quarta-feira, 1 de maio de 2013

«(...) Uma vez por outra, Madelon e eu arranjávamos os nossos momentos antes do jantar, no seu quarto. Mas não eram fáceis de combinar, as entrevistas. Não falávamos delas. Éramos o que havia de mais discreto.
     Com isto não deve imaginar-se que não amava o seu Robinson. Não tinha nada a ver uma coisa com a outra. O caso é que ele brincava aos noivados enquanto ela, naturalmente, ia brincando às fidelidades. Era este o sentimento que entre eles existia. Nestes casos, tudo vai de se entenderem. Ele estava à espera de casar para lhe tocar, e a mim  o para-já. Falara-me aliás de um projecto que também tinha, estabelecer-se com um restaurante mais ela, e largar a velha Henrouille. Tudo muito a sério, claro. «É graciosa, há-de agradar à clientela», previa nos seus melhores momentos. «E de resto provaste-lhe a cozinha, hem? Não teme seja quem for quanto à paparoca!»
 
 
 
Louis-Ferdinand Céline. Viagem ao Fim da Noite. Tradução, apresentação e notas Aníbal Fernandes, Edição Babel, 2010, Lisboa p. 360
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