, na memória, que permanece expectante e imperceptível na linguagem que em nós se deteve para passar”

 “não é o ofício do poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer”

Aristóteles

 Silvina Rodrigues Lopes, “O conhecimento da fábula é essencial, não só como condição de acesso à literatura mas, de uma maneira geral, para toda a decifração de uma cultura dominada pela alegoria, construída a partir de figuras codificadas que conferem à fábula um carácter a-histórico”

''Em época alguma os artistas são imunes às “desordens da humanidade”, aos receios, transformações e fracassos de uma sociedade em mutação, quer estes se devam a alterações socioecónomicas quer culturais, onde a evolução e a decadência são duas faces da mesma moeda.''

  ''A todo o momento, o homem tende a justificar a sua pertença ao mundo, uma necessidade de pertença indissociável da certeza da sua finitude e marcada por um profundo desejo de imortalidade. Fá-lo de muitas maneiras e a literatura não é de todo procedimento menor ou excepção no contexto. Como escreve Harold Bloom em O Cânone Ocidental, “Um poema, um romance ou uma peça adquirem todas as desordens da humanidade, inclusive o medo da mortalidade, o qual se trasmuda, na arte literária, na demanda de ser canónico (…) ” (Bloom, 2000)

 “a tragédia enquanto obra de arte não é outra coisa que o modo de abolição do trágico” 

Eduardo Lourenço, 1993

quinta-feira, 18 de novembro de 2021


Acho uma moral ruim

Trazer o vulgo enganador:

mandarem fazer assim

e eles fazerem assado


Sou um dos membros malditos

dessa falsa sociedade

que, baseado nos mitos,

pode roubar à vontade


Esses por quem não te interessas

Produzem quanto consomes

Vivem das tuas promessas

Ganhando o pão que tu comes


Não me dêem mais desgostos

Porque sei raciocinar ...

Só os burros estão dispostos

a sofrer sem protestar!


Esta mascarada enorme

com que o mundo nos aldraba,

dura enquanto o povo dorme,

quando ele acordar, acaba.


Poeta António Aleixo

sábado, 13 de novembro de 2021

 

ergástulo


nome masculino
1.
prisão destinada, entre os antigos Romanos, aos condenados a trabalhos forçados
2.
cárcereenxovia
3.
figurado antro de miséria

 «Na planície não se descobria movimento algum além da ondulação do rio, elevado pela grande quantidade de cadáveres, que a pouco a pouco ia descarregando para o mar.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 150

 

sopitar

verbo transitivo
1.
fazer adormecer, adormecer
2.
abrandar, acalmar
3.
refrear
4.
enfraquecer
5.
dar esperança a

'' o pânico atacou os outros.''

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 149

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

«A desgraça deve servir para nos tornarmos hábeis!»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 153

 

falárica

nome feminino
seta incendiária utilizada na Antiguidade, que transportava estopa a arder

''charcos de sangue''

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 148

«Acima de tudo isto - as vozes dos capitães, o estridor dos clarins e do vibrar das liras - as balas de chumbo e de barro sibilavam e cortavam o ar, fazendo saltar as espadas das mãos e os miolos dos crânios.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 148

«(...), encolhiam os ombros e explicavam tudo com as ilusões da miragem.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 144

''trapos pardos''

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 144

 «A escuridão era cada vez maior. Tinham-se perdido no caminho.»

Gustave Flaubert. Salambô. Texto Integral. Tradução de F. da Silva Vieira. Editorial Minerva. Lisboa., p. 143